Artigos próprios Racismo

Por que ninguém foge da filha da Taís Araújo?

Faz quase ano que essa polêmica esquentou, e logo depois esfriou.

A Tais Araújo dizendo no TedX SP que lamentava saber que o filho dela experimentaria a sensação de algumas pessoas desconhecidas tendo medo dele apenas por algumas características inatas.

Bem, a polêmica da Taís Araújo passou, mas o tema está vivo, tanto que o retomo em função de um vídeo viralizado essa semana pelo lixeiro carioca Celio Viana – que fala aleatoriamente sobre suas ideias quanto aos impactos de 300 anos de escravidão negra nas Américas sobre aspectos da vida dos descendentes de escravo (link para o vídeo: https://www.facebook.com/celio.gari/posts/1248195381980658 )

Tenho tentado me aprofundar na obra e pensamento de Thomas Sowell, minha melhor referência neste campo, mas sinto um vácuo nos textos dele quanto a isso: que tipos de marcas – afinal de contas – a escravidão eventualmente negra nas Américas por 300 anos deixou: qual o prognóstico e o possível tratamento para elas?

Percebo – em entrevistas que já assisti dele, que ao ser questionado sobre consequências ele força a resposta a ir para as causas do processo.

Concordo com Sowell que o motivo de os colonizadores terem escolhido negros para escravizar não foi racista, concordo com a belíssima frase “Os brancos não inventaram a escravidão, eles acabaram com ela”, concordo que os sistemas de “discriminação positiva” são imorais e contraproducentes… apesar disso entendo que o pós-abolição deixou algumas marcas que podem ser bem nomeadas dentro daquilo que os ativistas africanistas de extrema-sinistra chamam de “racismo estrutural”, algo dentro do famoso exemplo apresentado pela Taís e de alguns dos exemplos mencionados pelo gari no seu vídeo.

Como homem mulato estilo barrão meio-amargo da Garoto – hoje de quase meia idade – me lembro bem das muitas vezes, mais adolescente, em que me senti vítima de preconceito no melhor estilo ‘filho da Taís Araújo’: ao ter que mostrar todo o conteúdo de minha mochila (cuecas sujas e camisetas suadas, tinha passado uns dias na casa da minha tia, aliás, eu mais morava lá do que na minha casa nesta época) a um segurança de supermercado muito desconfiado de que eu tivesse escondido alguma barra de chocolate em algum lugar, por exemplo.

Me lembro que tinha uma camiseta original do Milan – coisa fina, da Lotto, na época que não era tão fácil encontrar camisetas importadas de time de futebol: gastei uns 5 dias de trabalho vendendo bala no trem pra comprar aquela porra.

Se soubesse o quanto de vezes seria parado por policiais depois daquela compra…

Parece que todo policial que me via pensava:

– Esse neguinho de chinelo furado não tem dinheiro pra comprar uma camiseta que custa quase um salário mínimo, para que o maluco é ladrão.

Pior que era verdade. Não a parte de eu ser ladrão, não era: vendia bananada, paçoquita e bala juquinha nos transportes públicos do Rio muito honestamente, meu único crime era – e ainda é – não saber lidar com meu suado dinheirinho. Mas era verdade que eu não podia botar aquela camisa vermelha e preta listrada na vertical que chovia de polícia pra revistar minha mochila: no ônibus, no meio da rua…

Desde que a polêmica ainda estava quente – no meio de tantas discussões paralelas que rolaram – o ponto que considerei mais forte foi também o que menos vi ser debatido.

A atriz mulata começa o vídeo falando sobre o privilégio de ser homem em comparação a ser mulher na sociedade sexista heteronormativa patriarcal judaico-cristã. Usa exatamente o casal de filhos para dizer como o menino já nasceu privilegiado diante da irmã.

Na hora de exemplificar como os negros sofrem preconceito na sociedade racista branconormativa capitalista – entretanto – é um exemplo tipicamente masculino que lhe vem à mente.

tais-araujo-filha

Percebam que ela não diz que quando a filha dela chegar à adolescência… ela sequer diz que quando um dos filhos dela chegar à adolescência… ela especifica, de forma bem clara, que quando o filho dela chegar à adolescência…

Não minta pra mim, que é feio: você alguma vez na vida já ficou de anteninha ligada quando viu um jovem mulato – ou pior: uma dupla de jovens mulatos – se aproximando numa rua escura e deserta. Se eles estivessem de moto e desacelerando é que seu coração foi mesmo à boca, fala pra mim.

Confessa pra mim que se fosse uma dupla de meninas ou uma dupla de adolescentes loiros de olhos azuis você teria ficado mais tranquilo?

Não se sinta mal: você não necessariamente é ‘racista’, provavelmente não é, eu sei.

Acontece que a imensa maioria dos crimes urbanos contra o patrimônio nas grandes cidades de São Paulo pra riba são de fato cometidos por homens negros pobres.

O seu cérebro reconhece o padrão: pelo tanto de vezes anteriores em que você mesmo foi assaltado, pelos tantos assaltos que você viu da janela do ônibus, pelos noticiários da Rede Record na hora do almoço.

Por mais que você respeite os negros como seres humanos, por mais que você mesmo tenha escolhido se casar com um negro, ou que seu melhor amigo  – a pessoa por quem você seria capaz de dar a vida – que tantas vezes te ajudou ou foi ajudado por você seja homem…

Naquela hora tudo que você não quer é perder seu celular que lhe custou quase um salário mínimo e que você ainda nem acabou de pagar. Nesta hora seu cérebro só lembra que o default é que assaltos a celular sejam cometidos por jovens mulatos e negros do sexo masculino.

É por isso que a gente muda de calçada – você também, Taís.

Taís acha que o fato de que negros causam uma maior receio nas pessoas que os encontram em uma calçada a noite é prova de que negros sofrem absolutamente pelo racismo sistêmico que permeia nossa sociedade pós-escravocrata.

Ao mesmo tempo, o fato de que homens causam maior receio nas pessoas que os encontram em uma calçada a noite não parece sequer arranhar a sua ideia preconcebida de que homens se beneficiam inteiramente do sexismo sistêmico na sociedade burguesa patriarcal heteronormativa capitalista cristã.

Eu adoraria que ela desse uma outra palestra no TED Talks tentando unir estas duas partes de seu único exemplo: eu adoraria que ela tentasse refletir sobre o fato de que as pessoas tendem a ter medo especificamente de seres humanos jovens E de pele escura E do sexo masculino ao transitar na rua durante a noite.

Me fez falta – este esforço da Taís – naquele vídeo.

Talvez a fala da Taís começasse a ficar gaguejante e ela sequer conseguisse terminar a palestra ao se dar conta de que – afinal de contas – essa divisão simplista entre oprimidos e opressores – entre homens mulatos que se deram  bem e mulheres mulatas que se deram mal logo ao nascer  – que ela esboça do começo do vídeo, não cabe em análises honestas sobre o mundo das pessoas reais, e seus reais problemas.

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