Assassinatos por parceiros íntimos: o que os números de um famoso estudo da OMS mostram (quando lidos com atenção)?

O número total de (vítimas de) assassinato por parceiros íntimos foi quase sempre maior entre mulheres que entre homens. Panamá e Brasil foram as únicas exceções (…)

Durante anos a fraude feminista mais replicada pelo ativismo foi a de que mulheres recebem menos que os homens por motivo de preconceito no mercado de trabalho. Christina Hoff Sommers já disse que esta é a maior lenda do feminismo, e que é uma lenda que nunca vai morrer.

Foi precisamente ao perceber que – como Christina explica acima – isto é uma fraude: que mulheres não recebem salários menores para exercer as mesmas funções com a mesma produtividade nas mesmas empresas, mas que apenas recebem salários médios menores quando desconsideradas outras tantas variáveis (como diferença de carga horária, área de atuação, anos de experiência, produtividade…) é que comecei a dar meus primeiros passos para bem longe de todo o pensamento “progressista” hegemônico, e a compreender o tanto de manipulação que há em torno das principais alegações dos ativismos de “defesa” das “minorias”.

Mas o reinado da ladainha sobre mulheres ganharem menos que os homens por conta do preconceito parece acabou.

Não: o mundo ainda não acabou e feministas continuam mentindo deliberadamente sobre mulheres receberem menos que os homens para fazer o mesmo trabalho.

Acontece que a pole position está sendo substituída (e no Brasil esta substituição já foi completamente completa) pela ladainha do “feminicídio”: a ideia hegemônica na mídia e no ativismo feminista de que os assassinatos de mulheres por seus parceiros íntimos sejam epidêmicos e motivados por ódio específico contra mulheres, às vezes expandida para a ideia de que qualquer assassinato ou ato de violência contra mulheres (cometido ou não por parceiro íntimo) é crime de ódio específico contra mulheres.

Uma das principais bases para este discurso, replicada insistentemente no Brasil e no mundo por órgãos de imprensa, ONGs e instituições públicas é um estudo patrocinado pela Organização Mundial da Saúde e publicado em 2013 pela prestigiosa revista de medicina The Lancet (o link para o estudo é disponibilizado no fim deste texto).

Foi este estudo que as epidemiologistas Leila Posenato e Gabriela Drummond Marques da Silva, ambas funcionárias do IPEA, utilizaram para embasar o documento “MORTALIDADE DE MULHERES POR AGRESSÕES NO BRASIL: PERFIL E ESTIMATIVAS CORRIGIDAS (2011-2013)” publicado por aquele órgão e amplamente replicado no noticiário sobre “feminicídio no Brasil” (ver links no final do texto).

Foi também este estudo que a mesma Leila Posenato e a mesma Gabriella (agora acompanhadas de outras colegas) usaram como referência para escrever, em outro documento – também em nome do IPEA – , que “a proporção de mulheres assassinadas por parceiro é 6,6 vezes maior do que a proporção de homens assassinados por parceira”.

O estudo ao qual a Leila Posonato fez referência nos documentos mencionados nos parágrafos acima foi liderado pela, também epidemiologista e especialista em violência doméstica, Heidi Stöckl.

Já falei de um estudo da professora Heidi em outro post, que aponta as mulheres como sendo a ampla maioria entre os responsáveis por assassinatos de crianças e adolescentes: este estudo não é tão replicado por feministas.

Em seu paper de 2013, Heidi e seus colegas procederam uma revisão sistemática, isto é: reuniram algumas dezenas de estudos sobre o tema “homicídio cometido pelo parceiro íntimo ao redor do mundo”, traçaram algumas considerações gerais sobre os métodos aplicados em cada um, organizaram os resultados das diversas pesquisas em uma planilha e fizeram algumas inferências a partir deste cenário de resultados agrupados.

Entre os estudos que Heidi reuniu havia alguns documentos oficiais, baseados em dados sólidos dos sistemas de justiça de alguns países e que cobriam toda a extensão nacional. Havia outros (caso do Brasil) que eram baseados em amostragens reduzidas, locais (cidades província, estado, região nacional…) e/ou não oficiais. Havia estudos que apresentavam dados para tanto mortes em que a vítima era do sexo masculino quanto para casos em que vítima era do sexo feminino. Outros tantos (cerca da metade dos dados analisados) só apresentavam resultados de mortes femininas, ignorando os casos em que homens tenham sido vítimas.

Não cheguei a ler todas as centenas de artigos que deram suporte à pesquisa de Heidi, mas entre os que li (deixarei os links no final do post) os dados analisados não incluiam apenas os casos concluídos, em que havia ocorrido condenação. Misturou-se casos onde o parceiro íntimo havia sido considerado culpado com casos em que ele era meramente suspeito.

OS RESULTADOS

Os pesquisadores realizaram uma busca por bancos de dados de pesquisas acadêmicas e por bancos de dados governamentais e selecionaram 118 artigos acadêmicos e 53 fontes oficiais (governamentais) que proviam estimativas de homicídio cometido por parceiro íntimo para pelo menos um dos dois sexos. Os dados cobriam 66 países diferentes.

Pelo menos 13,5% dos homicídios analisados foram suposta ou confirmadamente cometidos pelo parceiro íntimo. Entre as mulheres de todo o mundo, 38,6% dos casos de assassinato analisados foram cometidos ou eram suspeitos de terem sido cometidos por algum parceiro íntimo (neste estudo não se especifica o grau da relação nem o sexo do parceiro, podendo ser considerados como ‘parceiro íntimo’ namorados, cônjugues, amantes em relações hetero ou homossexuais) e 6,3% dos homens assassinados foram mortos por algum parceiro (ou parceira) íntimo.

Apresentados assim a aparência é de que a taxa de assassinatos por parceiro íntimo é de seis vezes maior para mulheres do que para homens, justificando – portanto – a fala das doutoras do IPEA e o senso comum feminista:

Mulheres seriam as grandes vítimas de violência doméstica, homens mortos pelas companheiras seriam exceção, mulheres mortas pelos companheiros seriam a regra. Por isso precisaríamos de leis discriminatórias tratando como crimes mais graves os assassinatos de mulheres pelos seus parceiros.

Eu jamais concordaria com isso: assassinatos deveriam ser julgados individualmente e não coletivamente, se 100 homens e apenas 1 mulher matam seus respectivos parceiros, por ciúmes, trancando (em cada caso) a vítima em uma residência e ateando fogo na casa, o meu senso de justiça pede que haja 101 condenações idênticas.

Mas…

ESPERE! VAMOS OLHAR OS DADOS POR UM ÂNGULO MAIS HONESTO

Vou te propor um problema digno das primeiras séries do ensino fundamental. Moleza! Você com certeza vai acertar!

Eu comi 10 doces, metade eram brigadeiros e metade eram cajuzinhos. Você comeu 3 doces e todos eram cajuzinhos. Nosso amigo Juquinha comeu 6 doces, metade eram cajuzinhos.

Qual de nós três comeu mais cajuzinhos? 

Tempo para você pensar.

Mais um tempo para você refazer os cálculos.

Tenho certeza absoluta de que a sua resposta foi de que eu comi mais cajuzinhos: 5.

Tenho certeza também de que você respondeu que você e nosso amigo Juquinha comeram 3 cajuzinhos cada.

Você – com a mais absoluta certeza – extraiu os brigadeiros do raciocínio. Com certeza nem passou pela sua cabeça dizer que eu e o Juquinha comemos 50% de cajuzinho enquanto você comeu 100% de cajuzinhos, e que – portanto – você comeu mais cajuzinhos.

Por que será que a OMS optou por apresentar seus dados em termos de 38,6% das mulheres assassinadas morreram nas mãos do marido e 6,3% dos homens assassinados morreram nas mãos das esposas para estabelecer uma comparação focada no número de pessoas de ambos os sexos assassinadas pelo parceiro íntimo? E por que será que a doutora Leila Posenato optou por (com base nestes números percentuais) dizer que mulheres são seis vezes mais propensas a ser assassinada pelo marido que homens pela esposa (aliás: um detalhe, é preciso dizer que não há especificação quanto ao sexo do assassino na pesquisa de Stöckl, o uso das palavras “marido” e “esposa” por Posenato foi uma extrapolação baseada no reconhecimento de que a maioria das relações amorosas são heterossexuais).

Os assassinatos por outros agentes não têm importância quando vamos comparar assassinatos por parceiro íntimo entre os sexos. Eles são o brigadeiro do nosso problema, estão lá só pra figuração: não devem ser considerados no cálculo.

Se vamos comparar quem comeu mais cajuzinho, precisamos extrair das informações passadas o número absoluto de cajuzinhos comidos por cada um: 5, 3 e 3. E não os percentuais em relação aos outros tipos de doces. Se vamos comparar qual dos sexos é mais vitimado por crimes cometidos por parceiro íntimo deveríamos fazer o mesmo procedimento.

Vou apresentar os mesmos resultados do estudo discutido neste post, apenas convertendo as estimativas para números absolutos.

MUNDO

A estimativa apresentada pela Organização Mundial da Saúde é de que 38,6% das mulheres assassinadas e 6,3% dos homens assassinados foram mortos por algum parceiro íntimo (namorado, esposa, amante…). O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime estima que 79% das vítimas de assassinato são homens e 21% são mulheres. O mesmo UNODC estima que 437 mil pessoas foram intencionalmente assassinadas.

Com estes dados em mãos chegamos a uma previsão estimada de 23.475 homens assassinados por algum parceiro íntimo (namorado, namorada, esposo, esposa…) em 2012. Se fizermos o mesmo cálculo para mulheres estimaremos que 35.423 mulheres morreram nas mãos de um parceiro íntimo. É uma diferença clara (e é importante que ela é replicada em países onde os dados não são meramente estimados, como veremos a seguir). Mas não é uma diferença gritante como 6 vezes mais.

Por que insistir na retórica do 6 vezes mais, quando os dados apontam menos de 1,5 vezes mais? Será que se 6 vezes mais mulheres forem vítimas de crimes passionais, os ativistas feministas conseguem extrair mais verbas públicas para financiar suas ONGs e mais cargos comissionados e mais leis discriminatórias baseadas em sexo? Seráááááááááá?

AUSTRÁLIA

Para esta comparação usaremos os dados oficiais do governo australiano sobre os casos de assassinato entre os anos de 2004 a 2006, dados estes que foram usados como base para o estudo que estamos discutindo aqui.

Segundo os dados apresentados pelo Instituto Australiano de Criminologia à doutora Stockl e aos seus colegas,  houve 4220 homicídios na grande ilha da Oceania nestes 3 anos. Diferente do Brasil, na Austrália as taxas de assassinato global não difere tanto entre mulheres e homens. Dos 4220 casos, 1525 eram mulheres e 2688 eram homens. Dos casos que as investigações apontaram suspeita de autoria, um parceiro íntimo era suspeito (condenado ou não)  21,97% dos casos de vítimas do sexo feminino e 7,07% das vítimas masculinas.

Isso representaria 335 mulheres e 190 homens assassinados pelo namorado ou namorada, marido ou esposa. Ainda uma diferença “favorável” às mulheres, mas longe de ser 6 vezes maior. Será que uma diferença próxima a 1,5x, movimentos feministas teriam tanta força em seus projetos de lei que tratam como diferentes crimes idênticos com base apenas no sexo da vítima?

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Os dados dos EUA foram um dos mais díspares no que diz respeito ao número estimados de mortes de homens e mulheres pelo parceiro íntimo: ainda assim bem longe da razão de seis vezes mais que a réplica do discurso feminista leva a crer.

De 420533 assassinatos entre 1989 e 2010, em 92582 a vítima era mulher e 327035 a vítima era homem. Destes, em 28552 dos casos com vítima feminina e em 10236 dos casos com vítima masculina o suspeito do crime era um parceiro íntimo.

JAPÃO

O Japão teve analisados 17504 assassinatos registrados entre os anos de 1987 e 2002. Destes, 6166 das vítimas eram mulheres e 11338 eram homens. 1400 dos homens e 1049 homens tinha um parceiro íntimo como o principal suspeito do assassinato. Novamente uma estimativa que cai longe, longe, muito longe daquela ladainha feminista sobre 6 vezes mais mulheres vítimas de homicídio passional que vemos entre jornalistas, ativistas e políticos.

BRASIL

O Brasil NÃO POSSUI nenhum banco de dados oficial que te permita comparar os índices de assassinato cometido por parceiro íntimo de ambos os sexos.

A estimativa mais replicada pela grande mídia e inclusive por órgãos governamentais (sobretudo o IPEA) é precisamente este estudo da OMS cujos dados estamos apresentando aqui. Calhou de a estimativa tupiniquim, extraída de uma amostra de 404 casos coletados por um pesquisador identificado como A Portela e enviadas por meio de “personal comunnication” (isto é: os dados não haviam sido publicados em outro lugar e foram transmitidos por comunicação pessoal entre os pesquisadores) e a estimativa global serem muito semelhantes.

Dos 404 casos brasileiros analisados, 37 tinham mulheres e 367 tinham homens como vítima. Considerando apenas os casos de morte cometida por parceiro íntimo, foram 15 mortes de mulheres e 24 assassinatos de homens: 40,54% e 6,54%, respectivamente.

É precisamente com base neste estudo que o ativismo feminista (não apenas na internet) costuma replicar mensagens como esta da famosa página Não me Kahlo.

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Ativistas costumam replicar os dados da pesquisa conduzida pela Dra Heidi Stöckl como se fossem do IPEA, devido ao fato da instituição brasileira frequentemente replicar os números daquele estudo em seus documentos

Não podemos saber se de fato cerca de 40% das mulheres assassinadas são mortas pelo marido. Não podemos saber também se 6% aproximados dos homens mortos foram assassinados pelas esposas. Eu fiz questão de repetir diversas vezes neste texto que os percentuais e números absolutos são estimativas e que estão sujeitas a erro para mais ou para menos.

Mas se fossemos honestos na divulgação destes dados que têm servido como o principal suporte ao discurso em torno do “feminicídio no Brasil” o que deveríamos estar anunciando é que a OMS estima que – no Brasil – cerca de 1700 mulheres e 3800 homens morrem todos os anos assassinados por seus maridos e esposas, namorados e namoradas; e que no mundo morrem cerca de 23000 homens e 35000 mulheres nas mesmas condições. 

FONTES

Global e Brasil:
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(13)61030-2/fulltext

Japão:
https://academic.oup.com/bjc/article-abstract/41/2/219/362218?redirectedFrom=fulltext

Austrália:
https://aic.gov.au/publications/mr/mr01
https://aic.gov.au/publications/rpp/rpp77
https://aic.gov.au/publications/rpp/rpp72

EUA
https://www.bjs.gov/content/pub/pdf/htius.pdf
https://ucr.fbi.gov/crime-in-the-u.s/2011/crime-in-the-u.s.-2011/offenses-known-to-law-enforcement/expanded/expanded-homicide-data

IPEA
http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/6260/1/td_2179.pdf
http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_alphacontent&ordering=3&limitstart=11160&limit=20&fbclid=IwAR0k4B9YmWDnJxm2nDnBN4L6iK7Q8rRp3hNA5DNeqt7wgjLGYsid8RYKSFU

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