Imagine que você é um pesquisador e queira comparar as alturas de pessoas que moram em diversos países.

Você vai até a Argentina e mede a altura de pacientes de uma clínica especializada em tratar de anões. Vai ao Uruguai e mede a altura de jogadores de basquete de diversos times adultos masculinos. Vai ao Paraguai e mede apenas a altura de mulheres que brincam numa praça com seus filhos. Chega no Brasil e mede a altura de homens e mulheres que estam comendo no McDonalds do Barra Shopping.

Conclui que os uruguaios são altos, os argentinos são baixinhos e brasileiros e paraguaios têm estatura mediana, com os paraguaios sendo um pouco mais baixos que nós.

Achou estranho? O caso que vou abordar neste texto é bastante semelhante.

ONGs de ativismo LGBT, grande imprensa e órgãos públicos têm mentindo deliberadamente quanto à expectativa de vida de transexuais

Jogue “expectativa de vida transexuais” (sem as aspas) no Google.

O que fazer quando órgãos “tão confiáveis” como O Globo, Senado Federal, Revista Época, Empresa Brasileira de Comunicação, Huff Post, Canal Futura e Anistia Internacional combinam de informar que a expectativa de vida de transexuais é de menos da metade da expectativa de vida da população em geral?

Em função do hype em torno da morte de Matheus Passareli, a Agência Patrícia Galvão trouxe o boato de volta à tona (aqui: https://www.facebook.com/agenciapatriciagalvao/posts/1364164247018378 )

Mas como questionar – ou mesmo desconfiar – de fontes tão “sabidamente honestas”? E ainda pior: sem ter acesso aos dados que estas fontes usaram para chegar a tão dramática conclusão?

Primeira coisa que você precisa ter em mente para começar a refletir sobre a enxurrada de desinformação é a definição de ‘expectativa de vida’.

Expectativa de vida é a idade média da morte POR QUALQUER CAUSA das pessoas de determinado grupo demográfico.

Não há qualquer estudo calculando a idade média de mortes por qualquer causa de transexuais no Brasil, mas há alguns estudos – como os da ANTRA, do GGB e da Rede Trans – que, utilizando uma tosca metodologia baseada em recortes de notícias e informações trazidas por WhatsApp e Facebook, listam as mortes de transexuais ASSASSINADOS (a lista do GGB – embora seja intitulada ‘Relatório de Assassinatos de LGBT’ – inclui também algumas mortes por causas naturais e acidentais, mas apenas quando o caso sai na mídia).

Se você clicar na MAIORIA DOS LINKS que o Google te oferece para a pesquisa que te recomendei, perceberá a ausência de referência clara para a fonte da informação de que ‘a expectativa de vida de transexuais é menor que 35 anos’, mas dois nomes costumam ser mencionados: o do psicólogo Paulo Sammarco e o da ANTRA – uma ONG de suposta defesa dos travestis e transexuais.

Pedro Paulo Sammarco – aparentemente o principal responsável pela disseminação desta lenda de que a expectativa de vida de transexuais é de 35 anos – é autor de uma dissertação de mestrado – pela PUCSP – intitulada “Travestis envelhecem?”.

Várias das matérias que você encontrará no Google citam este texto como fonte para a afirmação sobre a idade média da morte de pessoas trans no Brasil. O link está no final do texto e nele você poderá ler um lero-lero bem típico da produção acadêmica em humanas, um trechinho pra te aguçar a curiosidade:

“Podemos, por exemplo, comparar a (estatística) de expectativa de vida do brasileiro na atualidade com a de vida do brasileiro na atualidade com a de 1980. Percebemos que ela varia conforme a região do país em questão, embora haja uma média nacional. Toda média estatística, sobre qualquer assunto, acaba se tornando um dispositivo de poder, pois seu objetivo é colocar todos no mmesmo padrão de normalidade. Aqueles que estiverem fora do padrão são considerados anormais, Todo tipo de padronização é opressor pois fatalmente nem todos responderão ao que está sendo padronizado (Foucault, 2008c)”

O detalhe curioso é que – apesar de mencionado por muitos jornais e pelo próprio site do Senado como fonte para a afirmação sobre a expectativa de vida dos transexuais – o estudo de Sammarco não faz QUALQUER menção à expectativa de vida média da população trans.

O que parece, de fato – e algumas das publicações apontam isto – é que o tal dado de 35 anos foi retirado das estatísticas da ANTRA sobre homicídios de transexuais e foi transmitido apocrifamente por Sammarco aos quatro ventos – usando o título de mestre na área e o cargo público que exerce como símbolos de autoridade no assunto.

O que está se divulgando como ‘expectativa de vida média’ é a idade média aproximada das vítimas de assassinato listadas pela ANTRA.

Mas estes conceitos são completamente distintos, e por estúpida ignorância ou por má-fé é que ativistas, políticos e mídia estão confundindo ambos os conceitos em seus discursos.

Só para se ter uma ideia: a idade média dos assassinatos da população geral brasileira é inferior aos 29 anos (vide Mapa da Violência, link no final do texto).

Isso porque porque a imensa maioria dos crimes contra a vida têm jovens como vítimas [ jovens costumam ser mais impetuosos, mais agressivos, estar mais envolvidos com atividades ilícitas e participar de festas com intenso uso de drogas et cetera ].

Se você tomar os números apenas de assassinatos de qualquer grupo a “expectativa de vida” será sempre baixa, não interessa se são transexuais ou flamenguistas ou botafoguenses ou pessoas que gostam de comer peixe cru.

Qualquer estatística que se baseie na média de idade de pessoas assassinadas dará menor do que a expectativa de vida média da população geral.

Comparar a idade média de assassinatos em um grupo com a idade média de mortos por qualquer motivo em outro grupo é a mesma coisa que ir numa clínica de obesos na Alemanha, pesar meia dúzia de gordos na balança e dizer que peso médio do alemão é o dobro do peso médio brasileiro.

Infelizmente, nossa grande imprensa desleixada ou desonesta (vou deixar vocês decidirem), e nossos políticos e ativistas (vocês sabem o que eles são) vão continuar divulgando idade média dos assassinatos como sendo expectativa de vida (apenas no caso dos transexuais) e vão continuar fazendo a estapafúrdia comparação com os dados reais de expectativa de vida da população em geral.

Os motivos de ativistas insistirem tanto nestas mentiras descaradas vocês sabem quais são: verbas públicas, cargos públicos e leis privilegistas com base em sexualidade.

Referências:

Link para matéria no site do Senado Federal, indicando a tese de mestrado de Sammarco como a principal fonte para a alegação do título:

https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/especial-cidadania/expectativa-de-vida-de-transexuais-e-de-35-anos-metade-da-media-nacional/expectativa-de-vida-de-transexuais-e-de-35-anos-metade-da-media-nacional

Link para tal tese de mestrado – em que há muito blá blá blá sobre estatística (inclusive o trecho citado, afirmando que toda média estatística é dispositivo de poder, utilizado para oprimir) mas nenhuma linha que demostre que a expectativa de vida de transexuais seja baixa:

https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/12364/1/Pedro%20Paulo%20Sammarco%20Antunes.pdf

Matéria da EBC indicando que a fonte das alegações divulgadas na mídia sobre expectativa de vida da população trans na verdade são o estudo da ANTRA sobre assassinatos (e não sobre expectativa de vida) de trans:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-01/assassinatos-de-travestis-e-transexuais-e-o-maior-em-dez-anos-no-brasil

Outra matéria comprovando que a fonte das alegações são os dados da ANTRA:

http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2016/09/cadernos/jornal_da_lei/522567-expectativa-de-vida-trans-e-menos-da-metade-da-media-nacional.html

Estudo publicado pelo Mapa da Violência mostrando que mais da metade dos assassinatos no Brasil acontecem contra jovens entre 15 e 29 anos: https://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2014/Mapa2014_JovensBrasil.pdf

Matérias na grande mídia divulgando a mentira acima como se fosse verdade:

http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/caixa-zero/expectativa-de-vida-dos-transexuais/

http://especiais.correiobraziliense.com.br/luta-por-identidade

https://www.huffpostbrasil.com/2017/06/20/35-anos-e-a-expectativa-de-vida-de-transexuais-no-brasil_a_22492503/

http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2017/04/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-travestis-e-transexuais-no-mundo-diz-pesquisa.html

https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/historia-de-sorte-da-travesti-que-chegou-terceira-idade/

https://epoca.globo.com/brasil/noticia/2018/01/reduzida-por-homicidios-expectativa-de-vida-de-um-transexual-no-brasil-e-de-apenas-35-anos.html

 

 

3 comentários sobre “Baixa expectativa de vida da população trans: uma mentira contada um milhão de vezes

  1. então, a gente tá falando em uma população em específico, pessoas trans, quando falam que a expectativa de vida de pessoas trans é de 35 anos, não estamos falando de todo resto da população, então o recorte TEM que ficar bem óbvio. A intenção nunca foi sair desse recorte, por isso ele faz sentido. Se pegarmos a média de idade na hora da morte de homens negros, teremos a expectativa de vida de homens negros e não da população em geral, não de pessoas trans, mas de homens negros, poderia ser idosos de baixa renda, mulheres grávidas com hipertensão, homens brancos de classe média, pessoas com diabetes tipo 2. Qualquer recorte, você mesmo explicou como funciona, é um raciocínio simples de amostra de uma população. No caso de pessoas trans é uma população pequena, então não é difícil quantificar com certa segurança. Como você acha que isso poderia ser calculado? Como saber a média de vida de uma população específica se não for assim? A vida de uma pessoa trans não é igual a de uma pessoa cisgênero, boa parte delas acabam vivendo de prostituição porque são marginalizadas nas escolas e não tem outras oportunidades de trabalho. E mais, não são só assassinatos, há também as que morrem sem acesso a tratamento médico porque são discriminadas ou ridicularizadas nas instituições de saúde. Então não faz o menor sentido quantificar a expectativa de vida de pessoas trans levando em consideração a expectativa de vida de pessoas cisgênero, é como querer saber a expectativa de vida de quem tem câncer de pulmão terminal levando em conta pessoas que fazem crossfit.

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    1. Olá, Ana! Percebo que as suas perguntas parecem ser honestas, mesmo que você queira acreditar na fraude com que você se acustumou.

      Você pergunta algo como “se não for assim como poderemos saber a expectativa de vida desta faixa da população”?

      Pois então! Não poderemos! Assim como não sabemos a expectativa de vida dos evangélicos ou dos flamenguistas ou das pessoas com olhos castanhos.

      Para se definir HONESTAMENTE a expectativa de vida de um grupo demográfico é preciso calcular uma série de informações que só conseguimos por meio de métodos atuariais/estatísticos complexos que exigem uma série de parâmetros de entrada que não estão disponiveis para este grupo (e também não estão para muitos outros grupos).

      Já convidei um professor da Escola Nacional de Ciências Estatisticas e ele produzirá em breve um artigo técnico explicando detalhadamente os procedimentos matemáticos para se desenhar uma tábua de vida e os motivos pelos quais é impossível fazê-lo para transexuais.

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  2. Ótimo artigo. Se puder, faça outros sobre minorias que, pretensamente, preocupam os “progresistas”. Nao dê atenção os comentarios dessa gente. Elles nao entenderiam nem se você desenhasse.

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