Na última semana, uma propaganda exibida num programa televisivo dominical movimentou os debates virtuais. A polêmica em torno do vídeo culminou – ontem – com a revelação do crime cometido por Rafael Tadeu de Oliveira dos Santos, um dos entrevistados pelo jornalista, escritor e ativista Drauzio Varella.

A mim, o ponto que mais chamou a atenção foi a tentativa de atribuir à transfobia toda a sorte de sofrimentos que aqueles presidiários passavam na cadeia.

A dificuldade de integração no início do período como presidiário, a escassez de acesso a produtos de higiene ou alimentos, o esquecimento por parte de parentes, nada disso me parece que seja particularidade de um presidiário transexual. Todas as penúrias relatadas pelos travestis entrevistados me pareciam intrínsecas à própria condição da prisão.

Sim, as formas como eles resolviam alguns problemas talvez fossem típicas de travestis: Suzy relata que, no começo, se prostituia pra ter algum benefício como uma fatia de bolo ou algo do tipo. Ora, mas a prostituição não era o problema, a prostituição era a solução que Suzy havia encontrado para solucionar o problema da escassez: e este problema não é exclusivo dos presos LGBTs.

Ao tratar as dificuldades típicas de se estar preso como se fossem dificuldades tipicas de se estar preso sendo transexual, a peça de publicidade conduzida por Drauzio me pareceu muito com os diversos relatórios de “mortes por homofobia” conduzidos por ONGs como ANTRA e Grupo Gay da Bahia e também com a pesquisa Lesbocídio, produzida pela UFRJ.

capotamento-peserguicao-policial
Fabiola Oliveira Menezes dirigia um carro roubado quando foi baleada, perdeu o controle, capotou e morreu. Pesquisadoras da UFRJ trataram a morte como caso de “preconceito contra lésbicas” em Dossiê.

Estas instituições se especializaram em tratar toda e qualquer morte de homossexual como sendo exemplo e prova da homofobia institucionalizada, do ódio aos gays espalhado pela sociedade.

Chegam a situações absurdas como as de classificar assaltante baleada pela polícia enquanto fugia dirigindo carro que havia acabado de roubar como exemplo de “morte motivada por ódio às lésbicas”; chegam ao cúmulo de divulgar que o caso de um travesti brasileiro morto de overdose em Roma, Itália, é um exemplo de “crime homofóbico no Brasil”.

Para tais ativistas, qualquer revés que um homossexual sofra é resultado do ódio disseminado contra os homossexuais, mesmo que o revés tenha sido resultado das próprias más escolhas (nada relacionadas com sexualidade) do indivíduo em relação à condução de sua própria vida.

As ruas, os shoppings, as empresas, os cinemas, as praias estão repletas de LGBTs de todos os tons de arco-íris. São pessoas livres, leves e soltíssimas… que nunca experimentaram a penúria de terem que se prostituir numa cadeia por um prato extra de alimento, que nunca foram baleados pela polícia em uma perseguição.

Mas estes LGBTs que lotam praças de alimentação, baladas, escolas, faculdades e igrejas… estes homossexuais livres, leves e soltíssimos tendem a ser pessoas que nunca assaltaram um carro e desabaram em fuga enquanto seus comparsas atiravam contra policiais, como a lésbica morta em Manaus e inclusa em uma lista de “crimes lesbofóbicos” produzida pela UFRJ; tampouco costumam ser pessoas que estupraram e enforcaram uma criança de nove anos de idade, como o herói da peça publicitária conduzida por Drauzio.

No meu entender, este foi o maior desserviço (só para usar uma palavra típica do ativismo identitário, que cabe bem aqui) da propaganda veiculada por aquele programa de domingo passado: a tentativa de reforçar a ideia já bastante disseminada – devido a décadas de fraude e manipulação – de que vivemos numa sociedade profundamente homofóbica e de que todo e qualquer revés contra um indivíduo LGBT (mesmo o revés de ser preso por um homicídio triplamente qualificado contra uma criança, logo após um estupro contra a mesma vítima) seja culpa do preconceito, da discriminação, da intolerância… palavras estas que reinaram na propaganda de cerca de 13 minutos estrelada pelo autor de Carandiru.

LEIA TAMBÉM: ANDY NGO: O TWITTER TE PUNE POR DIZER A VERDADE

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s