“O estado do Rio de Janeiro registrou no ano passado 431 vítimas de violência motivada por LGBTfobia.”

Assim começa uma cuidadosa #FakeNews publicada originalmente pela Agência Brasil (órgão estatal de comunicação social) e replicada pelo HuffPost.

Como já noticiei em Quem a homotransfobia não matou hoje? , o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro publicou um dossiê sobre violência contra LGBTs no RJ”.

Entendo – talvez presunçosamente – que a publicação de alguns documentos recentes neste sentido (o Ministério dos Direitos Humanos endossou os dados fraudulentos do Grupo Gay da Bahia de 2016, uma ONG que ainda não abordei aqui começou este ano a coletar e publicar dados anônimos de suposta violência anti-LGBT) possa ter algo a ver com esta página aqui.

Como mostrado no caso da pesquisa LESBOCÍDIO, da UFRJ ( se você ainda não conhece clique aqui e aqui ) a divulgação de informações sobre os dados usados se mostrou um mal negócio para estas pesquisas sobre mortes “motivadas por LGBTfobia”.

Comecei a verificar os próprios dados publicados e a gritar nos megafones da internet que estas pesquisas sobre “mortes motivadas por homotransfobia” na verdade são um balaio de gato onde misturam casos de homossexual morto por infarto ou overdose (na Itália, na França, na Inglaterra…), de homossexual morto em acidente automobilístico, de lésbica assassinada por outra lésbica, de gay assassinado por outro gay, de homem trans assassinado por outro homem trans e divulgam como se fossem casos de morte motivada por intolerância contra a sexualidade alheia no Brasil.

É fato que trabalhos anteriores já tinham sido divulgados neste sentido: Olavo de Carvalho já havia publicado algo ou outro, o jornalista Dario Di Martino havia feito uma revisão dos dados do GGB em 2013… mas creio que Quem a homotransfobia não matou hoje? foi pioneiro em fazer um trabalho insistente e consistente em torno destas e de outras manipulações em torno das “estatísticas de minorias” no Brasil.

Seja como for, o fato é que em 2018 diminuíram as pesquisas que divulgam os nomes e links que permitam a checagem dos dados (a UFRJ tornou os dados ocultos desde o começo do ano – logo após eu começar a questioná-los; o GRUPO GAY DA BAHIA parece estar a caminho da mesma decisão) e multiplicaram-se os dossiês e relatórios onde só divulgam números, sem informarem claramente de onde estes números saíram, ou para quais casos objetivos eles apontam.

Este é o caso do dossiê do ISP-RJ que deu amparo à Fake News do HuffPost abaixo.

huff
A imagem escolhida pelo HuffPost para ilustrar a chamada no Facebook foi alterada para uma mais adequada

Mas por que estou dizendo que a notícia é #FakeNews, se ela se baseia num dossiê que de fato foi publicado?

Para isso será necessário você acessar e ler o dossiê em que a matéria se baseia (aliás, sempre é bom acessar os documentos originais nos quais matérias jornalísticas se baseiam, o trabalho desta página consiste basicamente nisso).

O link do dossiê está aqui.

Uma notícia falsa não acontece apenas quando um blog desconhecido publica que se mais de 50% dos eleitores votarem nulo a eleição é anulada.

Notícias falsas publicadas pela grande imprensa costumam usar subterfúgios mais refinados, como o trabalho cuidadoso dos termos utilizados (omitindo palavras importantes à compreensão dos fatos, ou usando termos cuidadosamente ambíguos) ou a omissão deliberada de informações centrais.

Motivação presumida transformada em motivação de fato

A palavra “presumida” aparece 12 vezes no dossiê publicado pelo ISP-RJ. Na matéria publicada pelo HuffPost esta palavra inexiste.

Motivação presumida é a motivação apresentada pelo próprio denunciante (e/ou identificada pelo policial) na hora do registro. Ela não é e não pode ser tratada como motivação de fato de um crime, até pelo fato de que no momento da denúncia não se sabe sequer se houve de fato um crime (denúncias falsas e pelos mais diversos motivos são frequentes).

No final da página 17 os autores explicam que não tiveram acesso à dinâmica dos casos, isto é: eles não leram (por limitações legais de acesso ao documento e também por impossibilidade prática de esmiuçar os milhares de textos) os relatos e muito menos o desenrolar das investigações.

Apenas usaram um filtro que permitisse identificar toda vez que um homossexual tenha denunciado uma agressão (uma briga, um assalto, uma violência doméstica, uma briga de trânsito com trocas de xingamentos… qualquer tipo de violência) e o próprio denunciante tenha informado acreditar que a razão motivadora da agressão (uma briga, um assalto, uma violência doméstica, uma briga de trânsito com trocas de xingamentos… qualquer tipo de violência) tenha sido preconceito contra homossexuais.

Essa página NÃO NEGA, ao contrário do entendimento superficial de alguns, que haja eventos reais de violência motivada por preconceito ou intolerância quanto à sexualidade alheia.

O que esta página combate é a histeria, a desinformação, a fraude sobre o assunto. O que esta página combate é a torpe (e lucrativa para estes) ideia disseminada por institutos, universidades, ONGs, partidos políticos e grande imprensa de que toda violência que acomete homossexual seja motivada pela sexualidade destes, como se não fossem seres humanos como quaisquer outros e susceptíveis aos mesmos riscos que os demais.

Se um homossexual chega a uma delegacia e diz que foi assaltado e “acha que o motivo do assaltante tê-lo escolhido foi a sua sexualidade” isto não implica que de fato o assaltante só o tenha escolhido por ser homossexual.

A palavra “presumida” não apareceu no Dossiê 12 vezes a toa. E ela não foi sumariamente ignorada pelo repórter responsável pela matéria do HuffPost a toa.

Dossiê utiliza dados do GRUPO GAY DA BAHIA, da ANTRA e da UFRJ como suporte para os casos de assassinatos e afirma: não se tratam todos de homofobia

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Grupo Gay da Bahia e Associação Nacional de Travestis e Transexuais são três instituições já bem conhecidas por publicar relatórios de mortes aleatórias de homossexuais geralmente assassinados e divulgá-las como se fossem casos de crimes homofóbicos, homotransfóbicos, LGBTfóbicos, lesbofóbicos ou transfóbicos.

No dossiê, página 13, é informado que Serão apresentados também neste dossiê dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES), do programa Rio Sem Homofobia da Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Políticas para as Mulheres e Idosos (SEDHMI), do serviço de atendimento da Coordenadoria Especial de Diversidade S exual ligada à prefeitura doRio de Janeiro (CEDS) e de organizações da sociedade civil, como os da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), do Grupo Gay da Bahia (GGB) e do grupo Lesbocídio – As histórias que ninguém conta. Nem todos os dados tratam sobre violência motivada por LGBTfobia, mas todos ilustram um problema sistêmico, ou de atendimento à população LGBT+ ou da identificação dessas pessoas como tal.

Ora! O próprio trecho indica de maneira explícita que o dossiê do ISP-RJ não trata exclusivamente de agressões motivadas por homofobia.

Entretanto é assim que os dados serão referidos não apenas pelo Huff, pela Agência Brasil e pelo O Globo ( que já fizeram matérias baseadas no texto ) como por toda a grande imprensa.

Não interessa informar. Interessa disseminar histeria, ganhar views, likes e compartilhamentos e vender jornal na banca.

E para disseminar histeria, ganhar views, likes e compartilhamentos e vender jornal na banca “Em 2017, LGBTfobia fez 431 vítimas só no Rio de Janeiro” é mais útil que “Dados da Polícia Civil indicam centenas de boletins de ocorrência em que a suposta vítima alegou acreditar que a motivação do ato denunciado foi preconceito contra homossexuais”.

A segunda sentença fica longa demais e verdadeira demais para uma manchete jornalística.

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