Teresa Giménez Barbat é deputada representante da Espanha no Parlamento Europeu, é associada Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa. É membro da  Comissão de Educação e Cultura do Parlamento Europeu. Este texto é uma tradução e foi publicado originalmente aqui

Em abril de 2018, apresentei uma solicitação formal de esclarecimentos à Comissão Europeia sobre as vítimas masculinas de violência doméstica, tendo em conta a escassa atenção que suscitam nos programas europeus de ajuda e prevenção. Em sua resposta, a Comissária da Justiça, Direito do Consumidor e Igualdade de Gênero, Vera Jourová, reconheceu que “homens e rapazes também podem ser vítimas de violência baseada em gênero”, mas justificou a tendência atual das políticas europeias no fato de que “A grande maioria das vítimas de violência de gênero são mulheres e meninas.”

Essa explicação não me deixou satisfeita. Por um lado, achei problemático que Jourová apoiasse a posição oficial da UE em uma pesquisa (1) que abordava apenas a violência contra um sexo. Por outro lado, a resposta contrasta com grande parte das evidências científicas internacionais, segundo as quais os homens e, claro, os meninos e adolescentes, assim como os idosos, também sofrem maus-tratos domésticos – incluindo abuso sexual – de uma forma que está longe de ser banal.

Desde os anos setenta do século passado acumulam-se estudos e metanálises (estudos sobre estudos) que mostram que na esfera doméstica existem vítimas do sexo masculino e agressoras do sexo feminino. Esses trabalhos são baseados em pesquisas confidenciais e anônimas aplicadas por pesquisadores a diferentes grupos da população, incluindo estudantes, pacientes de hospitais e membros de comunidades. Eles são realizados na tentativa de aliviar os vieses dos dados sobre violência provenientes exclusivamente de registros policiais e hospitalares, que, segundo os especialistas, tendem a subestimar a vitimização masculina. Essa metodologia, claro, não é isenta de limitações (como o perigo de subestimar a prevalência da agressão), mas algumas conclusões básicas são reforçadas ano após ano e década após década: assim, segundo o resumo de Medeiros e Straus (2016 ), as mulheres exercem violência física contra seus parceiros do sexo masculino em proporção semelhante aos homens, e não estão livres de cometer agressões severas, embora haja diferença entre os sexos na gravidade das lesões, e no extremo letal da agressão existem claramente mais mulheres do que homens mortos pelos seus parceiros (2).

Estas conclusões coincidem com um novo estudo internacional que apresentei ao Parlamento Europeu na semana passada – e que será publicado no site do Fórum Euromind – sobre o impacto da violência praticada por parceiro íntimo nos homens e em crianças, elaborado por Joaquim Soares, professor emérito da Mid Sweden University, e Nicola Graham-Kevan, psicóloga forense da Universidade de Ce North Lancashire, Reino Unido. Ambos os pesquisadores têm um rico currículo acadêmico relacionado a violência doméstica, incluindo projetos financiados pela própria Comissão Européia, como o DOVE. Os resultados do seu trabalho, com base na avaliação de 153 estudos sobre vítimas de 54 países e 151 estudos de 44 países sobre perpetradores (homens e mulheres) apoiam as evidências anteriores e mostram apenas pequenas diferenças entre os sexos na perpetração média e vitimização relacionada à violência do parceiro. Essa simetria geral nas agressões é mantida, segundo o mesmo estudo, através das diferentes “regiões do mundo” analisadas: África, Europa / Cáucaso, Ásia-Pacífico, América Latina / Caribe, Oriente Médio e países industrializados de língua inglesa. Mais estudos desse tipo serão necessários, e mais bem equipados, para se obter um quadro mais claro da situação

No que diz respeito ao impacto da violência por parceiro íntimo em crianças, estudado por Graham-Kevan a partir dos resultados de 14 estudos realizados entre 2009 e 2018, a conclusão é que tanto os meninos quanto as meninas são afetados negativamente, por meio de múltiplas dimensões da saúde, independentemente de o abuso vir do pai ou da mãe. A perspectiva desses resultados é inconsistente com o foco atual da UE e da ONU, que se concentra quase exclusivamente em “mulheres e meninas”. Importante notar, a mesma autora ressalta a falta de estudos sobre abusos cometidos especificamente por mães contra os pais, o que estaria escondendo o real impacto que essa agressão poderia causar nas crianças.

Da mesma palestra realizada no Parlamento Europeu em Bruxelas também participou da jovem pesquisadora espanhola Marta Iglesias Julios, especialista em agressão feminina, estudante de doutorado em Lisboa, e ativa divulgadora científica, bem como a primeira autora espanhola a publicar um artigo na Quillette digital . Iglesias analisou as bases evolutivas da agressão feminina, enfatizando que a agressão feminina, embora diferente da masculina, não é “inexistente ou inofensiva”. O fato de que uma parte significativa da violência contra a mulher é cometida por outras mulheres, desde o bullying na escola ou no trabalho, deve ser objeto de mais estudos e considerações, na opinião de Iglesias.

É hora de abordar o problema do abuso doméstico e de gênero como uma questão de saúde pública, mais baseada em evidências científicas, escutando os pesquisadores, reconhecendo a natureza complexa e multifatorial do problema – como já está começando a ser feito na programas espanhóis para detectar o “risco de homicídio” que leva aos crimes rotulados como “violência de gênero” – mas também promover a participação e o diálogo de todos os atores sociais. Em suma, considerando o verdadeiro alcance de sua dimensão sexista, mas sem restringir o foco de gênero a um único sexo.

Também é hora de expandir a empatia em relação a homens e meninos. Particularmente em um mundo onde o sofrimento masculino é mais difícil de ser levado em conta, e onde tradicionalmente a maioria da população tende a favorecer naturalmente “medidas políticas que favorecem as mulheres” – como explicado em um recente trabalho da psicóloga social Tania Reynolds. Essas predisposições, que poderiam muito bem ser “características universais humanas”, porque são mantidas através de diferentes culturas, são baseadas em nossa evolução biológica, de modo que também podem constituir o que os psicólogos evolucionistas chamam de “descompasso” entre um passado com sociedades menos complexas e uma realidade de sociedades avançadas que promovem uma nova igualdade e cooperação entre as pessoas.

Levar em conta a agressão feminina e a vitimização masculina não prejudica a luta pelos direitos das mulheres nem questiona a igualdade de gênero. Pelo contrário, a consolida em função do entrelaçamento íntimo da violência masculina e feminina na esfera doméstica. Também permite conhecer com maior precisão o seu impacto infeliz na saúde física e emocional das crianças.

É urgente favorecer uma política baseada mais em evidências e menos em ideologia. Com uma abordagem mais compassiva, colaborativa e eficaz que protege o nosso bem-estar, saúde e segurança. Nós devemos isso a nossas famílias, amigos e cidadãos.

(1). Encuesta a escala de la UE sobre la violencia contra las mujeres de la Agencia de los Derechos Fundamentales.

(2) Os dados espanhois e de vários países são consistentes com a afirmação de Tereza, mas em alguns países há semelhança entre os sexos nas taxas de homicídio por parceiro íntimo e no Brasil as estimativas apontam mais homens do que mulheres mortos por parceiros íntimo. Fontes: Espanha / EUA / Mundo ( estimativas para o Brasil, a partir da leitura dos dados específicos deste último)

 

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