Como expliquei na primeira parte desta série, meu interesse pelo Lattes da intelectual Debora Diniz nasceu do convite, direcionado pela intelectual ao escritor Olavo de Carvalho, para a realização de um debate sobre a questão do aborto, escrito em tom auto-referente e com grande destaque para a supostamente elogiável produção acadêmica da moça.

Olavo não aceitou a chamada, mas eu tive vontade de dar uma olhada no currículo apresentado no sistema do CNpQ, como ela mesma convida a fazer no texto publicado pela revista Época. De fato fiquei surpreso com tudo o que encontrei lá, até o momento.

Na primeira parte da série mostrei que um dos seus principais interesses é a investigação da homofobia e do que ela chama de heteronormatividade.

Outro dos principais objetos de estudo da antropóloga é o que ela chama de violência contra a mulher : esta expressão aparece 32 vezes em seu Lattes, referenciando palestras e artigos acadêmicos ou não sobre o assunto.

No texto de Debora à Época, a moça se gaba do alto fator de impacto das revistas em que publicaria e do alto número de citações que receberia: Como usei outro adjetivo, preciso justificá-lo pelo rigor acadêmico – dê uma olhada no número de citações aos meus artigos ou no fator de impacto dos periódicos em que publico, diz a estudiosa.

Na verdade a grande maior parte das contribuições de Debora estão publicadas em revistas não indexadas ou em revistas Q2 a Q4 (de médio a baixo fator de impacto) no SJR e também em textos de blogs independentes, artigos de opinião na mídia mainstream e em vídeos para seu vlog. A autora não costuma ter mais que 5 citações, em geral nem isso, o que não lhe confere um alto H-Score, como ela insinua no convite feito a Olavo.

Sem título

No campo específico da violência “contra as mulheres” a pesquisa de Debora se restringe quase exclusivamente a textos de opinião em blogs, vídeos em vlogs e artigos de opinião em veículos da grande imprensa. Identifiquei apenas um artigo dela com este escopo e publicado em revista acadêmica, mas ao tentar baixá-lo sou informado que o acesso é dado apenas a membros do poder judiciário. Há também contribuições para livros coletivos, que não adquiri.

Os textos que Debora tem divulgado nesta área e aos que tive acesso são carentes de dados, mas abundantes em palavras de ordem e expressões emotivas: sinto até arrepios em responder a esta pergunta , o tema que me foi dado é muito desafiante: ele tem uma palavra daquelas que causam tremores , o macho matar mulheres é da ordem da socialização do gênero, um modelo de organização, disciplina e pedagogia dos corpos sexados . Mais importante do que isso: as palavras de ordem são contrárias à literatura mais consistente no campo das violências entre parceiros íntimos.

Debora, como a grande maior parte dos feministas, entende a violência sofrida por mulheres, sobretudo aquela sofrida no âmbito das relações afetivas e familiares, como um tipo de violência à parte dos atos de violência humanos e que afeta especialmente as fêmeas de nossa espécie e que é praticada especialmente pelos machos.

Um dos que mais me chamou a atenção, dentre estes, foi o artigo publicado pelo HuffPost intitulado Ana Hickmann e a ‘loucura dos machos’ . Neste texto – considerado pela antropóloga como uma contribuição ao pensamento digna de ser mencionada em seu currículo acadêmico – Debora aproveita o atentado sofrido pela modelo e apresentadora por um stalker para traçar uma análise geral do fenômeno da violência afetiva: aquela violência motivada por ciúmes, reação à infidelidade conjugal, desejo amoroso não correspondido ou não aceitação de um término de relacionamento.

A intelectual entende a violência afetiva como “o marco patriarcal do gênero da sociedade brasileira, pelo qual homens desiludidos no afeto entendem-se autorizados a violentar mulheres”, o que ela vai chamar de a loucura dos machos.

Em outro texto, intitulado Só para mulheres e publicado no Estadão, a intelectual defende a existência da lei sexista sobre violência doméstica dizendo que: Desconheço histórias de homens vítimas de violência que requereram medidas protetivas de casa-abrigo, transferência do trabalho, inclusão na assistência social, guarda dos filhos, profilaxia de emergência contra DSTs ou aborto legal. Essas são particularidades do corpo e da existência das mulheres previstas na lei.

NADA PODERIA RESTAR MAIS EM DESACORDO COM A LITERATURA MAIS CIENTIFICAMENTE CONSISTENTE NA ÁREA DO QUE O PENSAMENTO DE DEBORA

Como já apresentado aqui neste blog, um estudo de 2013 patrocinado pela Organização Mundial da Saúde e publicado na revista de medicina The Lancet revisou centenas de documentos oficiais ou não que apresentavam estatísticas de assassinatos cometidos por parceiro íntimo. Os dados desta revisão apontam que de cada 5 assassinatos cometidos por marido ou esposa, companheiro ou companheira, namorado ou namora, amantes de ambos os sexos, em cerca de 3 casos a vítima é uma mulher e em cerca de 2 é um homem.

Isto no mundo, no Brasil a estimativa apresentada no mesmo estudo é de que mais homens que mulheres sejam vítimas especificamente de homicídio cometido por parceiro íntimo.

Duas pesquisas independentes e robustas em número de voluntários encaminhadas pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (o principal órgão epidemiológico de lá) apontam resultados que confrontam a noção de Debora Diniz de que violência entre parceiros íntimos ou entre indivíduos de sexo oposto é uma via de mão única em que homens agridem e mulheres são agredidas.

Em uma delas o CDC encontrou que as mulheres são mais susceptíveis a serem vítimas de agressão conjugal quando se relacionam amorosamente com outras mulheres do que com homens. Em outro estudo, pesquisadores também do CDC  entrevistaram 11370 homens e mulheres e encontraram prevalência de 70% de mulheres agressoras e homens vítimas nas relações em que havia violência unidirecional.

Resultado idêntico foi encontrado por pesquisadores da UNIFESP em dois estudos publicados nos últimos anos, a partir de entrevistas com voluntários brasileiros. Por volta de 2006 pesquisadores do departamento de psiquiatria da daquela instituição conduziram uma investigação baseada na aplicação de questionários padronizados 1445 homens e mulheres e o resultado foi de 10,7% das mulheres sofrendo violência física por parte de seu companheiro do sexo masculino contra 14,6% dos homens. O mesmo grupo de pesquisa replicou o estudo alguns anos depois, e desta vez o resultado foi de 12% de agressões cometidas por mulheres e 9,2% de cometidas por homens.

A Fiocruz encaminhou uma pesquisa destinada apenas a namorados adolescentes, de ambos os sexos. Para isso entrevistou 3205 meninos e meninas alunos de 104 escolas brasileiras, e novamente meninas aparecem como maiores perpetradoras e meninos como maiores vítimas.

Os resultados encontrados pela Fiocruz não são uma aberração, pelo contrário, eles estão em acordo com diversos levantamentos do mesmo tipo realizados em âmbito internacional.

O Instituto Nacional de Justiça dos Estados Unidos aponta algumas referências em seu site. Em um dos estudos, conduzido em 2013, também pelo CDC, 13% das meninas e 7,4% dos meninos haviam sofrido alguma violência física de uma namorado(a).

Outro dos estudos citados na mesma página, conduzido por Janine M. Zweig, Meredith Dank, Pamela Lachman, Jennifer Yahner em um universo de 5647 adolescentes de Nova York, Nova Jersey e Pennsylvania apontou prevalência de vitimização masculina (isto é: as meninas responderam que apanhavam menos que os meninos) para 11 dos 14 tipos de violência física listados (consideradas apenas as violências praticadas por namorados) e de perpetração feminina (isto é: as meninas responderam que batiam mais) em 12 tipos de violência.

Um outro estudo, conduzido pelo próprio Instituto Nacional de Justiça, encontrou prevalência quase idêntica entre meninos e meninas (36% e 35%, respectivamente) de vitimização em relacionamentos amorosos, num questionário aplicado entre 1162 alunos de escolas do meio-oeste estadunidense.

Se interessar à Debora, todos os artigos mencionados e linkados acima foram publicados por pesquisadores que possuem currículos acadêmicos formais e boa parte deles foi publicada em revistas de altíssimo fator de impacto e com números realmente altos de citações, da ordem de centenas.

ESTOU AFIRMANDO QUE HOMENS SÃO DE FATO AS MAIORES VÍTIMAS?

Não necessariamente, em todos os estudos citados acima havia similaridade entre os resultados femininos e masculinos, diferenças percentuais baixas entre perpetração e vitimização de ambos os lados.

Quando divididos os tipos de violência, homens podem aparecer como maiores perpetradores em alguns casos e mulheres em outros, dentro da mesma pesquisa. Foi o que aconteceu em uma pesquisa virtual conduzida por ONU Mulheres e blog Papo de Homem e cuja metodologia e resultados comentei aqui.

O que a literatura realmente revela é que tanto para os índices de homicídio cometido por parceiro íntimo quanto para os índices de violência doméstica há similaridade entre os resultados, com eventual prevalência masculina ou feminina entre as vítimas, mas sempre com pequena variação percentual, ao contrário da visão não científica que Debora insiste em disseminar: a de que a violência entre os sexos é unidirecional, com homens agressores e mulheres vítimas.

PESQUISADORAS QUE NÃO SÃO DO MESMO NÍVEL DE DEBORA

Em sua carta a Olavo, Debora chama a atenção para sua autoridade, seu vasto currículo como pesquisadora acadêmica (mesmo que quase totalmente preenchido de publicações não acadêmicas ou publicações acadêmicas de baixo impacto).

Debora também tem como referencial teórico o conceito de lugar de fala, pelo qual negros deveriam ser especialmente ouvidos ao falar sobre racismo, mulheres ao falar sobre sexismo et cetera.

Não concordo com o conceito de lugar de fala, mas no campo da violência doméstica, talvez seja interessante apontar para outras pesquisadoras, com o mesmo lugar de fala que o de Debora, mas que não são do mesmo nível que ela:

Erin Pizzey – uma ex-ativista feminista, hoje ativista anti-feminista – que foi a fundadora do primeiro abrigo destinado a mulheres vítimas de violência doméstica no mundo: o Chiswick Women’s Aid, em Londres, provavelmente a mais longeva pesquisadora neste campo, estando profundamente implicada na pesquisa sobre padrões de violência doméstica e no ativismo em torno do tema desde os anos 60. Erin defende que a propaganda em torno do tema pelo ativismo feminista visa o lucro (por meio de verbas e cargos públicos) e não o combate à violência em si.

A psicóloga Maria de La Paz Toldos Romero, cuja pesquisa de doutorado versou sobre como meninos e meninas valorizam de modo diferente exemplos de violência idêntica a depender do sexo da vítima ou do agressor, aponta para um tipo de pesquisa que Debora não parece estar acostumada a fazer: Eu sempre estive acostumada a ler artigos científicos e revistas científicas, como elas não têm influência política ou moral, os pesquisadores publicam dados de violência entre casais onde a violência é mostrada como bidirecional. (…) O que acontece é que a população não tem está acostumada a ouvir isso, porque a única coisa que é publicada na mídia é o número de mulheres que morreram no ano, o número de mulheres maltratadas ou mortas por seus parceiros ou ex-parceiros, não há notícias sobre homens abusados, mas é claro que há muitos homens espancados, mas não há notícias porque os homens não denunciam.

A advogada brasileira Sara Próton, também autora de um livro sobre o tema, defende, ao falar sobre o tratamento judicial dado aos casos de homens vítimas de violência entre parceiros íntimos, que: Historicamente atribuiu-se a mulher o caráter de mansa, serena, inofensiva e incapaz de praticar crimes, tabu esse que percorre a sociedade até o presente. A ausência de cuidado e observância nas infrações praticadas por mulheres e discussões a respeito, amparam condutas criminosas.

DEBORA DISCURSA SOBRE UMA PESQUISA

Debora Diniz foi convidada para discursar no evento de apresentação de uma pesquisa patrocinada pelo Instituto Avon e pela ONU Mulheres sobre violência contra mulheres no ensino superior. A palestra é uma das entradas no extenso currículo Lattes da intelectual.

Já comentei esta pesquisa em algumas postagens. A metodologia – baseada na aplicação de questionários a alunos e alunas de Ensino Superior – consistiu do somatório de dois vieses vexatórios:

1º viés: alunos eram questionados apenas sobre se já haviam cometido algumas das ações classificadas pelos estudiosos como “violência contra mulheres” e alunas eram questionadas apenas se haviam sofrido as mesmas ações. Sobre este tipo de viés, muito frequente em pesquisas feministas sobre o tema, a colega de profissão de Debora (também antropóloga) e eurodeputada espanhola Teresa Giménez Barbat comentou este tipo de viés, afirmando que esta é uma das estratégias mais típicas do feminismo ativista político no sentido de manipular a opinião pública sobre o tema.

2º viés: as ações listadas pelos pesquisadores como sendo atos de “violência contra mulheres” eram estendidas a níveis caricatos. Ações como “cantar música ofensiva nas partidas desportivas universitárias” ( como, por exemplo, o clássico grito de guerra da minha ex-universidade: “Buceta! Xoxota! UFRJ!” ), tocar música “ofensiva às mulheres” nas festas universitárias (tipo MC Carol e Matanza) ou – até mesmo – o ato de votar em uma menina para o posto de “Caloura mais bonita do diurno” eram classificados como atos de “violência contra a mulher”.

Obviamente – devido a aplicação de tais vieses – o resultado deu “alarmantes” 67% de mulheres que já foram vítimas de “violência contra mulheres nas universidades” e é sobre estes números “alarmantes” que Debora fala, com uma emoção canastrona na voz, no vídeo abaixo:

PRÓXIMAS PARTES DA SÉRIE

Nas partes 1 e 2 falei da pesquisa da intelectual sobre temas que são caros a Quem a homotransfobia não matou hoje? .

Assim que vi as pesquisas sobre homofobia ou violência “de gênero” de Debora fazendo referência aos dados do Grupo Gay da Bahia como se fossem base confiável de informação, tratando caso de morte que nem se sabe se foi assassinato como se fosse assassinato por motivação homofóbica ou replicando a narrativa de que homens são o default entre os agressores e mulheres o default entre as vítimas no que diz respeito à violência por parceiros íntimos, tive certeza de que estava diante de uma pseudo-cientista no que diz respeito a estes campos.

Isto não significa que ela não possa ter produção digna e honesta nas suas outras áreas de interesse, como sistema carcerário feminino, aborto ou socio-epidemiologia do vírus Zika. Veremos sobre isto em breve, ainda não tive oportunidade de folhear a produção da intelectual nestas áreas.

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