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Revista Época e o fantástico caso do macho Bolsonarista

Dei uma entrevista esta semana para a Revista Época sobre a minha questão envolvendo a pesquisa Lesbocídio da UFRJ.

Confesso estar ansioso pra ver se a matéria saiu e sobre quanto destaque e que tipo de enfoque recebeu. Parece que o caso Daniel vs Suane, Milena e Maria Clara seria uma das histórias dentro de uma matéria maior sobre conflitos ideológicos nas universidades devido ao [ muito bem vindo] surgimento de uma polarização esquerda vs direita nas instituições de ensino.

Zapeando pelo conteúdo da revista para conferir se já tinha algo no site da Época me deparo com uma matéria escrita pela Helena Borges e pelo Rafael Ciscati, de 16 dias atrás… e… sinceramente… eu nem sei por que me espanto, mas me espantei.

A matéria é um festival de clichês e ataques rasteiros com base em estereótipos de raça, sexo e sexualidade. Coisa digna de uma Catraca Livre ( ainda tento encontrar distinção entre a imprensa mainstream e as Catracas Livres da vida).

A coisa começa com o título e o subtítulo: “O macho bolsonarista em questão : Raiva e masculinidade no voto de Bolsonaro”

Após narrar alguns exemplos de atos de violência supostamente praticados por apoiadores de Bolsonaro, inclusive a morte de Charlione Albuquerque, que segundo a polícia não foi cometida por apoiadores de Bolsonaro ( vale a pena ler a revisão feita por David Ágape e Vanessa Bigaran sobre o assunto) e de vagamente lembrar que o próprio presidente foi alvo de tentativa de assassinato (neste caso os jornalistas não tentam associar o ato criminoso ao PSOL, partido de simpatia do esfaqueador) a dupla de jornalistas da Época escreve que:

Os casos descritos acima revelam que uma parcela expressiva dos homens, a maioria de classe média, está insatisfeita com os rumos que o mundo tomou nos últimos tempos. As condições nas quais reinavam absolutos, nas quais a masculinidade dava as principais cartas, mudaram de forma dramática. “Esse eleitor do Bolsonaro não se sente confortável em um mundo tão complexo e heterogêneo”, afirmou a cientista social Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Os jornalistas continuam seu desenvolvimento, misturando suas opiniões pessoais com opiniões da tal professora da Unifesp:

As políticas públicas a favor de grupos minoritários representam uma ameaça ao estilo de vida dele. “Ele é um saudosista. Considera que a família nuclear e heterossexual é a única possível. Esse tempo já passou. E esse eleitor ficou para trás, como um melancólico”, disse a pesquisadora (…)

Não há problema algum em jornalistas expressarem diretamente as suas opiniões em textos jornalísticos.

A idealização da isenção da imprensa standard já não se sustenta mais, mas é desejável um pezinho na realidade e um pezão na honestidade intelectual.

Helena e Rafael preferiram traçar um perfil psicológico caricato baseado em pressupostos sexistas, racistas e classistas sobre uma fatia limitada do eleitorado para explicar a vitória do militar em uma eleição majoritária.

Veja este parágrafo:

Homens e mulheres encararam a eleição presidencial de forma muito diferente, DE ACORDO COM OS RESULTADOS OFICIAIS. Se o eleitorado fosse formado apenas por mulheres entre 16 e 24 anos, o presidente anunciado no último domingo teria sido Fernando Haddad, com 59% dos votos em relação a 41% de Bolsonaro. Entre os homens da mesma idade, o pesselista contaria com 60% em oposição a 40% do candidato petista. [grifo meu]

Note que os escritores da pauta apontam o argumento para a variável sexo, mas os números que mostram são os da variável sexo+idade. Não sei, mas tá parecendo mais desonestidade intelectual que falta de inteligência ou de terem feito o dever de casa.

Veja: Homens e mulheres encararam a eleição presidencial de forma muito diferente e depois Se o eleitorado fosse formado apenas por mulheres entre 16 e 24 anos (…)

Só que, na verdade, pelas pesquisa DE BOCA DE URNA, o Bolsonaro ganhou entre as mulheres. Pode até ser que tenha perdido entre as mulheres jovens (não tenho os dados) mas entre as mulheres em geral, ele ganhou.

Um detalhe: ao contrário do indicado pelos jornalistas da Época, não há dados oficiais sobre percentual de votos masculino e feminino. O que há são os dados não oficiais do IBOPE, produzidos a partir de entrevistas a eleitores que haviam acabado de votar.

O voto é secreto: não há como se saber oficialmente quantos jovens, quantos homens ou quantas mulheres votaram em Bolsonaro ou em Haddad.

Os responsáveis pela matéria ainda tentam associar o voto à Bolsonaro ao ódio racial:

A adoção das cotas aumentou, num período de 20 anos, em quatro vezes a chance de um negro ter diploma universitário. Mas o percentual de negros que conseguem o diploma ainda é extremamente baixo. Segundo o Censo do Ensino Superior, o percentual de pretos e pardos que concluíram a graduação cresceu de 2,2%, em 2000, para apenas 9,3% em 2017.

Os brancos raivosos desprezam esses números. “Os negros tentam culpar os brancos por seus problemas e por sua linhagem histórica

A pessoa que está escrevendo este texto é negra (mulata escura), Helena e Rafael, mas é e sempre foi contrária ao sistema de cotas baseado em raça, ela votou em Bolsonaro e não foi apenas com base na posição dele contrária às cotas.

Votei 17 não acreditando que ele fosse a melhor das 13 opções inicialmente dadas (eu preferia o 30, e talvez até o 45), mas acreditando que ele era a menos pior entre as com reais chances de saírem vitoriosas ao final do primeiro turno (12 e 13) por uma grande série de motivos:

*as propostas liberais na política econômica, com promessa de andamento nas reformas desestatizantes e desburocratizantes

*a indicação de que vai focar o investimento público no Ensino Básico em vez de no Ensino Superior

*a indicação de que não dará prosseguimento às políticas sectárias com base em raça, sexo e sexualidade que foram a tônica dos últimos anos (inclusive cotas)

*a promessa de revisão e endurecimento das regras de execução penal

*o fato de que ele não tinha como promessa de campanha dar indulto para o chefe da quadrilha que assaltou o Brasil nos últimos 4 mandatos federais

Se vocês tivessem feito o seu dever de casa, se não tivessem escrito uma pauta inteira apenas a partir dos seus próprios pressupostos, se tivessem ido à cata dos dados, descobririam que – ao que tudo indica – Bolsonaro foi eleito com o voto da maioria dos pobres, da maioria dos negros (e também da maioria dos brancos e membros de outras etnias) e da maioria das mulheres (e também dos homens).

Isso é o que as pesquisas feitas durante o segundo turno (inclusive a pesquisa de boca de urna do Ibope) revelaram. Isso é o que o mapa das zonas eleitorais da minha cidade também indicaram. Vejam com seus próprios olhos, Helena e Rafael:

MAPA BOLSONARO

Tá vendo esta área verde escuro, Helena? É a área onde habitam, segundo o raciocínio apresentado na matéria, os homens brancos de classe média e racistas do Rio de Janeiro: corresponde a bairros ricos como Complexo do Alemão, Madureira, Barros Filho, Santíssimo, Sepetiba e Ricardo de Albuquerque (onde moro). Em toda esta parte pintada de verde escuro Bolsonaro ganhou com mais de 70% dos votos.

Já esta área verde-claro (em que Bolsonaro ganhou com margem apertada) corresponde a bairros pobres como Grajaú, Jardim Botânico, Leblon… ahhh, e essa mancha vermelha, único bairro onde o Haddad ganhou, é a Zona Eleitoral das Laranjeiras: só vota negro pobre por lá, vai vendo.

Eu sei que vocês queriam muito que tivesse sido isto: eu entendo que a única narrativa boa pra explicar a eleição de Bolsonaro é a de que a culpa seja todinha de homens brancos heterossexuais que odeiam os negros, que odeiam os gays, que odeiam as mulheres, que odeiam os pobres.

Mas os fatos não batem com a narrativa que vocês tentaram vender na sua matéria de 16 dias atrás pra revista Época, Helena e Rafael. Homens brancos de classe média-alta heterossexuais racistas, machistas, classistas e homofóbicos não seriam capazes de colocar no Palácio do Planalto um  presidente eleito com 56% dos votos válidos.

Como vocês costumam dizer, melhorem.

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