Artigos próprios Sexismo

As estatísticas populacionais e as pessoas de carne e osso: dois exemplos.

Estatísticas populacionais são úteis tanto para compreender processos sociais quanto para manipular a compreensão pública sobre estes processos.

Se você lançar a pesquisa pnad + jornada de trabalho + salário + mulher + homem no Google você chegará a notícias como

‘Diferença de salário médio de homens e mulheres pode chegar a quase R$ 1 mil no país, aponta IBGE’ (G1, agosto 2017) , ‘IBGE: mulheres ganham menos que homens mesmo sendo maioria com ensino superior’ (EBC, março de 2018) ou ‘Mulheres trabalham 7,5 horas a mais do que os homens devido à dupla jornada’ (Carta Capital, março de 2017)

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Clique no link a seguir e assista Chrsitina Hoff Sommers explicando porque ‘A diferença salarial encolhe quando você leva em conta as escolhas diferentes que homens e mulheres fazem’: https://www.youtube.com/watch?v=QcDrE5YvqTs.

Todas estas notícias são verdadeiras e todas elas são mentirosas. Ou, como dizia minha mãe: são verdades incompletas, portanto, mentiras completas.

O fato é que homens ganham em média salários maiores, trabalham em média mais horas fora de casa, trabalham em média menos horas dentro de casa, estudam menos anos em média, entram em média mais cedo no mercado de trabalho, gastam mais tempo em média no trajeto casa-trabalho-casa já que trabalham em média em empresas mais longe de casa.

Se você quiser checar todas estas informações, basta verificar os dados sobre trabalho produzidos pelo IBGE através do Censo 2010 e das PNADs dos últimos anos.

A divulgação dos dados de desigualdade no trabalho entre homens e mulheres pela grande imprensa e ativismo de extrema-humanas é feita obedecendo a receita do cherry picking, um método de mentir com as estatísticas que consiste em alardear as variáveis que interessam a um discurso (mulheres continuam ganhando salários médios menores, embora exerçam carga de trabalho doméstico maior e estudem mais anos) e omitir propositalmente as variáveis que enfraquecem o mesmo discurso (homens ainda trabalham mais horas médias por semana em atividades remuneradas, entram em média mais cedo no mercado de trabalho, o que se correlaciona diretamente com o fato de estudarem menos anos… entre outras).

O ponto deste texto é outro – contudo – perceba que o tempo todo eu usei a expressão ‘em média’ nas minhas alegações.

Thomas Sowell me lembrava ontem – através de um artigo do The Thomas Sowell Reader – sobre uma das maneiras como estatísticas populacionais podem ser usadas para manipular a compreensão das pessoas sobre o mundo real.

Ele mencionava notícias sobre renda média dos mais ricos e renda média dos mais pobres anunciadas pela grande mídia americana, que frequentemente informa que os mais ricos estão cada vez mais ricos e mais distantes dos mais pobres.

Tais notícias se baseiam em faixas percentuais de renda na população.

O que Thomas argumentava – muito bem – é que os seres humanos de carne e osso, aqueles que não são meras categorias estatísticas, transitam livremente por estas categorias.

Os 1% ou os 0,1% mais ricos dos Estados Unidos hoje não são das mesmas famílias onde estavam os 1% ou 0,1% mais ricos dos Estados Unidos de 20 anos atrás: novas figuras – que antes eram membros da classe média – entraram no grupo dos bilionários – outras saíram.

Tampouco os 10% mais pobres hão de ser os mesmos 10% mais pobres de 20 anos atrás.

Sowell apresenta um estudo em que a variação de renda não era avaliada em categorias médias, mas em indivíduos amostrados ao acaso com base no banco de dados da Receita Federal americana.

Este estudo revelou um cenário bem diferente daquele de ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres.

Quando acompanhavam as variações de renda de indivíduos amostrados ao acaso no banco de dados da Receita Federal, o que se observou foi que os mais pobres tinham uma tendência de crescimento de renda ao longo do tempo muito maior do que os mais ricos.

Voltando à questão das desigualdades trabalhistas entre homens e mulheres, eu vejo fortemente construída no imaginário popular a ideia de que os indivíduos do sexo feminino e masculino estão perfeitamente representados na história (contada pela metade) dos grandes jornais.

É comum eu ouvir afirmações categóricas sobre INDIVÍDUOS por conta das médias populacionais extraídas pelas – bem realizadas, mas mal divulgadas – pesquisas do IBGE.

Se um homem afirma – numa conversa informal entre colegas de trabalho – que na casa dele os afazeres domésticos são igualmente repartidos tenho percebido que são comuns as reações do tipo “é mentira, todo mundo sabe que homem não faz nada em casa, saiu até uma matéria no O Globo sobre isso ontem”.

Entenda: se a família brasileira fosse uma média estatística ela seria mais ou menos assim:

O marido trabalha numa indústria a 20km de casa, por 40 horas semanais, ganhando 3 mil reais por mês, num cargo de ensino médio, enquanto a esposa pedagoga e com pós-graduação trabalha 30 horas por semana numa escolinha primária na esquina da mesma rua em que mora, ganhando 2 mil reais.

Todos os dias ele chega em casa e a comida está pronta, preparada por ela, as cuecas estão lavadas, e foi ela quem botou na máquina e jogou sabão e amaciante. Foi ela também quem botou pra secar, passou e guardou nas gavetas. No fim de semana ambos costumam se unir pra dar uma geral na casa e o almoço de fim de semana – mais gostoso – fica por conta dele.

A família estatística brasileira é descrita acima. Se pudéssemos colocar todos os cidadãos brasileiros perfeitamente na média, seria assim que todos os casais brasileiros se comportariam. Eu diria que – neste cenário – homens e mulheres exercem um papel bastante igualitário, ainda que não idêntico.

Mas esta não é a família de cada indivíduo de carne e osso brasileiro: entre os indivíduos de carne e osso há famílias as mais diversas possíveis:

1. a do sujeito que trabalha em horário integral e que ao chegar em casa tem que fazer arroz e feijão porque a mulher – no melhor estilo do samba ‘Vá morar com o Diabo, composto por Riachão e muito bem gravado por Cássia Eller ( https://www.youtube.com/watch?v=J-2pHYc7fQg ) – passa o dia no Facebook;

2. a da mulher que trabalha mais horas que o marido, em atividade mais pesada, ganhando mais, e que ao chegar em casa ainda prepara comida porque isso ‘é coisa de mulher’;

3. a do casal que divide irmãmente as tarefas domésticas embora ele trabalhe muito mais que ela fora de casa;

4. a do casal que divide algumas das tarefas domésticas mas outras não, embora trabalhem de forma similar fora de casa, porque ela não sabe cozinhar e ele não gosta de arrumar casa… e por aí vai, ao infinito.

Compreender esta questão tão básica de estatística: que as médias não representam cada elemento amostrado, que – na verdade – é comum haver casos em que nenhum elemento amostrado se comporta perfeitamente na média, é uma das tarefas necessárias para compreender honestamente a questão das diferenças entre homens e mulheres no que diz respeito a trabalho, serviços domésticos e renda.

Por mais que a grande mídia e o ativismo misândrico (também conhecido como ‘feminismo maistream’) se esforcem para confundir as mentes.

~~Daniel Reynaldo

 

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