Já é clichê jornalístico o uso da fala de assassinas como fato inconteste nos casos em que homens são mortos por mulheres.

São numerosas as manchetes em que se lê que “Mulher mata marido estrangulado com cinto após ser agredida” ou “Mulher mata marido com facada no peito por não aguentar mais ser xingada por ele” sem que haja qualquer evidência real da agressão para além da palavra da homicida.

Não é que seja impossível que violências entre parceiros amorosos sejam mesmo cometidas em legítima defesa ou por vingança a agressões anteriores em sentido invertido, mas frequentemente as alegações das assassinas – tratadas como fatos concretos pelo noticiário – vêm a ser desmentidas a posteriori, como no recente caso em que o Correio 24 Horas (e diversos outros jornais de todo o país) publicou manchete taxativa dizendo que “Menina mata homem com tijoladas após tentativa de estupro no DF“.

Embora tratada imediatamente como fato estabelecido, por grande parte da mídia nacional, a alegação da assassina adolescente foi descartada pela polícia após testemunhos diversos em contrário, inclusive da irmã da assassina. A menina estava cometendo roubos e acabou matando o homem a tijoladas: um latrocínio, portanto.

Mesmo que casos em que a alegação da mulher se tornam automaticamente fato incontestável para o noticiário sejam corriqueiros, um caso ocorrido anteontem na cidade sul-mato-grossense de Dois Irmãos do Buriti se destaca por alguns aspectos incomuns: o primeiro é que o homem sobreviveu para contar a sua versão.

Um homem de 43 anos e de identidade não informada deu entrada no Hospital Cristo Rei, no dia 26, pelo período da tarde, com cerca de 90% do corpo queimado. Ele estava vivo, e consciente. Disse que a esposa teria ateado fogo em seu corpo enquanto ele dormia, e fugiu em seguida.

A maioria dos sites em que li a notícia não dava como certa a versão do homem: apresentavam verbos no futuro do pretérito ou uso do termo “suspeita” para indicar incerteza: “Mulher é suspeita de jogar gasolina e queimar 90% do corpo do marido em Dois Irmãos do Buriti” foi a manchete de O Pantaneiro; “Mulher é suspeita de atear fogo que queimou 90% do corpo do marido”, divulgou o Campo Grande News.

Já o Midiamax foi mais taxativo: “Esposa põe fogo e queima 90% do corpo do marido no interior de MS : Mulher chamou o socorro e fugiu em seguida” foi a manchete.

O G1, todavia, apresentou uma versão taxativa e invertida: “Bêbado, homem agride esposa, coloca fogo em casa e tem 90% do corpo queimado”; na mesma linha, o Jornal de Brasília disse que “Homem tem 90% do corpo queimado após atear fogo na própria casa”.

No texto do G1, a repórter estagiária Débora Ricalde diz que “a esposa contou para a polícia que não estava mais em casa quando o fogo começou.” Também o Jornal de Brasília contou que “A esposa relatou para a polícia que o homem chegou bêbado em casa e, durante uma discussão, teria batido nela. Ela contou que saiu de casa antes do fogo começar.”.

Quem a homotransfobia não matou hoje? não torce para nenhuma das duas versões: há casos reais de mortes violentas de homens e mulheres pelos mais diversos motivos e nas mais diversas circunstâncias, mas parece que – pelos elementos apresentados nos textos de todas as matérias jornalísticas publicadas sobre o caso – não há meios de fazer afirmação taxativa sobre o que houve naquela casa pobre no interior do Mato Grosso do Sul.

Há a versão da vítima das queimaduras, alegando que quem ateou fogo foi a mulher; há a versão da mulher, alegando que quem ateou fogo foi a próprio homem queimado; há relatos de violência anterior que pouco esclarecem sobre o que de fato houve naquela tarde. E, pelo que li em todas as reportagens, não há muito mais do que isso.

ATUALIZAÇÃO

Diante da publicação de matérias jornalísticas com afirmações categóricas e tão díspares sobre um mesmo caso e diante da falta de apresentação de qualquer evidência mais sólida do que a palavra dos envolvidos, tentei contato – por e-mail – com a delegacia de Dois Irmãos de Buriti.

Questionei sobre se o atual status das investigações permitiria suportar qualquer dos dois “lados” ou se apresentação de uma tese oficial ainda careceria exames, acareações e investigações futuras.

A delegacia de Dois Irmãos de Buriti respondeu que:

“A respeito do caso, trata-se de procedimento que ainda está em trâmite nesta Delegacia de Polícia, cujo procedimento é sigiloso e, por estar em andamento, não há conclusão a respeito dos fatos, apenas indícios. Ainda aguardamos o resultado do laudo pericial e o retorno da vítima para esta cidade afim de que possa esclarecer os fatos/ dar sua versão sobre o ocorrido. Realmente há informações e versões conflitantes, o que está sendo apurado e será concluído assim que todas as diligências forem realizadas e o inquérito relatado.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s