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O Estadão tem razão

Zé tomou uma decisão drástica quanto à saúde: está convencido de que precisa melhorar seu hábitos ou vai acabar morrendo. Na sexta tomou cachaça com limão e ficou com dor de cabeça. No sábado, vodka com limão e vomitou muito. No domingo rum com limão e deu-lhe uma baita dor na barriga. Definitivamente está na hora de parar de consumir limão em excesso.

Falácia causal é o tipo de falha de raciocínio/argumentação que consiste em assumir uma relação de causa e consequência entre dois eventos pelo fato de que eles aparecerem juntos com frequência, quando a causa de um ou de ambos os eventos observados e o motivo de eles aparecerem sempre juntos pode estar em um ou mais eventos adicionais, ignorados por quem fez o cálculo.

Zé percebeu que toda vez que tomava limão passava mal, mas o real motivo estava em algo que a cachaça, o rum e a vodka têm em comum e que Zé ignorou solenemente. O limão estava ali só pra confundir a cabeça do pobre do pinguço.

Dentre as muitas pautas de Jair Bolsonaro que têm gerado bate-bocas trevosos na internet, memes e denúncias de tendenciosismo dos devotos do capitão contra a imprensa, uma é a proposta do presidente eleito de ampliação dos colégios militares e da adoção destes como modelo para a educação pública.

Jair e os entusiastas da proposta lembram, como argumento central, o altíssimo desempenho dos colégios militares em relação aos demais estabelecimentos públicos de ensino. Atribuem ao caráter militar e à rígida disciplina destes estabelecimentos a razão do sucesso. É uma enorme falácia: o mesmo tipo de erro de raciocínio cometido pelo Zé da piadinha no começo do texto.

Primeiro: de fato, todos os colégios militares do Brasil são colégios de excelente padrão de ensino, muito superior ao da maioria das escolas privadas e imensamente superior ao da maioria das escolas públicas.

Em Belo Horizonte, o Colégio Militar aparece como um dos 20 melhores da cidade pelo ranking ENEM mais recente. No Rio de Janeiro, o Colégio Militar foi um dos poucos estabelecimentos públicos entre os 100 primeiros colocados de 2015. Idem no ranking do Recife do mesmo ano. No mesmo ano, em Brasília, as duas melhores escolas públicas eram de caráter militar. No Rio Grande do Sul não há nenhuma escola militar entre as 10 melhores do estado, mas há duas entre as 10 melhores públicas. Em Belém do Pará um dos dois melhores colégios públicos é vinculado à Aeronáutica.

O padrão é muito forte e recorrente: parece o sumo de limão que o Zé anda bebendo todo dia.

Agora, clique nos links disponibilizados acima e olhe cada uma das listas mais de perto. Repare nelas com bastante atenção e só depois volte aqui.

Percebeu algum padrão?

No Rio de Janeiro há seis escolas públicas melhor posicionadas que o Colégio Militar, inclusive 5 unidades do extremamente “liberal” e “progressista” Colégio Pedro II. No Rio Grande do Sul não há nenhum colégio militar entre os 10 melhores colégios do estado, embora o melhor colégio do estado seja público, o Colégio Politécnico da UFSM. Em BH o Colégio Militar aparece em 11º lugar e logo após, em 15º, vem o Colégio Técnico da UFMG. Em Belém do Pará dois colégios públicos estão posicionados entre os 20 melhores: a Escola Tenente Rêgo Barros (militar) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia.

O padrão não está só no “militar”, está também no “federal” e no “universidade”. Escolas federais, sejam elas civis ou militares, se destacam dentre as demais escolas públicas e superam a maioria das privadas.

Também se destacam os colégios de aplicação vinculados a universidades públicas, sejam elas federais ou estaduais: em Recife, por exemplo, todos os 9 colégios públicos entre os 100 melhores recaem nestas categorias: 7 são de aplicação e 2 são militares, 6 são estaduais e 3 são federais.

Então vamos federalizar o ensino, em vez de militarizar? Ou vamos transformar todas as escolas em escolas associadas a universidades públicas?

Não, continuaríamos cometendo o mesmo erro lógico.

As reais causas do imenso destaque de escolas como Colégio Pedro II, Colégio Militar de Brasília, Colégio Politécnico da UFSM, Colégio Técnico da UFMG ou Colégio de Aplicação da UFPE não são ‘democratizáveis’. Os reais motivos pelos quais estas escolas se destacam estão nos seguintes fatos:

* Corpos docentes formados majoritariamente por mestres e doutores
* Salários na ordem dos 10 mil reais a 20 mil reais (a depender de titulação e anos de casa)
* Corpos discentes selecionados por provas (vestibulinhos) e maioria dos alunos pertencentes a famílias de classe média pra alta

Estes são os reais fatores pelos quais as escolas federais ou associadas a universidades públicas, militares ou não, sempre se destacam no cenário educacional de todos os estados brasileiros.

A proposta de militarizar as escolas públicas como solução para o baixo rendimento das escolas públicas padrão é sim demagógica e baseada num raciocínio falacioso. E sim, o real efeito da construção de um colégio militar por capital, como promete o capitão, será elitista. A estrutura dos colégios federais (militares ou civis) no Brasil é elitista por natureza.

Desta vez o Estadão tem a mais absoluta razão.

REFERÊNCIAS

Links diversos no corpo do texto provendo fontes para as principais alegações.

 

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