DANIEL REYNALDO
Rio de Janeiro, 01 de junho de 2019

 

Que irônico, cruel e triste: a morte covarde de um menino em Brasília desmonta todas as narrativas sobre crimes de ódio e sobre desprivilégio estatal quanto ao tratamento dado a violências de sexo e sexualidade de uma vez só.

Num mundo em que todos os assassinatos de mulheres e de homossexuais são tratados pelos quatro poderes (incluindo aí a grande mídia) como se fossem casos de crimes motivados por ódio ao sexo ou a sexualidade da vítima, um menino de nove anos foi assassinado (decapitado e esquartejado, meses depois de ter seu pênis cortado* ainda em vida) por ódio explícito e confesso aos homens.

Em um mundo onde todas as mulheres mortas após descoberta de traição ou por ciúmes ou por não aceitação de separação são tratadas como se fossem vítimas de crime de ódio contra o sexo feminino (não são, assim como não são os homens que morrem pelos mesmos motivos ** ) Rhuan Maycon foi de fato assassinado apenas pelo crime de ter nascido menino: a mãe, lésbica masculinizada, confessou que a motivação do homicídio foi o fato de que a imagem masculina em formação da criança fazia lembrar o avô do mesmo.

Em um mundo em que a narrativa é a de que violências contra mulheres e lésbicas são ignoradas pelo poder público, Rhuan foi sequestrado, passou anos nas mãos das sequestradoras, teve o pênis cortado* pelas sequestradoras…

O poder público (Conselho Tutelar, pelo menos… provavelmente também Judiciário e Polícia) de tudo tomou ciência enquanto poderia ter salvo a vida do pequeno homem, mas não o salvou.

Não o salvou porque apesar de estar nas mãos de uma sequestradora que o mantinha sob inacreditáveis e conhecidas torturas e que não dava a ele sequer o direito de frequentar a escola… o pequeno homem estava nas mãos da mãe. Ahhh, a mãe ***!

*Não ficou claro se o órgão sexual masculino do menino chegou a ser amputado, o que é pouquíssimo relevante: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2019/06/01/interna_cidadesdf,759372/crianca-de-9-anos-e-esquartejada-em-samambaia.shtml

** Estimativa da OMS indica que – no Brasil – mais homens que mulheres sejam assassinados por parceiro íntimo: https://naomatouhoje.blog/2019/03/02/feminicidio-masculinicidio-parceiros-intimos/

*** Uma revisão sistemática conduzida pela epidemiologista Heidi Stöckl e publicada em 2017 indicou que a maioria dos assassinatos de crianças – no Brasil e no Mundo – são cometidos por mães. E que a maioria das vítimas são crianças do sexo masculino: https://naomatouhoje.blog/2019/01/20/infanticidio/

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