Três pesquisadoras da Universidade Federal do Rio de Janeiro moveram uma série de processos contra mim. No mais movimentado deles, na área cível, elas obtiveram uma vitória inicial (concedida pela juíza Marcia Maciel Quaresma) e uma derrota acachapante – por 3 a 0 – em decisão de turma recursal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Agora as responsáveis pela pesquisa fraudulenta Dossiê Lesbocídio recorrem ao STF na tentativa de impedir minhas críticas à metodologia desonesta aplicada por elas no referido estudo, e esta história você vai conhecer aqui, detalhadamente, em 6 capítulos.


É natural que uma pesquisa conduzida por uma universidade com o prestígio da Universidade Federal do Rio de Janeiro tenha facilidade em ser divulgada por meios de comunicação de grande porte como O Globo, G1, Band, Intercept Br.

Também não é de se espantar que as pesquisadoras responsáveis por um estudo conduzido pela UFRJ tenham palanque aberto em assembleias legislativas, conselhos de classe, defensorias públicas estaduais et cetera.

Foi por estes meios – grande imprensa e órgãos estatais de prestígio – que as estudiosas Maria Clara Dias, Suane Felippe e Milena Cristina trataram de fazer propaganda pública da sua fraude sobre mortes motivadas por lesbofobia: o Dossiê Lesbocídio.

No estudo, as pesquisadoras produziram uma listinha de 126 mulheres que – segundo elas – teriam morrido devido a preconceito contra lésbicas. (1)

Ocorre que a lista era formada por casos de assaltante morta trocando tiros com policiais, traficante morta trocando tiros com quadrilha rival, lésbica que cometeu suicídio logo após matar a namorada, lésbicas (diversas) mortas por ciúmes pelas respectivas namoradas, vítimas de bala perdida… ou seja: as mortes listadas pelas 3 pesquisadoras não tinham absolutamente nada a ver com a sexualidade das vítimas.

Eram apenas mulheres lésbicas que haviam sido mortas em circunstâncias que poderiam vitimar qualquer ser humano, inclusive mortes acidentais. (2)

A fraude grotesca não foi óbice para que no dia 07 de março de 2018, mesma data de lançamento oficial da pesquisa, o Intercept Br (veículo jornalístico ligado a Glenn Greenwald) divulgasse uma matéria especial com direito a mini-documentário divulgando a mentira de que 126 MULHERES FORAM MORTAS NO BRASIL ENTRE 2014 E 2017 POR SEREM LÉSBICAS. (3)

À matéria do Intercept Br seguiria uma enxurrada de desinformação: o G1 ajudou a divulgar a fraude em um texto intitulado “Dossiê sobre ‘lesbocídio’ aponta que SP é o estado que mais registra morte de lésbicas” e em que se informava que “As palestrantes (Suane e Milena, que haviam apresentado os resultados da pesquisa no SESC de Sorocaba) afirmam que produziram o dossiê para alertar sobre negligência e preconceito com a condição lésbica, denominada como lesbofobia.” (4)

O M de Mulher, portal feminino da Editora Abril, publicou que “Como mostra o levantamento do ‘Dossiê Sobre Lesbocídio no Brasil’, cresce o número das mortes motivadas pelo ódio às lésbicas.” (5)

Outros órgãos de imprensa que divulgaram os números da fraude? Band, Carta Capital, UOL, Brasil de Fato foram alguns deles.

Em comum? Nenhum destes veículos fez qualquer menção ao fato de que o que as estudiosas estavam chamando de “mortes motivadas por ódio às lésbicas” era – na verdade – uma coleção de mortes acidentais e mortes de criminosas em conflito armado, mortes por ciúmes cometidas por outras lésbicas ou mortes sem motivação conhecida.

Ou seja: ou os profissionais de imprensa eram preguiçosos, ou cúmplices da desonestidade intelectual das próprias pesquisadoras da UFRJ.

AUTARQUIAS, ÓRGÃOS DO JUDICIÁRIO E SISTEMA S

O SESC de Sorocaba – mencionado na matéria do G1 – não foi o único órgão que abriu as portas para que as pesquisadoras fizessem palestras de propaganda da fraude.

 

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Professora da UFRJ, Suane Felippe Soares divulgou os dados fraudulentos de sua pesquisa no SESC Sorocaba. A palestra foi destaque no portal G1.


As estudiosas passaram em turnê por instituições diversas tais como a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, o Conselho Federal de Psicologia de São Paulo, a Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, o SESC 24 de Maio entre outros. (6)

Órgãos financiados com recursos públicos serviam assim para dar credibilidade a uma pesquisa que tratava como se fossem “mortes motivadas por homofobia” a casos de acidente de trânsito, de bala perdida e de lésbica traficante fuzilada dentro de boca de fumo por quadrilha rival.

APÓS O PROCESSO JUDICIAL

O processo judicial aberto pelas estudiosas contra mim mudou um pouco o tom do tratamento dado à pesquisa pela imprensa.

Maria Clara e suas alunas seguiram palestrando em diversos órgãos públicos e do Sistema S, mas na imprensa a pesquisa passou a ser mencionada apenas no contexto do conflito judicial em torno da (falta de) honestidade metodológica do estudo.

Foi assim que o colunista Ancelmo Gois publicou em uma de suas colunas que “A juíza Marcia Maciel Quaresma, do 10º Juizado Especial Cível do Rio, determinou que o Facebook tire do ar a página ‘Quem a homotransfobia não matou hoje?’, criada por Daniel Barbosa Reynaldo para atacar o ‘Dossiê sobre o Lesbocídio no Brasil’, feito por três pesquisadoras da UFRJ.” (7)

 

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Nas palavras de Ancelmo Gois, quem defende publicamente a honestidade metodológica nas pesquisas acadêmicas pode ser definido como “cuspidor de ódio das redes sociais”.

 

Já a repórter Paloma Vasconcelos, da Ponte Jornalismo, publicou que “Pesquisadora de dossiê sobre lesbocídio denuncia perseguições em redes sociais”.

Apesar da Ponte ser um veículo abertamente de esquerda, a matéria foi bastante digna, apresentando com clareza o conflito e mostrando honestamente as versões de ambas as partes. Paloma me entrevistou, e confesso que fiquei receoso quanto a qualquer manipulação da minha fala, mas não houve. (8)

O processo foi também mote para duas matérias publicadas na Gazeta do Povo: um artigo de autoria do Flavio Gordon e uma matéria descritiva intitulada “Os verdadeiros números sobre a morte de LGBTs no Brasil”. Nesta matéria, o jornalista o jornalista Tiago Cordeiro informa que as pesquisadoras foram procuradas pela reportagem para dar explicações sobre seus métodos, mas não quiseram responder aos contatos. Uma pena. (9)

Houve também uma breve menção ao caso em uma reportagem sobre conflitos nas universidades brasileiras, publicada pela Revista Época.

Pouco a pouco, e aparentemente por decisão das próprias pesquisadoras, que interromperam a divulgação da fraude nas redes sociais, a pesquisa foi perdendo os holofotes.

Vez por outra Suane ou Milena ainda palestram em alguns órgãos públicos sobre os dados fraudulentos que produziram.

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A SEGUIR…

… o processo é julgado em segunda instância e três juízes do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro revogam – por unanimidade – a decisão anterior da magistrada Marcia Maciel Quaresma.

Inconformadas: as estudiosas responsáveis pela fraude ingressam com recurso ao STF.

FONTES

https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/fontes-e-pesquisas/wp-content/uploads/sites/3/2018/04/Dossiê-sobre-lesbocídio-no-Brasil.pdf

https://naomatouhoje.blog/2018/11/06/lesbocidio-revisitado-um-dossie-sobre-o-dossie/

https://theintercept.com/2018/03/07/lesbicas-mulheres-mortes/

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2018/09/22/dossie-sobre-lesbocidio-aponta-que-sp-e-o-estado-que-mais-registra-morte-de-lesbicas.ghtml

https://mdemulher.abril.com.br/estilo-de-vida/lesbocidio-no-brasil-as-mulheres-que-morrem-por-serem-lesbicas/

https://naomatouhoje.blog/2019/04/06/sociologa-lota-emerj-para-falar-sobre-lesbocidio/

https://blogs.oglobo.globo.com/ancelmo/post/tj-manda-facebook-tirar-do-ar-pagina-de-ataques-pesquisadoras-sobre-lesbocidio.html

https://ponte.org/pesquisadora-de-dossie-sobre-lesbocidio-denuncia-perseguicoes-em-redes-sociais/

https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/os-verdadeiros-numeros-sobre-a-morte-de-lgbts-no-brasil-95bmcp4302gyjdozzpjmiuhyl/

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