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Assassina é ícone do movimento feminista na Argentina

Uma meta-análise conduzida pela doutora Heidi Stöckl e amplamente disseminada pela Organização Mundial da Saúde atesta que, para aproximadamente 3 casos de mulher assassinada por seu companheiro afetivo, há 2 casos de homem assassinado por sua parceira amorosa.

Os dados não são precisos, são estimativas: eles podem ser influenciados por deficiências na coleta de informações em cada país – o Brasil, por exemplo, não publica dados oficiais quanto ao número de homens mortos por suas compamnheiras, apenas o contrário.

Já na Argentina publica-se ambos os casos, mas apenas quando o julgado final estabelece o homicídio como sendo “crime de gênero”.

Embora as leis argentinas prevejam que pessoas possam ser vítimas de “crime de gênero” independente do sexo de autor ou vítima, há uma tendência maior de que este tipo de enquadramento se dê nos casos de vítima do sexo feminino e autor do sexo masculino, fazendo com que muitos casos de homicídio cometidos pela parceira contra o companheiro não apareçam nas estatísticas oficiais de lá.

Os números podem ser influenciados também pela ocorrência de crimes encomendados ou pela baixa resolução de mortes criminosas em diversos países.

Nos EUA há um banco de dados que lista todos os casos em que a justiça concluiu que o autor de um homicídio era seu parceiro afetivo-sexual. Neste país, a proporção prevista pela OMS é mantida: de cada 3 casos de mulher morta por seu namorado, marido ou amante, há 2 casos de homem morto diretamente pela sua namorada, esposa ou amante.

Crimes encomendados, cometidos por terceiros a mando de companheiro ou companheira, não estão inclusos nesta comparação.

Na província argentina de Entre Ríos, Nahir Galarza matou Fernando Pastorizzo a tiros no dia 29 de dezembro do ano passado: tratava-se de um casal de pós-adolescentes de classe média e o caso se tornou rapidamente popular na mídia: ela havia lhe dado dois tiros na altura do tórax que lhe transpassaram o corpo. O rapaz foi encontrado agonizando e morreu antes que o socorro chegasse.

“Te amo para sempre”

“Cinco anos juntos, lutando, com idas e vindas, mas sempre com o mesmo amor. Te amo para sempre, meu anjo”

A declaração de amor, publicada em uma rede social na manhã seguinte ao homicídio não foi muito convincente de que a assassina estivesse desesperada com a perda de seu grande amor. Como os pertences do rapaz estavam todos com ele, a hipótese de latrocínio foi descartada, levando a polícia a outras possibilidades.

Ela foi entrevistada por policiais e, depois de passar algumas horas se contradizendo, acabou assumindo que era a assassina: havia pego a pistola do pai e – premeditadamente – ido encontrar o namorado, para matá-lo.

Logo depois a assassina apagou sua conta no Instagram: voltou a publicá-la, tendo deletado todas as fotos em que aparecia com a vítima. A estratégia da defesa era mentir em juízo que ambos não tinham um relacionamento amoroso: motivo.

Na Argentina a lei pune com maior gravidade os crimes cometidos de um parceiro contra outro. No Brasil, como sabemos, o crime só recebe pena mais grave quando a vítima é mulher (ou quando “se identifica como mulher”), graças à lei do “Feminicídio”.

A condenação

A despeito de todas as estratégias da defesa, a justiça atribuiu à assassina a pena máxima prevista para crimes de gênero: 35 anos (que eles chamam por lá de “prisão perpétua”).

A defesa tentou apagar os traços que indicassem um relacionamento entre os dois, mas a própria publicação da assassina no dia seguinte à morte provava a existência da relação amorosa.

Como é de praxe em casos assim, a carta da “legítima defesa” foi também sacada pelos advogados da criminosa, mas o fato de ela ter saído armada com uma pistola furtada do pai – policial – anula esta hipótese, estando clara a premeditação do crime.

Ícone feminista

A versão brasileira do portal progressista espanhol ‘El Pais’ traz uma matéria com a seguinte manchete: “O feminismo se volta para a prisão da argentina que matou o namorado: A prisão perpétua de Nahir Galarza pelo assassinato de Fernando Pastorizzo evidencia a complexidade de um caso marcado pelo debate da violência de gênero na Argentina”.

O colunista Jorge Lanata, do Clarín, também escreveu um texto, intitulado “Nasce uma estrela“, mostrando como a assassina está se convertendo em um ícone do movimento feminista no país de Maradona e Messi, sendo celebrada e tratada como mártir por ativistas feministas de lá.

“Violência reversa não existe: a violência construída e legitimada socialmente é exercida por homens heterossexuais como Fernando Pastorizzo”, dizia uma das mensagens postadas por feministas em grupos de Facebook criados para se manifestar em defesa da assassina. Uma passeata em frente à sede da província está sendo planejada por feministas, para pedir a liberdade da masculinicida. O lema do movimento é “Acreditamos em você porque sabemos”.

Jorge – dizendo não querer ser injusto – lembra que os movimentos que se levantaram em prol da assassina talvez não representem o todo do feminismo.

Logo a seguir menciona que, até o momento, não apareceram outros grupos feministas dizendo que Galarza não é nenhuma heroína ou martir: apenas aqueles dizendo que ela é tanto uma coisa quanto outra.

Alegam – os ativistas pró-assassina – que a criminosa foi vítima de um julgamento excludente e machista, que houve muita pressa na condenação – cerca de seis meses entre os dois tiros e o bater do martelo – e que o mesmo não ocorre quanto os homens são os culpados.

Jorge Lanata rebate o argumento, lembrando um outro caso de crime de gênero: na mesma província de Entre Ríos foi condenado um homem – Sebastien Wagner – por ter matado uma mulher – Micaela Garcia, depois de a ter estuprado. O caso aconteceu em abril do ano passado e, já em outubro, o criminoso estava ouvindo a sentença.

Mesma pena: 35 anos, mesmo tempo de julgamento: aproximadamente 6 meses.

Bastante igualitário, ao que me parece. Mas quem ainda acredita que feministas buscam mesmo por igualdade?

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