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UBER paga menos a mulheres: e o motivo não é aquele que você pensou, feminista

Motoristas do sexo feminino que usam o aplicativo UBER como ferramenta de trabalho ganham, em média, cerca de 7% a menos que os homens, por cada hora de trabalho.

Economistas das universidades de Stanford e Chicago também ficaram intrigados com o fato.

A renda de trabalhadores que usam o app do UBER é calculada em função de parâmetros simples e objetivos, como quilômetros percorridos. Não há patrões que possam ‘preferir’ pagar mais para eles que para elas, o ‘patrão’ aí é um algoritmo computacional que não sabe distinguir homens de mulheres. Temos aí um bom quebra-cabeças.

Economistas sérios não costumam derramar palavras de ordem contra o machismo e o patriarcado quando se deparam com este tipo de situação: eles tendem a procurar as variáveis econômicas que possam estar influenciando o cenário.

Economistas como os americanos Thomas Sowell e Claudia Goldin e os brasileiros Guilherme Stein e Vanessa Sulzbach são alguns dos que têm estudado previamente as diferenças salariais entre homens e mulheres e demostrado que a maior parte da diferença é explicada pelo peso de variáveis mensuráveis: carga horária, turno, anos de formação, anos de experiência, área de atuação, horas extras exercidas…

Mas – dado ao número incontável de pequenas variáveis que podem influenciar de maneira menos significativa o cenário – estes estudos geralmente deixam ainda um resíduo de desigualdade que não pode ser explicado pelas variáveis mais óbvias – o que não significa que sejam necessariamente explicados por machismo ou coisa que o valha.

Por boa parte das variáveis estarem engessadas dentro de um algoritmo computacional – e não influenciáveis por preferências pessoais dos chefes em relação aos chefiados, por exemplo – o quebra-cabeças da desigualdade salarial no UBER se demonstra um modelo muito adequado para estudo.

Além do mais: como a mensuração e comparação dos dados foi feita hora a hora variáveis como jornada e turno foram também perfeitamente controladas, algo relativamente difícil de se fazer em análises comparativas de trabalhadores formais.

O que está acontecendo com o UBER de Chicago?

A equipe composta por Cody Cook, Rebecca Diamond, Jonathan Hall, John A. List e Paul Oyer elegeu as seguintes variáveis: tempo de espera entre cada chamada e a chegada do motorista até o passageiro, velocidade média de cada corrida, local de atuação e o tempo de experiência atuando como motorista do UBER.

Todos os motoristas avaliados atuavam na cidade de Chicago.

O resultado? Os homens dirigem mais rápido que as mulheres, completando mais quilômetros de corrida em uma mesma fração de tempo; além do mais costumam permanecer mais tempo como motoristas da empresa, e quanto mais tempo dirigem, mais aprendem qual o comportamento ótimo para otimizar seus ganhos; adicionalmente, costumam dirigir nas regiões mais movimentadas da cidade, em que a direção costuma ser mais cansativa, e – ao mesmo tempo – lucrativa.

Na conclusão do estudo os pesquisadores afirmam: “Conseguimos explicar completamente a diferença salarial [no grupo estudado] com três fatores principais relacionados às preferências e aprendizado do motorista: o fator ‘tempo de experiência’, os maiores ganhos devido a condução mais rápida e as escolhas obre onde dirigir. Com efeito, a contribuição da variável experiência na explicação das diferenças salariais entre os sexos não tem recebido muita atenção na literatura empírica anterior, uma vez que muitas vezes é bastante difícil mensurá-la em ambientes de trabalho tradicionais. Percebemos que mesmo o acompanhamento do número de semanas trabalhadas – um proxy comum de experimentos na literatura – não quantifica com precisão a variável ‘tempo de experiência’, pois os homens trabalham mais horas por semana do que as mulheres e, assim, acumulam experiência mais rapidamente. Estes resultados sugerem que o papel da aprendizagem no trabalho pode contribuir mais amplamente para a diferença de ganhos de gênero do que se pensava anteriormente.

No geral, nossos resultados sugerem que, mesmo no ambiente flexível, transacional e sem perspectiva de gênero da economia autônoma, preferências baseadas no gênero podem criar diferenças rendimentos por gênero.”

 

Uma questão paralela: deve ser uma meta que mulheres ganhem em média o mesmo que os homens?

Esta pergunta independe da questão ‘por que mulheres ganham menos?’.

Mulheres ganham estatisticamente menos: isto é um fato. O motivo de ganharem menos está relacionado a variáveis como carga horária, experiência, área de atuação, turno de trabalho e produtividade: este é outro fato.

Mas pensadores que concordam que o motivo de mulheres ganharem menos não ser preconceito podem divergir sobre se mulheres deveriam ganhar o mesmo que os homens.

A já citada Claudia Goldin, por exemplo, afirma que são as variáveis profissionais (horas trabalhadas, horas extras, área de formação, produtividade, anos de experiência…) os principais fatores que explicam o por que de mulheres ganharem menos.

Todavia ela é uma das que atuam a favor de que a desigualdade salarial entre homens e mulheres seja reduzida. Para isto entende que devem haver mudanças na estrutura trabalhista, com, por exemplo: mulheres passando a escolher carreiras mais rentáveis do que aquelas que escolhem atualmente, e trabalhando mais horas por semana… ao mesmo tempo que as empresas deveriam flexibilizar suas jornadas de trabalho reduzindo assim o peso de variáveis como ‘horas trabalhadas’ e ‘turno de trabalho’ (vide citação no começo da introdução do artigo discutido aqui).

Outros pensadores – como a filósofa Christina Hoff Sommers, o psicólogo Steven Pinker, o economista Thomas Sowell e a crítica cultural Camille Paglia – defendem que o fato de que mulheres prefiram trabalhar em atividades menos lucrativas ou ainda coloquem em primeiro plano os filhos e a família não são problemas necessariamente a ser resolvidos.

Homens e mulheres são diferentes em suas naturezas – defendem – inclusive instintivamente diferentes, e não precisam estar divididos 50% / 50% em todos as estatísticas para que haja um cenário ideal.

Pinker defende que uma igualdade de 50% em tudo seria – literalmente – desumana. Paglia diz que a propaganda feminista pela busca feminina de sucesso profissional tem sido prejudicial – às mulheres.

Acompanho Sommers, Pinker, Sowell e Paglia: creio que as diferenças de preferência e resultados masculino e feminino são fortemente linkadas a variáveis amarradas à biologia de ambos os sexos [ gestação e amamentação, diferenças de força física, diferenças de funcionamento do sistema neuroendócrico, diferenças nos padrões de seleção sexual… ] e que jamais se extinguirão por completo [ e nem me parece desejável que se extinguam ].

Mas esta é uma outra discussão.

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