Artigos próprios

Sobre a inutilidade do vocabulário politicamente correto

Era uma vez um mundo encantado em que para se referir aos indivíduos incapazes de enxergar usava-se – sem maiores problemas – a palavra ‘cego’.

Creio que foi por volta da minha adolescência – nos anos 90 – que se descobriu que essa palavra ofendia aos ‘portadores de deficiência visual’.

Não se ousava mais em conversas – formais ou informais – entre pessoas cultas, ou em matérias jornalísticas, ou em artigos acadêmicos de sociologia… se referir ao ‘deficiente’ como ‘cego’, nem à sua condição como ‘cegueira’.

Quem arriscasse um ‘vi um cego atravessando a rua agora a pouco e quase foi atropelado’ era logo corrigido por uma voz ríspida e cheia de virtude, geralmente fingida: ‘Cego não! Deficiente visual!’

Mas logo alguém percebeu que ‘deficiente’ tem uma carga pejorativa, não era a melhor maneira de chamar os ‘portadores de necessidades especiais visuais’.

Foi nessa época – eu já entrando na juventude – que comecei a ficar confuso toda vez que uma mulher dizia pra mim que tinha um filho ‘especial’, sem saber exatamente se ela o estava elogiando o moleque ou se referindo a alguma doença que ele portasse.

Dia destes estava na casa de uma amiga – escrevendo um trabalho para publicação num seminário de educação, baseada num projeto que desenvolvemos, para o ensino de botânica a cegos – escrevi a palavra ‘cego’ no texto e ela me disse que teria que mudar, que agora o termo ‘não-ofensivo’ não é mais ‘cego’, nem ‘deficiente’, nem ‘especial’, mas… ‘não-vidente’

Ri bastante e não levei fé – mas sim, chequei depois, e os mais modernos artigos em humanas têm mesmo usado ‘não-vidente’ para se referir aos ‘cegos’ e ‘vidente’ para se referir aos que possuem ‘visão normal’.

Aliás: nunca diga – entre pessoas esclarecidas – que quem enxerga bem tem ‘visão normal’: corre o risco de levar uma bofetada e ser chamado de fascista. Eu vejo a vida melhor no futuro, eu vejo isso em cima… desculpe, me empolguei.

Por que os termos politicamente corretos e as definições politicamente corretas mudam com tanta frequência entre este povo e porque este povo nunca se dá por satisfeito com as próprias novas definições e termos?

Numa hora você abre uma destas revistas ou páginas de internet destinadas a ativistas do movimento africanista (revista Raça, portal Geledés e tosqueiras semelhantes) e lá estão eles dizendo: ‘nada de nos chamar de preto, o respeitoso é chamar de negro’; passa meio tempinho, você abre o mesmo portal e lá está o mesmo articulista ‘Esqueçam o que falei sobre negro, este termo é ofensivo, vem de nigger (não, não vem, mas já ouvi vários africanistas dizendo que vinha), nos chamem afrodescendentes’, e depois negro de novo, e muda mais uma vez.

Outras vezes não é o termo que exigem que se mude, mas o próprio conceito: ativistas trans se esforçam para mudar, por força de lei inclusive, as próprias definições de:

1. Transtorno psiquiátrico
2. Homem e mulher.

Homem e mulher são os termos em língua portuguesa para se referir aos conceitos ‘indivíduo humano do sexo masculino’ e ‘indivíduo humano do sexo feminino’, respectivamente.

Já ‘transtorno psiquiátrico’ é a expressão para se referir a um conceito que pode ser definido como ‘sofrimento psíquico em humanos motivado por uma alteração aguda ou crônica do funcionamento do sistema neuro-endócrino’.

Alguns transexuais e ativistas pretendem que pessoas que – por funcionamento defeituoso de seus sistemas neuro-endócrinos – sofram psiquicamente de maneira crônica e anormal pelo fato de que pertencem ao sexo masculino passem a ser tratadas não mais como portadoras de tal transtorno, mas como mulheres saudáveis, de fato e de direito.

Para isso é preciso que concordemos em redefinir os próprios conceitos de homem, mulher e transtorno psiquiátrico. Ou fingir coletivamente que redefinimos.

Assim como mudar ‘cego’ para ‘deficiente visual’, e depois para ‘portador de necessidades especiais visuais’, e agora para ‘não-vidente’, a estratégia não vai funcionar.

A chave da compreensão sobre o porquê de ativistas do politicamente correto viverem mudando definições e termos ‘certos’ e nunca descobrirem aqueles que finalmente e de fato ‘não sejam ofensivos’ está no clássico modelo semiótico de Peirce: ‘cego’ é significante, ‘o cego’ é o interpretante, e cegueira é o significado.

O que irrita ‘o cego’ – adivinhem – não é o termo – caros ativistas do politicamente correto: é a condição. É – quelle surprise – a ‘cegueira’.

A palavra ‘cego’ (ou qualquer uma das que a substituíram com a promessa de não serem mais ofensivas, e que falharam vergonhosamente na tarefa) é apenas algo que dispara na cabeça do ceguinho a lembrança de que os outros enxergam e ele não. De que os outros conseguem ir rapidamente e sozinhos de uma ponta a outra da cidade e que eles só conseguem com muito e esforço e um monte de ajuda. De que ele não pode ver a tal moça bonita cheia de graça passando pelas areias do Arpoador….

O homem portador de transexualidade não sofre porque você o chama de homem, em vez de chamar de mulher.

Ele sofre porque ele sabe que de fato pertence ao sexo masculino, e não ao feminino.

E se todos paramos de se referir a ele como homem, mas sim como mulher, algum termo terá que ser inventado para substituir aquilo que hoje chamamos de homem, e este termo vai continuar ‘ofendendo’ o transexual.

Porque cego não começa a enxergar quando você o chama de ‘não-vidente’ nem o homem portador de transexualidade se torna um membro do sexo feminino da espécie humana quando você o chama de mulher.

Você – ativista da ‘linguagem inclusiva’ – está atacando o significante, mas o que os incomoda – de verdade – é o significado.

~~ Daniel Reynaldo

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