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Pluckrose et al : trolando a “ciência” do mimimi

PARA ACESSAR TODOS OS ARTIGOS ORIGINAIS (EXCETO O DO PÊNIS CONCEITUAL) BEM COMO OS EMAILS TROCADOS NO PROCESSO DE REVISÃO POR PARES, CLIQUE AQUI

Algo deu errado na universidade – especialmente em certos campos das ciências humanas. A atividade acadêmica menos baseada na descoberta da verdade e mais na atenção às queixas sociais tornou-se firmemente estabelecida, se não totalmente dominante, dentro desses campos, e seus estudiosos cada vez mais intimidam estudantes, administradores e outros departamentos a aderirem à sua cosmovisão. Essa visão de mundo não é científica e não é rigorosa. Para muitos, esse problema tem se tornado cada vez mais óbvio, mas faltam evidências fortes. Por essa razão, nós três passamos um ano trabalhando dentro da área acadêmica que vemos como parte intrínseca desse problema.

Assim James A. Lindsay , Peter Boghossian e Helen Pluckrose introduzem a explicação sobre como e por que trolaram algumas das principais revistas “científicas” relacionadas a Estudos de Gênero (feminismo acadêmico) e áreas correlatas.

O prestígio de revistas acadêmicas é medido em função da quantidade média de citações que cada artigo publicado por elas recebe, que se traduz numa métrica chamada de fator de impacto. Em tese, quanto maior o fator de impacto de uma revista, maior a credibilidade de seus estudos, maior o rigor que seus editores e revisores aplicam às publicações enviadas.

Existe uma relação isomórfica explícita entre o pênis conceitual e os temas mais problemáticos na masculinidade tóxica, e essa relação é mediada pelo aspecto machismo braggadocio do pensamento e do desempenho hipermasculino dos homens. Uma mudança em nossos discursos sobre ciência, tecnologia, política, economia, sociedade e comunidades diversificadas é necessária para proteger grupos marginalizados, promover o avanço de mulheres, trans e indivíduos de gêneros alternativos (incluindo os agêneros e as pessoas que não acreditam em gênero), e para remediar os impactos ambientais decorrentes das mudanças climáticas (…)

Para testar a hipótese de que os campos “científicos” atrelados ao feminismo e a outros campos identitários estão profundamente infectados por viés ideológico e desleixo epistemológico, os pesquisadores Helen Pluckrose, James Lindsay e Peter Boghossian optaram por enviar seus artigos falsos e propositalmente  absurdos para revistas de alto fator de impacto dentro destas disciplinas.

Os estudiosos definem a sua pesquisa como um trabalho etnológico, imergiram em uma cultura esotérica e tentaram compreender de dentro dela os seus mecanismos de funcionamento, se tornaram fluentes em suas linguagens e costumes de tal modo que não foram percebidos como intrusos aos mais treinados de seus membros.

A pesquisa buscava também testar ao limite o quão propensa está esta subcultura acadêmica a aceitar como válida qualquer teoria que apresente homens e brancos e heterossexuais como algozes das demais parcelas da humanidade.

Os primeiros artigos enviados não foram aceitos exatamente pela falta de uma retórica, um aspecto de estilo na escrita dos textos, que permitisse que as pesquisas falsas passassem como verdadeiras pelos membros da tal subcultura. Eles tiveram que se aprimorar nos clichês, reforçar a leitura nas fontes que são usadas como conferidor de credibilidade aos aos artigos nestas áreas, e só assim as aceitações começaram a aparecer.

[Escolhi alguns dos artigos publicados pelo trio, para comentar. Você pode baixar todo o material nos links no começo deste post]

O pênis conceitual como uma construção social

A primeira pesquisa “científica” de Pluckrose e seus amigos foi publicada em uma revista de Sociologia não muito bem reputada e deu muito dedo cu e gritaria nas redes sociais, mas pouca resposta negativa dentro das próprias Ciências Sociais (o que demonstra por si só o quanto há pouca ou nenhuma crítica interna ao estado de coisas no mainstream da área).

Cogent Social Sciences, uma revista indexada recente e que ainda não figura no ranking SJR, publicou um dos artigos mais estúpidos e obviamente zoeiros da lista. Os pesquisadores fictícios Jamie Lindsay e Peter Boyle defenderam a ideia de que a relação entre o pênis e a masculinidade não é natural, mas construída socialmente e usada como ferramenta de opressão e de performance de poder masculinas, o que em última análise contribui para o aquecimento global:

Concluímos que a melhor forma de compreender o pênis não é como órgão sexual masculino, ou como órgão reprodutivo masculino, mas como uma construção social estabelecida que é danosa e problemática para sociedade e para as gerações futuras. O pênis conceitual representa problemas significativos para a identidade de gênero e a identidade reprodutiva dentro das dinâmicas social e familiar, é excludente para os  comunidades minoritárias baseadas em identidades de gênero ou reprodutiva, é uma fonte permanente de abuso para mulheres e outros grupos e indivíduos marginalizados por gênero, é a fonte performativa universal de estupro, e é o driver conceitual por trás de parte significativa das mudanças climáticas.

Existe uma relação isomórfica explícita entre o pênis conceitual e os temas mais problemáticos na masculinidade tóxica, e essa relação é mediada pelo aspecto machismo braggadocio do pensamento e do desempenho hipermasculino dos homens. Uma mudança em nossos discursos sobre ciência, tecnologia, política, economia, sociedade e comunidades diversificadas é necessária para proteger grupos marginalizados, promover o avanço de mulheres, trans e indivíduos de gêneros alternativos (incluindo os agêneros e as pessoas que não acreditam em gênero), e para remediar os impactos ambientais decorrentes das mudanças climáticas impulsionadas pelo excesso de confiança capitalista e neocapitalista em temas hipermasculinos e pela abusiva utilização de combustíveis fósseis.

O texto satírico, que pareceu ridículo a uma imensidão de internautas no mundo todo, foi entendido algo muito digno e sério para os cientistas sociais formados e pós-graduados encarregados de ler, revisar e selecionar artigos para publicação na Cogent Social Sciences.

A medida que aprenderam a escrever com os mesmos padrões retóricos que os pesquisadores reais da área começaram a surgir artigos com tal padrão de excelência (ou de falta dela, melhor dizendo) que permitiram publicação em periódicos com os mais altos fatores de impacto, pertencentes ao primeiro quartil dentro das sub-áreas diversas das humanidades.

Reações humanas à cultura do estupro e à perfomatividade viada em pracinhas para cachorro em Portland, Oregon

A prestigiosa revista britânica Gender, Place & Culture – primeiro quartil SJR em Estudos de Gênero, em Estudos Culturais, em Demografia e em Estudos de Gêneros – aceitou e publicou um artigo em que a pesquisadora fictícia Helen Wilson declarava ter feito anotações sobre o comportamento sexual de 10 mil cachorros ao longo de um ano em uma pracinha para entender aspectos da cultura do estupro e da perfomatividade homoafetiva dos bichos entre si e entre os bichos e seus donos.

Coleirão de couro, maaaaaaano!

No texto ela declara que, ao longo de 1 ano, observou cerca de 1000 atos sexuais entre os caninos, mas que teve dificuldade em diferenciar se eram estupros, devido sua limitação humana. Refere, adicionalmente, que pareciam estupros. Comenta que na maioria dos casos em que um cachorro do sexo masculino tentava copular com cachorros do mesmo sexo os seus donos afastavam, mas quando os cachorros tentavam copular com cadelas seus donos permitiam que fossem adiante e riam. Viu nisto tudo evidências de homofobia e fomento da cultura do estupro contra as fêmeas caninas. Acrescenta ainda que ao se abaixar para observar as genitálias dos cachorros, tomou cuidado pra não ser invasiva e se afastar casos os dógues se sentissem desconfortáveis com a indiscrição.

Esta última observação não foi inicialmente pensada pelos autores do texto, mas foi introduzida após a crítica de uma revisora, uma cientista feminista de verdade que trabalha para a tal revista.

Entrando pela porta dos fundos: combatendo a homo-histeria, a trans-histeria e transfobia do macho heterossexual através do uso receptivo-penetrante de brinquedos sexuais

A  Sexuality & Culture, primeiro quartil SJR em Estudos de Gênero e em Estudos Culturais publicou um artigo em que um fictício M. Smith propunha que homens heterossexuais deveriam enfiar pênis de borracha no ânus a fim de enfrentarem a transfobia.

O artigo atesta que homens que aderiam à prática de sentar nos brinquedinhos sexuais se tornavam menos receosos de serem confundidos com homossexuais e menos propensos a se submeterem aos papéis de gênero tipicamente masculinos.

Os editores da revista consideraram o artigo uma grande contribuição para o conhecimento humano.

Quem são eles para julgar? Superando a antropometria através da fisicultura gorda

A Fat Studies, primeiro quartil SJR em Estudos Culturais, publicou um texto em que o pesquisador fictício Richard Baldwin propunha uma nova categoria esportiva, mais inclusiva, chamada fisiculturismo gordo.

O resumo do artigo diz que Ainda que o ativismo gordo tenha bloqueado muitos discursos dominantes que contribuem para a causa de julgamentos negativos sobre a gordura, ele ainda não penetrou no domínio da musculação competitiva. O autor introduz o fisiculturismo gordo como um meio de desafiar as assunções predominantes das mais fortemente excludentes contra os gordos (as culturas esportivas) enquanto levanta questões ontológicas sobre o que significa “construir um corpo”. Especificamente, ele defende que se imagine uma nova categoria dentro do fisiculturismo, denominada fisiculturismo gordo, como uma ação politizada inclusiva e uma nova cultura a ser incorporado dentro do fisiculturismo.

Ao longo do texto, o pesquisador fictício destaca que músculo, é apenas um outro tecido do corpo, o que dá crédito ao fisiculturismo gordo como um esforço esportivo baseado em gordura que interpreta a noção do “corpo malhado” de um modo ontologicamente mais amplo e apresenta como sendo uma contradição gordofóbica a existência do fisiculturismo tradicional (em que os mais altos índices do primeiro tecido são louvados) e a inexistência do fisiculturismo proposto por ele (em que louvados seriam os mais índices do segundo tipo de tecido).

O “autor” explica que os discursos que unem saúde e magreza são construções sociais associadas à exploração neoliberal do corpo.

Uma etnografia da masculinidade nos breastaurant: temas de objetificação, conquista sexual, controle masculino e macheza em um restaurante sexualmente objecador

A Sex Roles, primeiro quartil SJR em Estudos de Gênero e segundo quartil em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento e em Psicologia Social publicou um artigo problematizando a rede de lanchonete Hooters, uma rede multinacional de fast-food sediada nos EUA cujas garçonetes são gostosas para caralho. Estes restaurantes são conhecidos em Inglês como “breastaurants” (um trocadilho com a palavra breast, que significa seio).

Problematização pós-moderna da rede Hooters foi um dos artigos fakes publicados por Pluckrose et al em revistas “científicas” feministas

Em um longo artigo cheio (como sempre) de jargões pós-modernos o “autor” Richard Baldwin indica ter encontrado quatro grandes temas e um menor nas demonstrações de masculinidade apresentadas nas mesas, entre cervejas e salgadinhos: objetificação feminina, dominação masculina, demonstrações de macheza, conquista sexual e racionalizações sobre gostar de frequentar este tipo de restaurante.

O artigo apresenta diálogos fictícios que teriam sido ouvidos pelo também fictício pesquisador e que são usados como evidências das descobertas. As revelações são incríveis: Eu venho aqui por causa das garotas, por exemplo, foi o que revelou a fala de um dos frequentadores, destacada por Baldwin como uma das formas de justificativa racionalizada para  presença dos rapazes em tal restaurante.

Nossa luta é minha luta: feminismo solidário como uma resposta interseccional aos feminismos neoliberal e de escolha

Já o artigo aceito, mas não publicado (não deu tempo), pela revista Afilia tratava-se nada mais nada menos do que uma adaptação do segundo capítulo do Mein Kampf, obra em que Adolph Hitler teoriza sobre a superioridade da raça ariana e inferioridade da raça judia. Claro que Pluckrose et al fizeram algumas modificações, para tornar o texto adequado à teoria feminista de superioridade do sexo feminino e inferioridade masculina.

Resultado de imagem para feminazi
Feminazi: apenas um xingamento ou uma descrição acurada?

O título que Pluckrose et al (que aí usaram os codinomes de Maria Gonzalez e Lisa A. Jones) faz referência ao texto de Hitler já no nome.

Quando a piada é sobre você: uma perspectiva feminista sobre como a posicionalidade influencia a sátira

Um dos meus textos preferidos, entretando, foi o aceito (mas não publicado, por falta de tempo) pela revista Hypatia (1º quartil SJR em Filosofia, 2º quartil em Estudos de Gênero).

Nele, os três estudiosos propõem que o humor (a sátira e o sarcasmo) são os mecanismos de opressão quando utilizados por membros de “grupos privilegiados” contra “grupos oprimidos” (ou de libertação, quando o contrário). Usam como exemplos o experimento de Sokal (principal influência dos três para conduzir este trabalho) e o próprio estudo sobre o pênis conceitual (o qual a esta hora já tinha sido noticiado que era um estudo falso publicado por dois dos três colegas). Chegam a ironizar o fato de só terem-no conseguido publicar em uma revista de baixo prestígio.

O humor é uma ferramenta poderosa que alcança muitas funções sociais. Além de melhorar as relações, o humor também desempenha rotineiramente funções sociopolíticas, incluindo tanto a defesa de estruturas dominantes de poder quanto subvertendo-as. Seguindo estudos recentes sobre  injustiça/opressão epistêmica e as funções sociais do humor, este artigo argumentará que estas os efeitos dependem da posicionalidade dos pretensos humoristas. Ao mostrar quando a paródia/sátira/ironia gera o conceito de fricção epistêmica de Medina (Medina 2013) e quando não, duas funções do humor são esclarecidas: como uma ferramenta de subversão que promove justiça social visa quando vem de grupos marginalizados e uma ferramenta de superioridade/depreciação  quando usado por pessoas privilegiadas contra os objetivos de justiça social. Consequentemente, eu faço recomendações para aqueles engajados na Pedagogia da Justiça Social para levar o humor a sério com relação às suas funções e impactos dentro da sala de aula, na cultura popular e até mesmo dentro do cânone acadêmico.

(…) Mais recentemente, “O pênis conceitual como uma construção social”, de James Lindsay e Peter Boghossian (sob os pseudônimos “Jamie Lindsay” e “Peter Boyle”), tentou abordar conceitos de justiça social diretamente.

(…) É digno de nota que neste caso a piada aparentemente caiu sobre os fraudadores, já que sua tentativa de fraude foi universalmente anunciada como um fracasso (mesmo por Alan Sokal) por causa dos baixos padrões da revista em relação à processo de revisão por pares. Uma vez que buscava deslegitimar os estudos de gênero, é importante examinar as motivações por trás dessa fraude, juntamente com suas suposições epistemológicas. A posicionalidade dos seus autores também é importante. Seus autores, dois homens brancos cis, heterossexuais, que afirmam compromissos profundos com a tradição filosófica ocidental predominante (Lindsay é um matemático; Boghossian, filósofo “socrático”) e antipatia ao ativismo de minorias, atacaram especificamente “a arquitetura moral da esquerda acadêmica em geral, e. . . a ortodoxia moral nos estudos de gênero em particular ” devido ao seu desagrado com as conclusões, implicações e ativismo que emanam do gênero estudos. Especificamente, esses fraudadores se revelaram moral e epistemologicamente motivados contra (mais recentes) considerações teóricas estabelecidas de gênero, raça e sexualidade em prol da preservação e do fortalecimento das pesquisas científicas e meta-científicas hegemônicas. narrativas (Boghossian e Lindsay 2017). Essas atitudes, no entanto, são os tais “ sentimentos profundamente conservadores e reacionários ”, descritos por Fredel.

Por que não é apenas engraçado, mas importante?

Lindsay, Pluckrose e Boghossian explicam que para muitos que não estão envolvidos na academia, particularmente aqueles que são céticos quanto ao seu valor em geral, pode parecer que estamos lidando com mais uma disputa acadêmica obscura de pouca relevância para o mundo real. Você está enganado. O problema que estamos estudando é de extrema relevância para o mundo real e para todos os que estão nele.

Os pesquisadores marcam que embora a maioria das pessoas nunca leia um único artigo acadêmico em suas vidas, os periódicos revisados ​​por pares são o padrão ouro absoluto da produção de conhecimento. E esses conceitos vazam para a cultura.

O trio cita alguns exemplos de como essa influência perversa da má ciência ocorre na medicina ou na pedagogia, eu poderia citar também de como ela influencia na definição de condutas no judiciário (usando um exemplo sentido na própria pele) ou na definição das políticas (e gastos) públicas.

Ao publicarem pesquisas tão claramente falsas em periódicos de tamanho renome, creio que uma das principais importâncias socio-culturais do trabalho consista precisamente no potencial de fazer com que (em algumas cabeças) esta confiança automática em qualquer coisa publicada em formato que mimetize o padrão dos textos científicos seja reduzida, e o instinto de criticar a informação que se recebe, mesmo quando originária de uma prestigiosa revista indexada, seja reforçado.

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