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[OFF-TOPIC] Transtorno da ansiedade social

[ Antes ou depois de ler este post, talvez te interesse ler esta crônica de Clarice Lispector: https://naomatouhoje.files.wordpress.com/2018/05/a-bravata.pdf ]

Já disse algumas vezes – geralmente ao falar sobre transexualismo – que sou portador de um transtorno psiquiátrico.

O chamo de fobia social, mas que também é conhecido como ansiedade social ou timidez patológica. São nomes diferentes para uma mesma doença, classificada pela OMS pelo CID F40.1.

Curiosamente (não tanto, na verdade) é bem comum eu mencionar minha condição e receber alguma mensagem inbox ou nos comentários de alguém que também seja portador.

Fobia social não é e nunca será um transtorno psiquiátrico ‘modinha’, embora esteja sempre – estatisticamente – na moda: é o tipo de ansiedade patológica mais comum e o terceiro tipo de condição psiquiátrica mais frequente.

Apesar disso a maioria das pessoas desconhece completamente tanto a sua existência como uma patologia classificada pela OMS quanto os seus sintomas, diferente do que ocorre com outros transtornos psiquiátricos prevalentes (como a depressão, a síndrome do pânico, a personalidade borderline…) ou mesmo raros (como o transexualismo…).

O motivo está fundamentalmente em nós – ou melhor – nos sintomas da doença. Não há nada que um fóbico social faça melhor do que se esconder dos outros e evitar pedir ajuda.

Aliás: este post não é um pedido de ajuda.

Hoje convivo relativamente bem com a doença, aprendi a enfrentá-la de frente após um momento especialmente tenso da minha vida e – embora ainda tenha que viver com ela – isto me limita bem menos do que já fez no passado.

Este post nasce de uma conversa que tive no Twitter com uma seguidora da página – também fóbica social – e que me estimulou a usar o espaço para descrever um pouco um transtorno psiquiátrico que (como muitos outros) carece de uma compreensão popular maior e mais disseminada sobre o que exatamente significa.

Sintomas e dificuldades práticas de um fóbico social

Entender o que se passa dentro da cabeça de um doente mental qualquer (eu não sou foucaultiano e nem gosto de eufemismos: não me peçam nos comentários pra dizer que transtorno psiquiátrico não é doença) é a grande dificuldade óbvia pra qualquer pessoa que não porta aquela condição.

Como explicar para alguém normal (ou portador de outras condições psiquiátricas) o que é ficar com os músculos contraídos e os movimentos robóticos, sentir o coração acelerar como se você estivesse prestes a ser mordido por um pit bull raivoso e perder completamente o dom da fala diante da enorme ameaça de ter que responder “bom dia!” a um colega de trabalho que caminha sorridente em direção contrária à sua no corredor da empresa?

Um pontapé bastante útil pode ser dado pela leitura desta tabela comparativa entre duas condições não psiquiátricas – a timidez saudável e a introverção – e a timidez patológica.

A timidez e a introversão são condições normais. A fobia social (também conhecida como transtorno da ansiedade social ou timidez patológica) é uma condição psiquiátrica.

Fóbicos sociais frequentemente têm problemas para obter e emprego (a começar pelo pavor da entrevista que os faz tremer, gaguejar e se enrolar completamente diante da psicóloga do RH) e se manter nos que conseguem.

Também são comuns os relatos de dificuldade para concluir os estudos, sobretudo os cursos superiores.

Participo de um grupo de fóbicos sociais no Whatsapp, e virtualmente todos os participante revelam que começaram e não conseguiram concluir a faculdade, embora não tenham tido problemas para concluir o ensino médio: eu mesmo abandonei algumas faculdades até conseguir me formar, e a fobia foi um fator relevante – embora não exclusivo – para as desistências. Terminar uma faculdade entre nós é geralmente visto como um feito incrível.

Provavelmente a dificuldade vem da maior autonomia pessoal exigida num curso superior: é você quem tem que procurar orientador, é você quem tem que decidir em que disciplina se inscrever ou não. Não vai bater assistente social na sua porta perguntando o que houve, quando você abandonar o período et cetera.

Dificuldades em relacionamentos amorosos (deus abençoe o criador dos apps de paquera) são obviamente comuns.

Um dado particular da minha experiência e que creio que seja geral para os ansiosos sociais é a comparação excessiva que ocorre em nossa cabeça com  quem é melhor em cada categoria de qualidade pessoal: pense numa menina que seja 7/10 em termos de beleza, costume tirar nota 9 nas exatas e 7 nas humanas, mora numa casa típica de subúrbio com dois cômodos e seus pais são trabalhadores com ensino médio e renda de por volta de 2 salários mínimos cada.

Essa garota se relaciona diariamente com pessoas mais e menos bonitas, mais e menos boas em matemática, mais e menos boas em humanas, mais e menos bem financeiramente mas ela se considera inferior a todas elas. O cálculo mental é feito assim: em relação à que é mais feia ela pensa “ahhh, mas é inteligentíssima”, em relação à que é menos inteligente ela pensa “ahhh, mas pelo menos mora num baita casarão”, em relação à que é mais pobre ela pensa “ahhh, mas já viu o corpo que essa filha da p… tem?”

É fundamentalmente daí: deste modo de pensar defeituoso (como em quase toda condição biológica, há em geral componentes genéticos e ambientais na etiologia do transtorno) é que o fóbico social vai tipicamente se escondendo de todas as situações em que ele possa ser julgado por não ser bom o suficiente [ e nos seus cálculos ele dificilmente é bom o suficiente, embora todos os outros sejam ].

Outra coisa importante é que nem todo fóbico social surta com os mesmo gatilhos ou de forma generalizada.

Há situações que podem ser melhor dominadas por um que por outro ou vice-versa, embora seja comum que um grande número de situações sociais diferentes sejam igualmente razão de surto: comparecer em festas, ter que fazer ou receber homenagens públicas, paquerar ou ser paquerado, interagir em situações típicas com colegas de trabalho ou faculdade, produzir projetos em grupo, apresentar seminários acadêmicos…

O ciclo de antecipação, fracasso e intensificação

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Antecipação: algo importante de se compreender no transtorno de ansiedade social é o ciclo de ideias sobre situações sociais na mente do paciente: elas começam com a antecipação obsessiva ante um evento social qualquer: seja o convite para uma festa, a marcação de uma entrevista de emprego ou a expectativa de encontrar um colega de trabalho com o qual role uma atração (mesmo que sabidamente mútua) o fóbico social se desespera e tenta se planejar para tudo que poderá (e certamente irá) dar errado.

Pessoas normais também ficam ansiosas diante de situações como estas: se preocupam em caprichar na aparência, lembram de fazer a barba ou botar um vestido que caia bem, dão uma revisada nos aspectos mais gerais da careira e da própria experiência que podem ser checadas pela psicóloga do RH.

Mas não é o tipo de antecipação feita pelo fóbico: em primeiro, seus pensamentos antecipatórios são negativos, em segundo ele sente necessidade de escapar (é comum fóbicos sociais se prepararem a semana inteira para o evento – uma festa de aniversário – por exemplo… e no último instante desistirem porque acham que não estão vestidos de forma adequada ou porque o convite não foi real, que foi só por gentileza, e que a pessoa, que nem conhece tão bem, não vai gostar da sua presença; ou porque não conhece ninguém além dos familiares do aniversariante e já pressente ficar deslocado…)

Há sintomas psico-físicos na antecipação: como taquicardia contínua, alteração de humor…

Fracasso: o momento exato da interação social temida pelo ansioso, aquele que não dá pra correr: o momento em que você terá que passar pelo colega de trabalho do qual sente vergonha e cumprimentá-lo, o momento em que terá que apresentar o maldito seminário de biogeoquímica, o momento em que você se depara com o aniversariante e não tem outro jeito senão cumprimentá-lo por mais um ano é o momento de maior surto.

E aí que o fóbico social tende a fracassar: ele tem sintomas de origem neuroendócrina muito fortes. Pode tremer visivelmente, ter a voz alterada por conta de espasmos musculares no aparelho vocal, as expressões e movimentos devem estar enrigecidos, tropeça, anda roboticamente em linha reta e erra a porta, as palavras somem da mente (sou biólogo e me lembro do meu primeiro seminário na faculdade, de biologia celular, em que me esqueci de termos tão difíceis como dupla-fita de DNA, mitocôndria e camada bilipídica).

Intensificação: logo após a experiência frustrada o surto desaparece: a musculatura deixa de estar rígida, a fala volta ao normal, não há mais suor ou tremor.

O que resta agora é um sentimento de tristeza/depressão, as culpabilizações pelo fracasso, os flash-backs da experiência mal-sucedida (que aparecerão subitamente meses ou anos depois), o pensamento obsessivo sobre tudo que não devia ter sido feito. Da próxima vez, diante da mesma situação, os sintomas neuroendócrinos e o desejo de evitá-la serão mais fortes.

Tratamento

Fóbicos sociais costumam fugir do tratamento: é uma das desgraças da doença.

O doente tem medo de ser julgado até pelo profissional que passou anos estudando exatamente para tratar de portadores de doenças mentais. (Para você ter uma ideia da extensão que isso pode ter: durante décadas eu tive uma pequena fratura no dente incisivo que eu não corrigia por vergonha do que o dentista ia pensar. Eu trabalhava num posto de saúde com 5 dentistas. Eu tinha plano de saúde AMIL com cobertura odontológica. Minhas colegas diziam: ‘Daniel, vem aqui que vou consertar este dente’. Eu inventava qualquer desculpa e fugia).

Mas há tratamentos possíveis tanto  do ponto de vista psiquiátrico (com fármacos químicos) quanto do ponto de vista psicológico (via terapia cognitivo-comportamental) e eles são efetivos em amenizar os sintomas – que dificilmente somem por completo.

No meu caso eu só comecei a melhorar (muito significativamente) depois que – após um período de fundo do poço – passei a enfrentar por conta própria a todos os medos e ansiedades patológicas que tinha e perceber que a cada enfrentamento das minhas ansiedades eu permanecia vivo foi me moldando a resistir melhor as próximas.

Mas ainda hoje a doença me limita – mas de forma muito mais amena do que foi até alguns anos atrás.

Mas não espere pelo seu fundo do poço.

Se você é portador dos sintomas descritos acima, repita em voz alta para si mesmo até se convencer de que ‘o psicólogo e o psiquiatra passaram anos estudando exatamente pra receber diariamente pessoas como você’.

E se você conhece alguém que você goste demais (ou nem tanto assim, mas goste) e que tem comportamentos estranhos como os descritos acima: talvez agora você tenha mais condições de ajudá-lo.

Para saber mais

Existe um blog publicado por uma portadora da doença e dedicado ao transtorno aqui: https://soufobicasocial.files.wordpress.com

A dona do blog mantém também um grupo no Whatsapp que pode ser útil pra quem quer entender melhor o que se passa na própria cabeça, ver que não está sozinho neste transtorno psiquiátrico compartilhado por tantos milhões de humanos a ponto de ser o terceiro mais comum de todos.

Um documento com diretrizes, produzido para profissionais de saúde, mas com uma descrição muito clara e inteligível está aqui: http://diretrizes.amb.org.br/ans/transtorno_da_ansiedade_sociedade_social-diagnostico.pdf

 

 

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