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Assassinatos entre parceiros íntimos: um estudo criterioso e honesto

Falo muito de estudos fraudulentos sobre questões de gênero, raça e sexualidade; mas existem pesquisas cuidadosas e honestas sobre estes mesmos temas?

Muitas!

Acontece que elas, geralmente, não produzem os resultados alarmistas de estudos como os do GRUPO GAY DA BAHIA [ sobre crimes homofóbicos ] e os do Instituto Avon [ sobre violência ‘contra mulheres’ ]; não são úteis para criar histeria e discursos de ódio em torno do assunto, raramente vão parar na capa do jornal O Globo ou nos discursos do Marcelo Freixo

Vou tentar começar a apresentar e revisar literatura que considero confiável sobre as mesmas questões que costumo discutir aqui.

Literatura confiável não é aquela cujos resultados dizem que negros não sofrem preconceito, ou que dizem que os percentuais de vitimização e perpetração de violência afetiva são sempre 50%/50%, ou que dizem que homossexuais nunca sofrem violência baseada em intolerância contra sua sexualidade.

Literatura confiável e honesta é aquela em que a metodologia não é deliberadamente desenhada para que os resultados sejam assustadores, como o autor do estudo esperava que eles fossem, e para que tomem a direção que o estudioso gostaria que tomassem.

Pense num exemplo de que falei recentemente, o estudo da ONU Mulheres em parceria com o Instituto Avon: com uma metodologia daquelas o estudo não tinha como errar: os pesquisadores iriam com certeza provar o que queriam. O desenho do estudo não foi feito para investigar a realidade, mas para corroborar a tese defendida pela ONG com números alarmantes, impactantes, extraordinários. Tratado honestamente, deveria ser chamado de ‘peça publicitária’ e não de ‘pesquisa’.

Estudos honestos geralmente trazem perguntas que os pesquisadores não sabem de fato responder: os pesquisadores podem ter uma hipótese, baseada em estudos prévios ou em conhecimentos de outros campos científicos, mas as perguntas que desenham em seu projeto são de fato perguntas em aberto: que podem ter respostas fora do previsto.

Em estudos honestos e cuidadosos há rigor na escolha do desenho amostral [ não deveria ser admissível, por exemplo, fazer pesquisa sobre prevalência de violência doméstica tomando por base os boletins de ocorrência de delegacias de mulheres ] e há controle rígido das variáveis que possam mascarar o resultado.

Os resultados serão, necessariamente, verdadeiros? As proporções encontradas na análise estatística, necessariamente serão idênticas e perfeitas em relação ao que de fato ocorre no mundo real? Não necessariamente, mas de modo geral elas fornecerão aproximações melhores que estudos enviesados de ponta a ponta [ como o já citado estudo sobre violência contra mulheres nas faculdade, da Avon e da ONU ]

O paper de que vou falar aqui é de 2008 e foi dirigido por dois psicólogos da Florida Atlantic University. O título (em português) é “Métodos de assassinatos entre parceiros íntimos em relacionamentos heterossexuais, gays e lésbicos”.

Hipóteses e desenho de estudo

São investigados cerca de 51 mil casos de homicídios cometidos por homens e mulheres heterossexuais e homossexuais nos Estados Unidos.

As perguntas são: 1. Proporcionalmente, quem mata mais? Homens? Mulheres? Heterossexuais? Homossexuais? 2. Proporcionalmente, quem mata com mais requintes de crueldade?

Os estudiosos tinham algumas hipóteses:

1ª Que o número de assassinatos em casais homossexuais masculinos seria maior do que o número de assassinatos em casais héteros e que o número de assassinatos entre héteros seria maior que o número de assassinatos entre lésbicas. E também que homens héteros matariam mais que mulheres héteros.

2ª Que os gays e lésbicas iriam matar de forma mais cruel (com facadas e pauladas) do que os héteros (a tiros, mortes mais rápidas e menos dolorosas).

A formulação destas hipóteses levava em conta diferenças sociais e biológicas [ com ênfase na segunda ] no comportamento humano masculino e feminino no que diz respeito a agressão. Respeito à natureza biológica do animal humano nos estudos em ciências sociais/humanas é um bom indicativo.

De posse de um banco de dados com mortes cometidas pelo parceiro afetivo da vítima nos EUA, eles precisaram antes de tudo saber qual era o percentual de homens e mulheres que se declaravam heterossexuais e homossexuais na população norte-americana. Outro indicativo é a aplicação de controles matemáticos na testagem da hipótese. Só assim eles poderiam saber qual era a probabilidade de cada uma destas categorias de pessoas ser morta por seus parceiros com base numa extrapolação dos dados. Esta deveria parecer óbvia demais, mas para quem, como eu, já leu centenas de estudos sobre o assunto, isto é algo a ser destacado, infelizmente.

Tabelaram, para cada uma das categorias, qual foi o instrumento usado no homicídio.

Resultados

Com base no banco de dados usado, a probabilidade de ocorrência de assassinato entre parceiros em casais gays é 3 vezes maior do que entre casais héteros e 6 vezes maior do que entre casais de lésbicas.

Para cada 6 homens héteros que mataram suas companheiras havia 4 mulheres héteros que tinham matado seu parceiro.

Diferenças tênues, nada espalhafatosas, mas que confirmam as predições feitas pelos estudiosos com base nos seus conhecimentos em psicologia evolutiva ( biologia do comportamento humano ).

Quanto aos modos de assassinato eles se surpreenderam. Acreditavam que as mulheres matariam com menor crueldade, mas encontraram o perfeito oposto, a maioria dos assassinatos cometidos por mulheres heterossexuais e lésbicas eram extremamente cruéis: a pauladas ou facadas.

E homossexuais de ambos os sexos são mais cruéis que heterossexuais, esta já era parte da hipótese deles, e foi confirmada.

Críticas

No próprio texto do artigo, os autores descrevem uma série de limitações de sua abordagem: destacam o fato de não conseguirem responder de forma segura se as diferenças de “modo de matar” (com armas de fogo, com pauladas, sufocando…) diziam mais respeito a características comportamentais intrínsecas dos grupos estudados ou a questões como “maior ou menor facilidade de acesso a armas”.

Eu senti falta de saber sobre crimes “mandados”, em que o companheiro ou companheira não é o assassino de fato, mas contratou um matador de aluguel ou convenceu um parente a cometer o crime. Eles não mencionam este aspecto.

Não sei se o banco de dados permitia esta análise, mas gostaria de ler um estudo com o mesmo nível de cuidado epistemológico que teve esta pesquisa e que incluísse mais essa variável.

Claro que é um estudo sobre outro país, com outras possibilidades de investigação (por conta da excelente infra-estrutura policial e judiciária, alta informatização do sistema judiciário, alta taxa de elucidação de crimes), mas é um exemplo de estudo honesto sobre as questões em que aponto tanta desonestidade por aqui: violência ‘de gênero’ e violência contra homossexuais.

O professor Luiz Mott, a professora [CENSURADA] e os ‘estudiosos’ da ONU Mulheres teriam muito a aprender com eles (se eu acreditasse que eles quisessem).

Link do paper abaixo, pra quem gosta de estudar o assunto:

https://pdfs.semanticscholar.org/424e/310beb3eaf43e38857ef9a8808e2046e18c0.pdf

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