Artigos próprios LGBT

Chequei uma checagem da Agência Lupa: veja como ela se saiu!

A Agência Lupa está no epicentro de uma grande celeuma.

A sua contratação, pelo Facebook, para checar as postagens e julgar quais são “fake news” e quais são informações confiáveis gerou uma grande onda de reclamações por parte dos usuários brasileiros de posicição político-ideológica à direita.

A agência é vinculada à revista Piauí, pautada à esquerda, por isso atores políticos como o MBL e a família Bolsonaro acreditam que ela pode ser usada como instrumento para esconder ainda mais as postagens e páginas que não adotem um caráter sinistro-progressista. O escritor Flávio Gordon é um dos nomes que mais tem se manifestado quanto a isso nas redes sociais e escreveu um texto sobre o assunto em sua coluna semanal. (1)

Uma frase que virou bordão entre os críticos da atribuição dada pelo Facebook a estas agências de investigação supostamente isenta e aprofundada dos fatos noticiosos é “Quem vai checar as agências de fact-checking?”

Por conta de ter caído agora a pouco numa matéria do El País sobre a polêmica, (2) me bateu vontade de verificar se a Lupa já fez algum fact-checking sobre o mascote da página: o relatório de “crimes LGBTfóbicos” do GRUPO GAY DA BAHIA. Decidi, então, checar a agência de fact-checking mais famosa do país.

No dia 17 de maio do ano passado a jornalista Juliana Dal Piva, da revista Piauí, publicou uma checagem sobre as estatísticas divulgadas por Luiz Mott. Eis o link: http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2017/05/17/dia-internacional-combate-homofobia-transfobia-gay/

Vamos ver se ela trabalhou direitinho?

Bem: a moça responde a cinco questões em sua checagem.

Primeiro vou analisar as perguntas selecionadas por ela – uma a uma – e depois fazer algumas considerações sobre a construção textual e a própria seleção das perguntas, que é o ponto que considero mais importante.

1 É verdade que a cada 25 horas, um LGBT é assassinado no Brasil? (Ela afirma que sim)

Juliana Dal Piva já começa muito mal! Mas muito mal mesmo! Ela responde SIM a esta pergunta.

Considerando que ela só tivesse os dados do GRUPO GAY DA BAHIA de 2016 em mãos e que estes fossem os únicos números sobre os quais ela estivesse trabalhando, a resposta correta seria NÃO! DEFINITIVAMENTE NÃO!

Segundo os próprios documentos do GGB 12 dos 343 mortos no relatório daquele ano eram heterossexuais e 26 eram suicidas (3) (4) . Isto é relatado no próprio documento. Outra informação, não relatada no texto, mas possível de ser checada por um bom fact-checker é que – além de suicídios e mortes de heterossexuais – o relatório daquele ano também incluiu mortes fora do Brasil e mortes por acidente.

Foi o caso da heterossexual Michele Santana ( número 222 na planilha publicada pelo GGB ) que – pela versão da polícia e do Ministério Público – teria sido morta pelo seu amante depois que ele descobriu que ela estava grávida, e que podia revelar o caso à esposa dele. A irmã e a cunhada de Michele também foram mortas (posições 223 e 221 na planilha), apenas por terem sido testemunhas do crime, e não por serem lésbicas. O assassinato tríplice aconteceu em Portugal, e não no Brasil. (5)

Se o trabalho que a moça estava realizando era a checagem das informações, o mínimo que se espera é que ela tenha efetivamente lido e analisado os textos e planilhas publicados pelo GGB. Mas parece que não 😦

Qual seria a minha resposta à primeira pergunta?

FALSA: o método aplicado pelo GRUPO GAY DA BAHIA, baseado em notícias publicadas pela imprensa e informações coletadas nas redes sociais, não permite afirmar o número exato de LGBTs assassinados no Brasil no ano de 2016, mas a mera divisão do número de 343 mortes pelo número de horas do ano (cálculo usado por Juliana ) não suporta a afirmação de que houve 1 assassinato de LGBT a cada 25 horas no Brasil naquele ano, já que entre os mortos nem eram todos LGBT nem foram todos assassinados nem morreram todos no Brasil.

2 É verdade que a maioria dos LGBT assassinados em 2016 era travesti? (Ela diz que ‘não exatamente’ ).

A moça diz que a informação é exagerada e que mais de 50% das mortes foram de pessoas classificadas como ‘gays’ (é estranha esta classificação, porque travestis e transexuais recaem dentro do que classifico como ‘gay’, whatever).

Eu – particularmente – considero a pergunta mal formulada. ‘Maioria’ é uma expressão que pode se referir tanto a números absolutos quanto relativos. Por isso a moça não conseguiu dar uma boa resposta à pergunta que ela mesma formulou.

Se tratarmos os dados como números relativos ao tamanho de cada população, é possível que realmente os travestis representem a maioria dos casos listados, por exemplo (mantidas as ressalvas feitas no item 1).

3 É verdade que Manaus foi a capital com mais assassinatos da população LGBT em 2016? ( Ela diz que sim )

É uma informação irrelevante para efeitos de fact-checking, mas, usando como fonte os dados do GGB, e considerando esta uma fonte fiável, sim ela estaria certa.

4 É verdade que a maioria dos LGBT assassinados no ano passado era branca? (Ela diz que sim )

Idem à 3.

5 É verdade que 80% dos assassinatos de LGBTs chegam ao Judiciário? (Ela diz que não )

Idem à 3.

A Agência Lupa checou as informações do GRUPO GAY DA BAHIA ou só fingiu que checou?

A ideia de fact-checking está associada à verificação dos pontos centrais de uma informação amplamente veiculada (seja pela mídia, pelo boca-a-boca ou por redes sociais) e não à produção de perguntas e respostas aleatórias sobre pontos acessórios de uma informação qualquer.

Qual é a informação central em torno das estatísticas do GRUPO GAY DA BAHIA?

É a de que no Brasil morrem – anualmente – centenas de pessoas assassinadas devido a preconceito contra pessoas homossexuais.

É ESTA informação que se esperaria que fosse escrutinada por uma agência de fact-checking: é esta a informação central divulgada amplamente em matérias de diversos veículos de imprensa.  (6) (7) (8)

Perceba que isso é apenas parcialmente checado pela Juliana e – pior – ela erra grosseiramente, ao não se dar conta de que os dados incluem também suicídios, acidentes, mortes de heterossexuais e mortes fora do país.

Quanto à motivação (ou seja: se estas mortes listadas pelo GRUPO GAY DA BAHIA ocorreram devido a homofobia ou não – ponto central do discurso promovido pela ONG e amplamente disseminado) ela não escreve uma linha sequer.

Se tivesse feito, deveria ter informado que o travesti Cicarelli (morte de número 49) morreu assassinado sim, mas porque era traficante e estava ‘passando a perna’ na sua quadrilha. Que Barbara Malquimi (número 21) foi atropelado por um grupo de assaltantes que dirigiam um carro roubado, perderam o controle do veículo e atingiram vários pedestres, entre eles o travesti, fugindo sem prestar socorro. E que Daniel Francisco Hastenreiter (293 na lista do GRUPO GAY DA BAHIA de 2016) morreu ao reagir um assalto a ônibus. Foram sim 3 exemplos de crimes contra LGBT, mas que nada tiveram a ver com preconceito contra a sexualidade. (9) (10) (11).

Teria se dado conta também de mortes meramente acidentais – tratadas pelo GRUPO GAY DA BAHIA como se fossem crimes homofóbicos – caso de Brenda Alberlock (número 136), que morreu de complicações depois de ter injetado silicone em gel no próprio corpo sem supervisão médica. (12)

O conceito de ‘fact-checking’ indica uma análise mais profunda dos dados de uma informação noticiosa qualquer – em comparação aos veículos de mídia tradicionais. Pelo contrário: a análise feita pela Agência Lupa me pareceu ainda mais rasa do que as que veículos tradicionais – como Folha de São Paulo ou Estadão – costumam fazer.

A jornalista acabou tentando simular uma checagem isenta ao dar ‘negativa’ a uma questão apenas tangencial ao estudo do GGB e ao incluir algumas “checagens” corretas, mas sobre temas irrelevantes para a avaliação da honestidade do estudo.

Me chamou atenção também a ausência de link ou menção específica sobre onde encontrar os dados que a Juliana usou em sua pauta. É absolutamente relevante informar com clareza a fonte primária das informações (como eu faço aqui) neste tipo de matéria.

Aliás! Para conferir todas as informações trazidas no meu texto, cheque as referências abaixo.

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Referências

1  http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/flavio-gordon/2018/05/16/epistocracia-o-ataque-dos-autoproclamados-fact-checkers-internet-livre/?doing_wp_cron=1526742821.8012700080871582031250

2  https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/18/actualidad/1526600912_648575.html

3  https://homofobiamata.files.wordpress.com/2017/01/relatc3b3rio-2016-ps.pdf

4  https://homofobiamata.files.wordpress.com/2017/01/planilha-2016.pdf

5  http://g1.globo.com/mg/vales-mg/noticia/2016/08/mae-de-mineiras-mortas-em-portugal-culpa-namorado-da-filha-pelo-crime.html

6  http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/05/1884666-brasil-patina-no-combate-a-homofobia-e-vira-lider-em-assassinatos-de-lgbts.shtml

7  https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/09/25/brasil-tem-recorde-de-lgbts-mortos-em-2017-ainda-doi-diz-parente.htm

8  http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-01/levantamento-aponta-recorde-de-mortes-por-homofobia-no-brasil-em

9  https://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/cidade-alerta-rj/videos/motorista-atropela-pedestre-e-foge-sem-prestar-socorro-em-itaguai-21022018

10  http://www.jornaldaparaiba.com.br/policial/suspeitos-de-matar-travesti-cicarelli-com-24-facadas-sao-presos.html

11  http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/11/jovem-e-morto-ao-reagir-assalto-em-onibus-na-zona-oeste-do-rio.html

12  https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/travesti-morre-depois-de-aplicacao-de-silicone-industrial-no-corpo/

 

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