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Manuela D’Ávila e os fact-checkers que não sabem checar

Não estou certo de que seja por má-fé, preguiça ou incompetência, talvez uma mistura dos três: mas tenho observado um frequente erro nas tais agências de fact-checking que se espalharam pelo Brasil nos últimos anos.

É comum que elas não chequem os fatos: chequem a existência de outras fontes para as mesmas afirmações.

São coisas distintas e um bom exemplo vem das alegações de Manuela do PCdoB sobre homofobia e assassinatos de travestis/transexuais no programa Roda Viva.

A política comunista afirmou que o Brasil é campeão de homofobia e que é o país que mais mata “trans”. A agência Aos Fatos considerou a primeira afirmação exagerada e a segunda imprecisa.

Vou me concentrar na segunda: segundo a Aos Fatos, Manuela deveria ter especificado se estava falando em termos absolutos ou relativos.

De acordo com os dados da ONG sueca Trangender Europe,  que faz comparação sobre números de mortes de travestis e transexuais em diversos países do mundo, o Brasil é primeiro em números absolutos, mas apenas terceiro em números relativos.

Bom ponto!

Considerando o fato de que os tamanhos de populações variam imensamente de país pra país, é muito mais honesto fazer comparação de índices de homicídio usando taxas relativas e não absolutas. Ponto para os checadores!

Mas parou por aí, que pena!

Se tivessem continuado a checar, teriam se dado conta de que é IMPOSSÍVEL confirmar (ou negar) a afirmação feita por Manuela.

A fala de Manuela não pode ser tratada como verdadeira ou como imprecisa porque a própria validade dos números publicados pelo Trangender Europe não pode ser checada.

Os números que a ONG sueca divulga são estimativas amadoras baseadas em coletas de informações sobre mortes de transexuais e travestis em noticiários ao redor do mundo.

Diversas ONGs parceiras do TE (no Brasil é a Rede Trans) vasculham veículos de comunicação social e páginas nas redes sociais a cata de notícias sobre mortes de transexuais/travestis.

Não há garantia alguma de que todos os assassinatos de transexuais do Brasil ou de qualquer lugar do mundo sejam noticiados e tampouco há garantia de que em todas as mortes de transexuais noticiadas a sexualidade da vítima esteja informada na nota jornalística.

Não há garantia, portanto, de que qualquer dos números de morte de transexuais divulgados pela TE correspondam aos fatos. Haver uma fonte primária afirmando determinado ponto não significa que esta fonte primária seja confiável. É preciso checar também os métodos da fonte primária.

Esta é a aula #1 da disciplina Checagem de Fatos 101: parece que nossos checadores mataram a primeira aula, talvez por medo do trote.

Mas e se o Brasil realmente for o país com maior número absoluto de assassinatos de transexuais, por que isso não é relevante?

Embora o Transgender Europe não seja uma fonte confiável para atestar o número de transexuais mortos em cada país, por conta das limitações da metodologia que usa, é possível que o Brasil de fato seja o país que mais mata transexuais: e se for, esta será uma informação irrelevante.

Não porque a vida de transexuais não tenha valor, mas porque ela não tem mais valor que a vida de não transexuais.

No Brasil morrem assassinados – anualmente – cerca de 60 mil seres humanos. Somos o maior país do mundo em taxa absoluta de homicídio e o 14º em taxas relativas. Não haveria surpresa alguma se de fato fossemos o país com maior número absoluto de transexuais, ou de anãos, ou de loiros, ou de ruivos, ou de mulheres com cabelo pintado de acaju.

O que Manuela pretendia realmente inferir ao apresentar esta afirmação ( e o que o Aos Fatos acabou ajudando ela fazer, ao afirmar que ela cometeu apenas uma “imprecisão” ) é que “ser o país com maior número absoluto de assassinatos de transexuais nos coloca na posição de um país intolerante quanto à sexualidade alheia”.

Isto é FALSO!

Os transexuais listados pela Rede Trans cujas mortes foram elucidadas morreram pelos mesmos motivos que as pessoas heterossexuais costumam morrer: envolvimento com crime organizado, disputa por ponto de prostituição, reação a assalto…

E quanto à fala sobre ser campeão de homofobia? 

Neste caso a equipe da Aos Fatos, por incompetência ou desonestidade, usa como principal referência os números do GRUPO GAY DA BAHIA para classificar a fala de Manuela como exagerada.

Para a agência, os números do GRUPO GAY DA BAHIA comprovariam um alto índice de homofobia no país, mas eles lembram – como contraponto – que nossas leis são bastante igualitárias.

Vergonhoso que supostas agência de checagem dos fatos continuem usando números de uma ONG que lista mortes por infarto, mortes de heterossexual assassinado por homossexual e mortes de heterossexual assassinada por heterossexual fora do Brasil como exemplos de “crimes homofóbicos ocorridos no Brasil”.

É de cair o cu da bunda!

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