O Brasil é um país extremamente violento, mas não é um dos 10 mais violentos do mundo, nem para os homens, e – para a tristeza dos ativistas feministas, que lucram muito com a venda de “números alarmantes” – muito menos para as mulheres.

Esta #FakeNews vem sendo amplamente disseminada por diversos e “respeitáveis” órgãos de imprensa. A “jornalista” Carolina Cunha escreveu para o UOL, por exemplo, uma matéria intitulada “Feminicídio – Brasil é o 5º país em morte violentas de mulheres no mundo.”

Um trecho que merece destaque em todo o texto recheado de clichês é este:

“O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de Feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas pra os Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres. Em comparação com países desenvolvidos, aqui se mata 48 vezes mais mulheres que o Reino Unido, 24 vezes mais que a Dinamarca e 16 vezes mais que o Japão ou Escócia.”

Para construir sua peça de #FakeNews, Carolina misturou três conceitos distintos num pacote só: 1: o conceito legal de feminicídio, que existe em alguns poucos países e que não é uniforme entre eles; 2: o conceito de números absolutos de assassinatos femininos; 3: e o conceito de taxa relativa de homicídios femininos.

Dos três conceitos misturados pela Carolina apenas o terceiro é útil  em comparações honestas entre países, e Carolina sabe disso, com certeza. A moça é muito bem formada por duas das mais prestigiosas instituições privadas de ensino superior do país: a PUC-SP e a ESPM: certeza de que o que faltou para que Carolina transmitisse uma informação honesta não foi conhecimento e competência.

Vamos explicar o que Carolina confundiu. Em primeiro lugar eu gostaria de humildemente destacar uma qualidade deste pequeno e amador blog em comparação à grande imprensa: aqui se apresenta claramente a fonte original de qualquer afirmação central ao texto.

Se o texto é sobre uma fraude do Grupo Gay da Bahia, eu não apenas informo que o Grupo Gay da Bahia disse isso ou aquilo. Tenho o trabalho de mencionar o ano do documento e linkar a página onde ele se encontra (recentemente o GGB passou a apagar os dados, e em função disso eu passei a ter o cuidado de salvar os documentos na nuvem, para que a fonte de cada alegação feita aqui se mantenha preservada).

Carolina diz que a ACNUDH coloca o Brasil no quinto lugar do ranking de feminicídios. Mas qual é o nome do documento, Carolina? Em que link eu encontro? Como eu checo sua informação? Qual o nome da pessoa que você entrevistou?

Vamos lá. Com algum esforço, achei no Google um documento: não da ACNUDH (revirei as páginas da ACNUDH em português e em Inglês e não achei nenhum documento produzido por eles com esta listagem), mas de outra agência da ONU, a ONU Mulheres ( e ele está linkado no final do texto, como sempre faço aqui).

O documento da ONU Mulheres apresenta exatamente a mesma ordem que a Carolina apresentou no texto: El Salvador, Colômbia, Guatemala, Rússia e Brasil e afirma que os dados foram obtidos da OMS (que também é uma das dezenas de subdivisões da ONU).

Provavelmente os dados que ela obteve foram réplicas da mesma fonte.

QUAL O PROBLEMA COM A LISTA E – PORTANTO – COM A INFORMAÇÃO?

O problema é que ela está incompleta: a lista publicada pela ONU Mulheres, e que coincide com a que a Carolina teria obtido do Alto Comissariado das Nações Unidas pra os Direitos Humanos só tem 83 países. O planeta tem 193 países reconhecidos pela ONU e mais alguns não membros das Nações Unidas.

A lista publicada pela ONU Mulheres e replicada pelo UOL (ambos já velhos conhecidos deste blog, como você pode ver aqui e aqui) omite precisamente a maior parte dos países mais violentos do mundo.

Outra entidade da ONU, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), apresenta uma listagem com os números totais de vítimas de assassinato e as taxas percentuais quanto ao sexo das vítimas para todos os países membros e mais alguns não membros das Nações Unidas (links no final do post).

Uma análise destes dados mostra o Brasil como:

| Primeiro país do mundo em número absoluto de assassinatos
| Primeiro país do mundo em número absoluto de vítimas masculinas
| Terceiro país do mundo em número absoluto de vítimas femininas
| Décimo-oitavo país em frequência relativa de assassinatos *
| Décimo-sétimo país em frequência relativa de vítimas masculinas **
| Quadragésimo-primeiro país em frequência relativa de vítimas femininas **

A notícia reverberada aos quatro ventos pela mídia progressista e por ativistas feministas sobre o Brasil ser o quinto país com maior taxa de assassinatos de mulheres se resume nisto: uma lista incompleta de países é apresentada, retirando-se boa parte dos países com maiores índices de violência da comparação.

Quando se considera a lista total dos dados mais atualizados de todos os países do planeta (algo que é feito precisamente pela agência da ONU especializada em questões criminais) o Brasil passa de 5º lugar para 41º lugar, ficando atrás de uma cacetada de países que a lista que colocava o Brasil em 5º ignorou.

Vale destacar que o país aparece na lista da UNODC como 41º mais perigoso para mulheres, 17º mais perigoso para homens e 18º mais perigoso para seres humanos.

Vale destacar também que estimativas de outra agência da ONU, a Organização Mundial da Saúde, indicam que – no Brasil – mais homens do que mulheres são vítimas de crimes cometidos por marido ou esposa, namorado ou namorada, companheiro ou companheira.

* Taxa de homicídio da população em geral
** Índice inferido pela multiplicação dos percentuais de vítimas de cada sexo pela taxa de homicídios da população geral de cada país

FONTES

A #FakeNews do UOL:

Os dados da ONU Mulheres (provavelmente os mesmos que a Carolina teve acesso):

Os dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime:

Deseja colaborar com a manutenção de Quem a homotransfobia não matou hoje? ? Você pode doar qualquer valor através deste link: https://pag.ae/bjDfRlM

5 pensamentos

  1. Só vejo você fazer esse tipo de trabalho na imprensa. Parabéns. Estamos envolvidos numa manipulação por razões que não entendo bem e a abordagem.honesta das estatísticas é a única forma de dar legitimidade a essas causas identitárias, senão vira farsa. Continue seu trabalho.

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