Uncategorized

‘Sexo anal não reproduz’ ainda é um argumento válido contra o casamento gay?

A mini-treta em torno da tese de mestrado de um aluno da UFPA, que defenderia a imoralidade do casamento homossexual com base em filósofos cristãos históricos e contemporâneos, me leva a retomar um texto que escrevi aqui sobre a demonização dos papeis de gênero pelo feminismo mainstream contemporâneo.

Naquele texto eu defendi que os papeis de gênero foram úteis a ambos os sexos durante toda a trajetória humana e que foi o progresso tecnológico que permitiu que os papeis exercidos por homens e mulheres pudessem ser revistos e considerados obsoletos em algumas situações: os tipos de trabalho disponíveis se tornaram fisicamente menos exaustivos, as mulheres puderam engravidar um número menor de vezes ao longo da vida, as atividades domésticas cotidianas passaram a depender menos de supervisão humana.

Falei também que entendo o casamento tradicional como um acordo reprodutivo que visava balancear os diferentes desafios de macho e fêmea da espécie em perpetuar seus genes.

Na nossa espécie as fêmeas têm acesso fácil ao espermatozoide: não há nenhuma dificuldade para a maioria das fêmeas – por mais feias, pobres, pouco interessantes que sejam – conseguirem algum macho que lhes engravide.

Entretanto a gravidez e a manutenção da prole são inevitavelmente custosas pra fêmea, ainda hoje, muito mais em qualquer momento anterior à Era Industrial. Mulheres passam nove meses grávidas, dão à luz com extremo risco à sua saúde, permanecem por anos atreladas a filhotes imensamente incapazes de cuidar de si próprios.

Já para os homens o sexo é fisiologicamente barato, não há qualquer ônus inevitável posterior ao ato sexual. Ele pode simplesmente vestir a tanga de folha de bananeira e sair andando pela floresta, atravessar o rio e sumir no mapa deixando a mulher pra trás: e nem saberá que ela espera um filho dele.

Mas a obtenção do sexo para os homens é custosa: ele precisa convencer uma mulher a oferecer um óvulo para que ele possa fecundar, os óvulos são um recurso ecológico escasso, e as mulheres tendem a ser criteriosas quanto a com quem irão compartilhá-los.

O casamento vêm como um contrato social/legal muito conveniente para ambas as partes.

O homem promete cuidado e sustento à prole e à própria mulher, amenizando o investimento dela na reprodução e aumentando a possibilidade de sobrevivência dos filhotes, desde que ela lhe prometa acesso exclusivo (ou pelo menos preferencial) aos seus óvulos. A mulher promete que os filhos dela serão também filhos deste homem, desde que ele prometa que irá colaborar para o sustento e proteção deles.

Por isso há – entre os homens – a noção de “mulher pra casar e mulher pra comer”. Por isso também que – embora tenham acesso mais fácil ao sexo que os homens – são as mulheres quem costumam fazer simpatia para o santo casamenteiro. O sexo é especialmente custoso pras mulheres: o casamento é especialmente custoso para os homens.

Há de se lembrar que até 5~10 décadas atrás as mulheres precisavam engravidar muitas vezes na vida se quisessem ter de fato algum filho que ‘vingasse’ e lhes desse netos, que não existia nenhum meio seguro de garantir a paternidade de uma criança (nem para bem do homem, o eximindo de sustentar filhos que não fossem seus, nem para bem da mulher, exigindo do tal homem que fugiu pro outro lado do rio que voltasse e assumisse as suas responsabilidades…). Tudo que existia era o acordo – bom, na medida do possível – para ambas as partes.

Por este motivo, as legislações antigas – com alguns resquícios no presente – tratavam homens e mulheres de maneira desigual neste campo. Mulheres eram exclusivamente punidas se traíssem o marido, homens eram (e ainda são, na prática: embora haja a possibilidade meramente teórica de mulheres irem presas por não pagar pensão)  exclusivamente punidos se abandonassem materialmente seus filhos.

E aí entra o tal do ‘sexo anal não reproduz’ do Levy Fidelix e de tantos conservadores mais religiosos e tacanhos.

Se o casamento nasce (como eu defendo) como um acordo para amenizar os desafios reprodutivos tanto dos machos quanto das fêmeas , então realmente não faria sentido que casais homossexuais pudessem aderir a ele. Não faria.

Acontece que – assim como os papéis de gênero tiveram sua utilidade prática reformada pelas modernidades tecnológicas, econômicas e sociais trazidas pelos 2 últimos séculos – também a instituição do casamento foi profundamente afetada.

Os principais fatores envolvidos nessa ressignificação – ao meu ver – são os contraceptivos seguros (que permitem que o sexo não esteja mais tão atrelado à reprodução), os antibióticos e vacinas (que permitem que as mulheres modernas possam engravidar muito menos vezes que as mulheres de um século pra trás e ainda assim serem bem sucedidas reprodutivamente) e o teste de DNA (que permite que mulheres ‘corram atrás do homem que atravessou o rio e desapareceu na mata’ ao mesmo tempo que permite aos homens saber se estão mesmo sustentando seus filhos ou o de algum outro homem que ‘fugiu pela floresta’).

As outras novidades da Era Industrial que enfatizei como responsáveis pela flexibilização dos papeis de gênero vão permitir às mulheres, com algum esforço, até exercerem sozinhas o sustento dos (agora poucos) filhos. Algo quase impossível num ambiente pré-industrial.

O casamento passa  a valer muito mais como uma instituição para cooperação mútua entre duas pessoas que decidiram compartilhar a vida do que como o acordo reprodutivo que o originou.

Progressistas que veem uma evidência de ‘homofobia’ na exclusão histórica dos casais homossexuais à instituição do casamento civil estão errados: ignoram que o casamento de então só fazia sentido diante da possibilidade de reprodução, e que todas as suas normas eram construídas em torno disso: “Sexo anal não reproduz” era, então, um bom argumento.

Conservadores que bradam que a sociedade atual está pervertida porque homossexuais têm sido autorizados a casar e terem os mesmos direitos e deveres civis que casais heterossexuais estão errados: ignoram que o processo de industrialização reformulou o cerne de muitos desafios da existência humana, tornando algumas soluções obsoletas diante de dificuldades que não existem mais, ou não na mesma medida: “Sexo anal não reproduz” já não é um bom argumento.

um comentário

  1. Achei falho. Bem construído, mas falho.

    Eu não compro muito essa visão de que a moralidade/ética depende de fatores externos; trair continua sendo moralmente condenável independente se hoje em dia pessoa usa ou não camisinha com a adúltera para não correr risco de engravidar.

    De qualquer forma, talvez por eu ser anarquista, eu acredito que toda a conversa de “reconhecimento de direitos” é uma imensa balela. Direito de casar, então, parece o mais idiota de todos – mesmo para casais hétero que se reproduzem.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s