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Relatório ONU Mulheres/Papo de Homem 2016: um estudo que tinha tudo pra ser 100% honesto

Quando ouço falar em estudo conduzido pela ONU Mulheres o alerta já fica acionado.

O braço feminista da Organização das Nações Unidas é famoso pela produção de estudos enviesados, com metodologias desonestas, sobre questões de gênero.

Se vão falar sobre as diferenças entre homens e mulheres no ensino superior desconsideram completamente o fato de que a maioria dos diplomas atualmente são concedidos a mulheres e o fato de que nas carreiras mais disputadas – como Medicina e Direito – são elas que lideram.

Ainda conseguem espalhar uma narrativa em que homens são os privilegiados, já que em 7 das 20 principais carreiras (a maioria das quais, associadas a matemática) eles ainda dominam.

Se o tema é diferença salarial, fingem desconhecer em absoluto as variáveis que definem a composição salarial média masculina geral ou numa profissão qualquer em específico.

Se vão falar sobre violência nas universidades, fazem um estudo tendencioso ao extremo, em que até ações banais como cantar músicas ‘ofensivas’ em partida de futebol e fazer lista de menina mais bonita da turma no grupo de WhatsApp dos rapazes do curso viram ‘agressão contra mulheres’. Tudo para criar o número alarmista de “quase 70% de alunas vítimas de violência no Ensino Superior”.

Violência doméstica, nas campanhas publicitárias produzidas pela agência, é um problema que homens causam e que mulheres sofrem. Unidirecionalmente.

Mas acabei de cair em um estudo publicado por aquela agência (já há cerca de dois anos) que me fez ficar perplexo, abestalhado e abobado. Não é que o estudo em si seja ruim, mas é que parece que ele foi feito por duas equipes de pesquisadores bem distintas: os responsáveis pelos métodos, pela formulação dos questionários, pela captação dos dados e apresentação das planilhas pareciam estar interessados em efetivamente investigar os padrões de violência entre parceiros íntimos e outros aspectos associados.

Já os responsáveis pelo texto, pela parte gráfica e pela publicidade pareciam interessados em desenhar e reforçar a velha narrativa – tão fomentada pela ONU Mulheres – de mulheres vítimas de um lado, homens agressores do outro.

Os formuladores dos métodos da pesquisa tiveram alguns cuidados incomuns em pesquisas feministas sobre violência afetiva (e comuns em pesquisas honestas sobre o tema).

1. As mesmas perguntas eram feitas para ambos os sexos, tanto as sobre perpetração quanto sobre vitimização  (se você se lembra de outra pesquisa da ONU que já comentei aqui, as perguntas de perpetração eram feitas só a homens e as de vitimização só a mulheres, de modo que qualquer que fosse o resultado, homens seriam sempre agressores e mulheres vítimas).

2. As classes de violência foram separadas e analisadas caso a caso (se você lembra daquela mesma pesquisa, a categoria “sofrer algum tipo de violência” era analisada num bloco que misturava “ser incluída em lista de menina mais bonita da turma” e “ser estuprada”).

Um detalhe não necessário, mas que tornou a metodologia mais robusta, foi a inclusão de homens e mulheres transexuais na análise.

Esta categorização adicional permite, além de uma maior profundida da análise, também uma maior clareza do resultado. Eu também teria incluído uma tabela separada para homossexuais não transexuais de ambos os sexos, mas não era obrigatório.

Eu também teria me aprofundado mais nas categorias de violência, incluindo outros tipos mais graves de agressão física, mas, novamente, as categorias usadas são aceitáveis.

Os resultados

A pesquisa não tratava apenas de violência entre parceiros íntimos, mas é só desta parte que vou tratar aqui. Sobre o resto, abordarei em outros posts.

O resultado não tinha nada de surpreendente para qualquer pessoa que já esteja habituada à leitura de pesquisas honestas neste campo. De modo simples, o conjunto de resultados pode ser resumido no seguinte parágrafo:

Homens e mulheres, transexuais ou não, podem ser vítimas e autores dos mais diversos tipos de violência contra ou por parte dos seus parceiros íntimos: tanto as físicas quanto as verbais e comportamentais. A prevalência de sexo pra sexo, gênero pra gênero pode variar dentro da margem de erro em alguns casos ou apontar uma tendência de prevalência clara em outros, a depender do tipo de violência abordada, mas não se pode definir honestamente uma prevalência geral e significativa de um sexo como agressor e outro como vítima quando se trata de agressões entre casais.

Senão vejamos

Considerando apenas as pessoas não transexuais 6% dos homens admitiram ter dado sacudidas, apertões ou empurrões nas suas parceiras enquanto 6,9% das mulheres responderam o mesmo. Quando perguntados se já tinham sofrido tais agressões as respostas foram 9,8 e 15,4 por cento.

Quando a agressão era “exigir fidelidade” (leia como “ter crises de ciúmes”) as mulheres foram as maiores agressoras  (11,4% contra 9,7%) e os homens as maiores vítimas (12% contra 9,5%).

Comportamentos de controle (determinação roupa que veste, briga sobre com que amigos sai, roubo de senhas de internet…) foi assumido por 8,3% dos homens e 12,1% das mulheres. Quando se perguntou quem já sofreu este tipo de comportamento 22,3% dos homens e 22,2% das mulheres disseram que já tinham sofrido.

Comentários que desqualificavam o parceiro foram assumidos por 3,1% deles e 3,6% delas, mas quando se perguntava quem já tinha sido desqualificado pelo parceiro 14,3% deles e 19,4% delas diziam que sim.

As duas agressões com maior e mais consistente diferença por sexo foram estapear e insistir em fazer sexo mesmo depois de negativas. 1,3% dos homens já tinham esbofeteado a parceira enquanto 8,4% delas já tinham esbofeteado o namorado/marido/amante. Quando a pergunta era sobre já ter sido estapeado, 12,7% deles e 5,1% delas responderam positivamente.

Já quanto à insistência no sexo a prevalência se inverte: 16% contra 3,1% e 8,6% contra 40,8%

Um padrão muito claro é o de que os percentuais de gente admitindo que agrediu é sempre menor que o de que admite que sofreu a agressão, para ambos os sexos.

Motivações pra isso podem ser diversas: “Quem bate apanha, quem esquece não” ou vergonha em assumir (ainda que o questionário fosse anônimo) ou a própria significação íntima do ato (pense num namorado que, percebendo que sua namorada sempre comete os mesmos deslizes em português, viva a corrigi-la: ela pode interpretar nisso uma agressão e responder positivamente à questão sobre “desqualificar o parceiro” enquanto ele pode achar até que a está ajudando, lhe estimulando a se aprimorar intelectualmente).

Quando comparadas as tabelas do transexuais a coisa mantinha o padrão: alguma variação, mas nada que permitisse inferir que homens ou mulheres, transexuais ou não, fossem globalmente mais vítimas ou mais agressores.

E cadê o erro?

Ao ler o estudo a impressão é de que as pessoas que foram responsáveis pela definição dos métodos e condução do questionário não tiveram parte na escrita do texto: veja a tabela abaixo e a legenda, atentamente.

ONU VIOLÊNCIA.png

Perceba o inequívoco descompasso entre o que a tabela diz e o que está escrito no box: a tabela informa que, de todos os grupos estudados, o que mais teve indivíduos admitindo ter cometido as violências comportamentais associadas ao controle do parceiro íntimo foi o das mulheres transexuais, seguido das mulheres, dos homens transexuais e – finalmente – dos homens.

Qual o sentido de destacar o alto número de homens agressores e mulheres vítimas quando são os homens as maiores vítimas e as mulheres os maiores agressores da tabela? (ignore a confusão entre os 18,3% das mulheres transexuais e os 22,2% das mulheres não transexuais)

Agora observe:

ONU VIOLÊNCIA

Perceba como a leitura sobre o descompasso entre a percepção de violência cometida e violência sofrida é atribuída como uma deficiência POR PARTE DOS HOMENS quando a própria tabela e todas as outras 5 tabelas apresentadas apontam que esta é uma questão generalizada na amostra. Em todas as formas de violência e para todos os sexos e gêneros analisados o mesmo descompasso do qual os homens levam a culpa no texto do box aconteceu: as respostas positivas a perpetração tiveram a tendência de ser menores do que as respostas positivas a vitimização, como já discuti mais acima.

Ao longo do documento essa tendência aparece outras vezes: enquanto os dados numéricos apontam para uma semelhança muito grande na prevalência de perpetração e vitimização de atos de violência entre parceiros íntimos de ambos os sexos, independente de se portadores ou não de transexualidade, o texto insiste em reforçar a noção de homens agressores, mulheres vítimas como default. Nos elementos gráficos isso também ficou destacado, com os bonequinhos masculinos agredindo e as figuras femininas apanhando.

Um estudo muito acima do padrão ONU Mulheres, mas que tinha tudo pra ser totalmente honesto, e que foi cagado em parte por – provavelmente – algum membro da equipe mais vinculado à área da comunicação do que da pesquisa em si. É o que me parece.

O estudo tem outros detalhes interessantes, para além da questão da violência entre parceiros íntimos. Discutirei em outras postagens.

Uma ressalva adicional sobre o método

Ainda que seja muito positivo o fato de que o questionário foi elaborado de maneira não enviesada, algo incomum em estudos feministas em geral e da ONU Mulheres em particular, há que se fazer uma ressalva ao método de aplicação do questionário.

A pesquisa era respondida via internet, através de um blog,

Isso gera grande possibilidade de viés amostral (as respostas podem indicar mais o posicionamento médio do leitor típico do blog do que o da população em geral) e de fraude (com a possibilidade de que pessoas respondessem várias vezes ao mesmo questionário, por exemplo, sobretudo se fossem ativistas que pudessem ter algum interesse em condicionar o resultado da pesquisa).

LINK : https://assets-dossies-ipg-v2.nyc3.digitaloceanspaces.com/sites/3/2018/04/OnuMulheres_PrecisamosfalarcomoshomensRelatorioFinalQuant.pdf

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