Christina Hoff Sommers fala – em uma palestra apresentada há alguns anos, no Canadá – sobre uma matéria do New York Times, que ela havia lido anos antes. A matéria destacava que meninas latinas estadunidenses estavam em péssima condição de educação perante outros grupos demográficos dos EUA.

O artigo do NYT destacava  – com imagens e gráficos e entrevistas – a condição precária das meninas latinas, mas o que chamou a atenção de Sommers foi um parágrafo perdido no texto, quase invisível, que informava que apenas um grupo demográfico estava em pior condição que as meninas latinas: os meninos latinos.

O motivo de eu ter me lembrado de Sommers foi um tuíte da ativista virtual Aline Lima.

A ativista feminista interseccional postou – em virtude do Dia Internacional das Mulheres – que “mais de 40% das negras não têm acesso a saneamento básico, contra 27% das brancas.”

PARTE 6

Eu não me lembrava de ter visto dados sobre prevalência, divididos por sexo e por raça, de acesso a esgoto. Fui procurar e não me surpreendi com os resultados.

Aline está certa, corretíssima: de fato mais de 40% (44,3%, pra dizer a verdade) das mulheres pretas ou pardas não possuem acesso a serviços de saneamento básico, de acordo com o IBGE. Entre mulheres brancas, os números são bem melhores: apenas 27% cravados das mulheres autodeclaradas brancas não têm saneamento em casa. Os dados são da Síntese dos Indicadores Sociais de 2018 (TABELA 4 DESTE DOCUMENTO AQUI): o documento anual produzido a partir da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD).

Mas há um pequeno detalhe que talvez tenha passado despercebido à ativista feminista: existe um grupo em situação ainda mais precária que o das mulheres pretas ou pardas, neste aspecto.

O mesmo IBGE, no mesmo documento, na mesma página, na mesma tabela, revela que apenas os homens pardos ou pretos carecem mais de acesso à serviço de saneamento básico que as mulheres pretas ou pardas: 46,3% dos homens pardos ou pretos vivem em domicílios sem esgoto, água encanada ou coleta de lixo (não são considerados os moradores de rua, que são prevalentemente homens e pardos ou pretos, mas que não entram na amostragem da PNAD).

PARTE 6
IBGE mostra que – percentualmente – população masculina vive com mais restrição ao acesso de serviços básicos como educação e saneamento que população feminina.

O mesmo acontece com mulheres e homens brancos: se 27% das mulheres brancas que possuem algum local de moradia vivem em domicílios sem saneamento, este percentual é de 29% para os homens da mesma etnia.

OUTRAS VARIÁVEIS

Na mesma tabela, o IBGE apresenta percentuais de pessoas que vivem sem acesso:

1  a educação
2 a proteção social (que não são seguradas do INSS)
3 a condições de moradia (que moram em casas sem banheiro ou em barracos de madeira ou sem energia elétrica ou em situação semelhante)
4 a saneamento, água encanada e coleta de lixo
5 a internet
6 a pelo menos três das cinco restrições acima, somadas

Previsivelmente, homens e mulheres brancos sempre estão próximos entre si, e homens e mulheres pretos ou pardos sempre estão próximos entre si. Em 4 das 6 situações, homens pretos ou pardos estão piores que mulheres pretas ou pardas: na 1, na 4, na 5 e na 6.

Importante destacar a categoria 6 e lembrar que ela corresponde àquelas pessoas que não têm acesso a pelo menos 3 dos 5 serviços mencionados antes. Para esta categoria, 22% dos homens pretos ou pardos, e 20,1% das mulheres pretas ou pardas responderam sim.

E homens brancos têm taxas levemente piores que mulheres brancas em 5 das 6 categorias, empatando (9,4% cravados) no quesito de número 3. 9,8% dos homens brancos têm restrição a pelo menos 3 das 5 categorias anteriores, entre mulheres brancas são 8,7%.

Se tomarmos por régua as métricas apresentadas na tabela 4 da Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE – 2018, teremos que o grupo em melhores condições é o das mulheres brancas, seguido de perto pelos homens brancos, seguido de longe pelas mulheres pardas ou pretas. Homens pardos ou pretos vêm em último lugar, com mais restrição de acesso a serviços que qualquer outro grupo.

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