Artigos próprios LGBT

Eppur si muove!

cid10

Ninguém sabe se esta frase de fato foi dita por Galileu, mas a história é famosa.

Galileu Galilei declarava que a Terra era quem girava em torno do Sol durante o ano. A Igreja Católica dizia que aquilo não poderia ser.

Foi julgado pela Santa Inquisição e, para não morrer, deveria se retratar. Se retratou mas, reza a tradição, disse algo como “Nego em nome de Deus que a Terra se mova em torno do Sol, mas ela se move”.

Transexualidade é um transtorno psiquiátrico

Tiffany é um jogador portador de um transtorno psiquiátrico classificado pelo Código Internacional de Doenças como transexualismo sob o código CID10 F 64.

Não digo isto com a intenção de ofender Tiffany, eu mesmo sou portador de um transtorno psiquiátrico nomeado Transtorno da Ansiedade Social (também conhecido como ‘Fobia Social’ ou ‘Timidez Patológica’), classificado pela mesma OMS sob o código CID10 F 40.1.

Durante um tempo da minha vida já sofri também de depressão grave, CID10 F 32.2. Devo ter outros ‘CIDs’ transitando minha mente.

Quanto ao transexualismo, contudo, existe um movimento político que intenta modificar esta classificação. Embora a Organização Mundial de Saúde e o Conselho Federal de Medicina ainda tratem tal condição como uma patologia, há um forte movimento midiático, político e legal no sentido contrário.

Temo que o esforço hercúleo será irrelevante para melhorar a vida dos portadores do transtorno. Não interessa o nome que você dará: ‘doença’, ‘transtorno’, ‘variação estatística patológica’, ‘frescura’ ou ‘condição natural’. Os nomes não mudam as características intrínsecas das coisas: em Portugal morango é morango, na Jamaica é strawberry, na Espanha é fresa e na Argentina é frutilla.

Mas em todos estes lugares este é o mesmo alimento de origem vegetal gostoso, macio, bom pra colocar em bebidas e doces e para comer in natura, e que estraga fácil.

A Terra já girava em torno do Sol antes que Galileu tivesse a ousadia de descobrir isto e espalhar a notícia, contra as mais modernas leis de deus e dos homens.

Se você parar de chamar transexualismo de doença, se todos nós pararmos por conta de uma negação coletiva da realidade, esta condição vai continuar existindo. E vai continuar sendo o que ela já é: hoje.

Os seus portadores vão continuar tendo ideações suicidas e mutilatórias, vão continuar tendo pesadelos e noites de insônia motivados por isso.

A condição vai continuar sendo patológica, independente do nome que você queira dar a ela. O morango não se torna o que ele é quando você o nomeia, o morango já é tudo que ele é antes que você dê um nome a ele.

Se você não gostar mesmo da palavra morango e passar a chamá-la de abrácamo, ou de quehonãomaho, o abrácamo (ou o quehonãomaho) que você inventou vai ser igualzinho ao morango que existia antes. É por isso que termos ‘politicamente corretos’ para doenças ou outras condições estão sempre mudando.

Lembra quando cego virou deficiente visual? Era pra não ofender os cegos.

Mas aí ‘deficiente’ teve que virar ‘portador de necessidades’, por que deficiente? Dia destes estava escrevendo um artigo acadêmico em educação e minha colega de trabalho me corrigia o tempo todo dizendo que agora o termo politicamente mais correto é não-vidente. E que quem enxerga não tem mais visão normal (o que é normal? perguntam os guerreiros do politicamente correto? ) mas são ‘videntes’.

Eu sou do tempo em que vidente era o engana-trouxa que via o futuro numa bola de cristal.

Mas por que a forma inofensiva pra falar ‘cego’ sempre muda e sempre continua ofensiva? Por que não é o nome que incomoda, seu  estúpido: é a condição.

E a condição não muda quando você inventa um nome novo pra ela.

Tiffany é homem

Por que nós nomeamos as coisas?

Porque em todas as línguas há alguma palavra que une o Tiffany ao Milo Yannopoulos (man, homem, hombre, varo…), e que une a Thammy Gretchen à Catherine Deneuve (woman, mulher, mujer, mulier…)?

E por que demos nomes para o morango, o chiclete, a beterraba, o Flamengo, a UFRJ, o Rex e a caneca vermelha que tá em cima da minha mesa?

Porque palavras são signos. Palavras são uma ferramenta exclusivamente humana pra ligar um conjunto de sons (ou figuras) a uma coisa qualquer identificável e QUE NOS INTERESSE IDENTIFICAR.

Agora: as palavras só possuem utilidade quando elas são capazes de fazer com que os outros seres humanos, ao ouvirem-na em dado contexto sejam remetidos a uma coisa, objeto, animal ou conceito específico cuja classificação em um mesmo ‘pacote semântico’ seja útil aos humanos.

A palavra morango só é útil porque – quando me dá vontade de tomar vitamina de morango – eu chego pra ‘japonesa’ nascida na China lá da pastelaria da esquina da Marques de Macedo e peço: ‘japa, me dá uma vitamina de morango’, e ela, mesmo não sendo tão fluente em português quanto eu, entende que é pra botar umas frutinhas vermelhas com semente e não umas amarelas sem semente na porcaria do leite.

O motivo pelo qual nós, humanos, criamos a palavra morango está relacionado com a identificação de uma série de características botânicas e organolépticas (gostou dessa? viu como meu vocabulário é grandão?) que distiguem o morango da banana, banana esta que a japa teria metido no leite se eu pedisse uma vitamina de banana em vez de uma vitamina de morango.

Já os termos homem e mulher são úteis para uma série de questões humanas: a mais importante das quais diz respeito ao nosso modo reprodutivo.

Humanos são animais dióicos. O que significa que na nossa espécie há indivíduos capazes de produzir apenas gametas grandões e sésseis (incapazes de se mover por conta própria) e cheios de material celular (inclusive organelas completas) dentro e outros que são capazes apenas de produzir gametas relativamente minúsculos (em comparação aos do grupo anterior), móveis, incompletos do ponto de vista celular (lhe faltam algumas organelas) e que são capazes de se fundir aos tais gametas grandões do primeiro grupo transmitindo a eles seu material genético. Estes dois tipos de gameta precisam se encontrar e se transformarem numa única célula para que surja um novo indivíduo.

Ao primeiro grupo chamamos de fêmeas (ou espécimes do sexo feminino), ao segundo chamamos de machos (ou espécimes do sexo masculino).

Dentre as muitas espécies dioicas, alguns exemplos são a maconha, a barata, a tartaruga, o cavalo e o ser humano.

Como temos uma tendência a só classificar com nomes específicos aquilo que nos seja muito importante diferenciar (é por isso que esquimós têm um tantão de nomes para o que chamamos genericamente de branco, é por isso que a Suvinil tem um tantão de nomes para o que chamamos geralmente de verde-claro) há algumas espécies de animais cujos machos têm nomes diferentes das fêmeas: cavalo e égua, gato e gata, cachorro e cadela (ou cão e cachorra) e, principalmente, homem e mulher.

Para as demais usamos apenas um nome e adicionamos a palavra ‘macho’ ou ‘fêmea’ depois de um hifém: cânhamo-macho, tartaruga-fêmea, cágado-macho, lacraia-fêmea. Chamamos a isto de substantivos epicenos.

Para diversas espécies – por motivos fundamentalmente evolutivos (interação entre ecologia e genética) – os machos e as fêmeas têm uma série de características físicas e comportamentais bem destacadas. Nossa espécie é uma destas, e isto reforça ainda mais a vantagem de classificar um grupo com um nome e outro grupo com outro.

Mas tudo isto está prestes – só que eu acho mesmo que não – a cair por terra.

Leis, escândalos, ‘estudos’ filosóficos e chiliques diversos têm sido aplicados para garantir que ‘homem’ possa se tornar uma palavra razoável para se referir à Tammy Gretchen e ‘mulher’ seja uma palavra razoável para se referir a um jogador de vôlei anteriormente conhecido como Rodrigo.

Por que não vai funcionar?

Porque a necessidade de classificar ‘homem’ em um grupo e ‘mulher’ no outro com base em critérios biológicos precede à própria classificação.

Se passarem a chamar (por força de lei, de protestos de gente pelada pintada com tinta guache ou por qualquer outro tipo de chilique) ‘banana’ de ‘morango’ eu vou ter que inventar um outro nome pra informar à japonesa da pastelaria (que na verdade é chinesa) que o que eu quero mesmo é um suco de uma fruta vermelha, oval e cheia de pontinhos escuros em torno dela porque as características emergentes do morango: seu sabor, seus nutrientes, não mudaram… e são eles – na verdade – que me interessam.

Talvez eu comece a nomear tal fruto de ‘abrácamo’.

O nome é só um detalhe: se você der piti porque estou insistindo em dizer que você é homem, tudo bem, eu abro mão de te chamar de homem: a partir de hoje você é uma mulher do sexo masculino.

um comentário

  1. Meu lindo, todas as palavras foram criadas e inventadas.
    Então não entendo a dificuldade de se tratar alguém no masculino ou feminino independente da biologia desta pessoa. Não tem como viver em sociedade desrespeitando os indivíduos. No que te fere ou fere as demais pessoas você tratar qualquer pessoa com o gênero que ela prefere?
    Vai mudar a biologia dela? Não, não vai. Então porquê a necessidade de se impor goela à baixo palavras inventadas apenas para diminuir os outros?
    Fica o questionamento.
    O importante é o respeito, ninguém tem obrigação de concordar, aceitar ou pensar igual como um robô. Mas respeito acima de tudo é fundamental.

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