08 de março vem aí!

Na mídia, nos bate-papos no trabalho, dentro de casa você só vai ouvir sobre como mulheres são incríveis, empoderadas, auto-suficientes, vitoriosas, melhor sucedidas que os homens ou – alternativamente – sobre como mulheres são frágeis, indefesas, desprotegidas, vitimizadas, incapazes, pior sucedidas do que os homens.

Não tem pra onde correr, é uma coisa ou outra. Digo, até podem ser as duas coisas juntas, mas desde que bem destacadas, de modo que não dê margem à compreensão de que um campo em que as mulheres estejam indo estatisticamente “pior” possa ser causa ou consequência de uma variável em que as mulheres estejam indo estatisticamente “melhor”. Isso seria um horror.

É preciso deixar bem claro que se as mulheres vão mal em um aspecto estatístico social, isto ocorre apesar de elas serem incríveis e empoderadas.

E é preciso deixar igualmente claro que, se elas vão melhor em outro aspecto estatístico social, isto ocorre apesar de elas serem oprimidas, sofredoras.

Nunca o sofrimento em uma variável pode ser relacionado como causa ou consequência do empoderamento em outra.

Basta olhar para o que aconteceu nos 08 de marços anteriores: configure seu Google para restringir a pesquisa a um 08 de março qualquer, coloque uma pesquisa clichê do tipo “mulheres são” e divirta-se.

Em 2018, mulheres eram exemplo de comportamento seguro no trânsito: eram incríveis! E eram também a maioria dos usuários de planos de saúde: eram empoderadas! E eram 80% dos docentes no paísdominavam o mercado de Arquitetura e Urbanismo no Brasil: eram maioria em carreiras de prestígio social! Ahhh, mas eram responsáveis por 29% menos de investimentos financeiros: eram vítimas oprimidas de uma sociedade patriarcal que ainda privilegia os homens!

Já em 2015, mulheres eram minoria em Tecnologia da Informação (motivo para lembrar da necessidade de avanço na igualdade de gêneros e da luta contra o machismo que ainda permeia diversos setores da sociedade e mercado ), mas eram maioria no ingresso e na conclusão de cursos superiores ( motivo para celebrar a força da mulher )

PARTE 6

Clique nos links disponíveis nos exemplos acima e confirme o padrão: nas inúmeras variáveis em que se dá conta de que mulheres já estão melhor ou estão prestes a ultrapassar os homens a palavra desigualdade nunca é associada à variável em questão.

O portal Vermelho não chamou de desigualdade ao fato de que mulheres prevalecem na maioria dos cursos de formação superior (tanto na graduação quanto na pós-graduação) no Brasil (e em todo o mundo). A ANS não chamou de desigualdade ao fato de que mulheres são a maioria dos segurados por algum plano de saúde. Nestes casos a vantagem feminina é atribuída ao empoderamento, à força de vontade, ao talento inato feminino para aquele campo.

Já quando o portal Instituto de Engenharia comenta a tênue prevalência geral de homens nas ciências duras, a desigualdade aparece diversas vezes no texto. Quando a Agência Brasil fala sobre os melhores salários médios masculinos, same deal. Neste caso, a prevalência masculina é vista como um defeito a ser corrigido: não é que os homens possam ser mais dedicados ou mais aptos ao campo das ciências exatas. É fruto da opressão machista que afasta as mulheres destes campos de atuação.

A construção da bipolaridade no 08 de março é fundamentalmente baseada em uma estratégia desonesta de argumentação estatística conhecida como cherry picking, ou evidência suprimida. Ela consiste da construção de narrativas sobre cenários complexos – em que há interdependência causal entre diversas variáveis – baseadas em apenas variáveis isoladas.

PARTE 6
Discurso feminista silencia sobre a drástica diferença entre os sexos no trabalho infantil: uma variável obviamente implicada na diferença de escolarização entre os sexos.

É o que acontece – por exemplo – com a lenda de que mulheres são discriminadas no mercado de trabalho por receberem salários médios menores, estudarem em média mais anos e trabalharem em média mais horas por semana nas atividades domésticas.

Esta narrativa foi durante muito tempo a preferida do ativismo feminista e ainda pode ser amplamente encontrada no discurso dominante sobre questões de gênero.

E de fato todas estas três coisas acontecem: a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE revela que os salários médios femininos são menores, que as mulheres trabalham mais horas na atividade doméstica em média e que estudam mais anos em média, mas nada disso é necessariamente revelador de um cenário desfavorável às mulheres.

A narrativa feminista sobre desigualdade trabalhista contra as mulheres só se sustenta quando outras variáveis são solenemente ignoradas: a carga horária de trabalho produtivo, a idade de inserção no mercado de trabalho, a carga horária de trabalho noturno, o tipo de trabalho, o tempo de deslocamento casa-trabalho-casa.

Sem título
Carga horária de trabalho não doméstico: homens são maioria proporcional entre os que trabalham mais que 40 horas semanais. Mulheres são maioria proporcional entre os que trabalham menos de 39 horas semanais. Diferença ajuda a compreender salários diferentes entre os sexos, entre outros aspectos.

O discurso feminista sobre desigualdade trabalhista é ferido de morte quando olhamos para todas estas variáveis de forma honesta, buscando encaixar as variáveis interdependentes (por exemplo: se homens trabalham mais horas fora de casa e ainda gastam mais tempo no trajeto de deslocamento para o trabalho e de volta pra casa é preciso que esses aspectos sejam considerado para refletir sobre o fato de mulheres trabalharem mais horas dentro de casa; ou: se homens entram no mercado de trabalho muito mais cedo, em média, isso não pode ser ignorado ao analisar os números que indicam que elas conseguem estudar um pouco de anos a mais, em média; ou: se homens exercem a maioria dos empregos periculosos e insalubres e a maioria dos empregos em jornada noturna, isso compõe – obviamente – ao menos parte da explicação sobre mulheres receberem salários – médios – menores ).

PARTE 6
Discurso feminista sobre desigualdade trabalhista: salário médio menor, jornada de trabalho doméstico maior e mais anos de estudos são destaques. Demais variáveis não entram na pauta.

Sem que as múltiplas variáveis que compõem o cenário social sejam interpostas e correlacionadas, a bipolaridade do 08 de março fica garantida. Basta lançar números isolados na mesa do debate e celebrar a superioridade feminina (quando os números favorecerem) ou bradar palavras de ordem contra o machismo (quando os números não forem tão bons).

Se a tradição for mantida, a expectativa é de que no domingo que vem não se falará de outra coisa senão de como as mulheres são independentes empoderadas que mandam os dois dedos do meio na cara do patriarcado sem precisar de macho nenhum e – ao mesmo tempo – de como são meninas frágeis indefesas que não vão conseguir resistir ao patriarcado malvadão que as oprime tanto sem a sua valiosa ajuda.

Respire! Relaxe! Entoe um mantra! Não infarte! Você ainda tem muitos 08 de marços pela frente.

LEIA TAMBÉM: UBER PAGA MENOS A MULHERES: E O MOTIVO NÃO É AQUELE QUE VOCÊ PENSOU, FEMINISTA

 

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