A grande imprensa está repercutindo a “informação” de que “a imprensa sofreu 11 mil ataques diários nas redes sociais em 2019”.

A fonte é uma tal de relatório intitulado “Violações à Liberdade de Expressão”, relatório este que foi produzido pela “Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert)”. A “notícia” saiu com destaque no G1, no Globo, no Estadão, na Jovem Pan, no UOL, na Carta Capital e no Escambau a Quatro.

Me dei ao trabalho de baixar o tal relatório, vejam que primor o trecho que fala dos 11 mil “ataques”:

Uma apuração minuciosa feita em parceria com a Bites, empresa de consultoria e monitoramento de dados digitais, aponta que a mídia profissional sofreu quase 11 mil ataques diários pelas redes sociais, o que representa 7 agressões por minuto.

São postagens com palavras de baixo calão ou com expressões que tentam desacreditar o trabalho da imprensa, e foram produzidas por perfis e sites com viés ideológico, tanto da direita quanto da esquerda política brasileira.

A soma dos ataques resultou em cerca de 4 milhões de postagens negativas contra a imprensa brasileira, o equivalente a 10% de tudo o que foi produzido em 2019 sobre a área de comunicação profissional no Brasil.

Bom, pra começo de conversa, eu desconfio da incensada competência da empresa de consultoria e monitoramento Bites: aposto um pacote de bananadas que o número diário de pessoas postando críticas ao trabalho da imprensa seja superior a 11 mil por dia.

Mas o ponto não é esse, o ponto é que esta associação de representantes da imprensa parece não ter percebido ainda que a liberdade de imprensa está no mesmo pacote da liberdade de criticar – veementemente – a imprensa. O documento trata, expressamente, o exercício da liberdade de expressão, por milhões de brasileiros anônimos, como um ataque à liberdade de expressão.

Não é: a liberdade de imprensa nada mais é do que uma manifestação particular da liberdade de expressão, a mesma liberdade de expressão que é direito comum a todos os cidadãos brasileiros.

Liberdade de expressão esta que garantiu o direito do famosíssimo jornalista Ancelmo Góes me chamar de “cuspidor de ódio nas redes sociais” numa nota em que ele falava de um processo judicial movido por três pesquisadoras da Universidade Federal do Rio de Janeiro contra mim.

Liberdade de expressão esta que me permite classificá-lo como um “pulha fofoqueiro e ideologicamente enviesado” por ter se negado a apresentar a minha versão do conflito (mesmo tendo sido procurado por mim mesmo e por pelo menos um de seus colegas de redação do próprio O Globo explicando a situação) e também por não ter emitido nenhuma nota de retratação quando a censura judicial estapafúrdia produzida pela juíza Marcia Maciel Quaresma foi revertida pela turma recursal, por unanimidade.

Sem título

A mesma liberdade de expressão que garante que um jornalista como Drauzio Varella trate a prisão de meia dúzia de travestis – e o sofrimento destes travestis na cadeia – como sendo resultado do preconceito e da intolerância de uma sociedade transfóbica, é a liberdade de expressão que garante a milhares de anônimos criticar à Rede Globo por tal publicidade tosca do vitimismo identitarista LGBT.

A mesma liberdade de expressão que garantiu ao portal G1 e ao Intercept BR o direito de disseminar os dados do estudo fraudulento Lesbocídio e garantiu a toda a imprensa brasileira disseminar por décadas os números falsos do Grupo Gay da Bahia como se fossem informações fiáveis é a liberdade de expressão da qual eu – cidadão comum e anônimo – me valho para afirmar que a imprensa – em sua ampla maior parte – vem sendo desonesta no trato das questões de “minoria” e de seus números.

A mesma liberdade de expressão que garantiu à jornalista Natalia Portinari o direito de publicar uma lista reduzida de “desigualdades” entre homens e mulheres foi a liberdade de expressão que me permitiu – a partir da lista reduzida de Natalia – publicar aqui uma lista ampliada.

Sem título
Jovem jornalista usou sua liberdade para divulgar lista reduzida de “desigualdades” entre homens e mulheres. Anônimo usou da mesma liberdade para deixar a listinha mais completa.

É claro que – sim – o fato de que o acesso à informação e à disseminação desta tenha sido facilitado pelas rede mundial de computadores, complicou o trabalho da imprensa em disseminar narrativas fraudulentas.

As fraudes recentes sobre Joana D’Arc Félix de Souza, Dossiê Lesbocídio, Rafael Tadeu de Oliveira dos Santos, Grupo Gay da Bahia, Bel Pesce, Sabrina Bittencourt entre tantas outras – todas elas fabricadas ou disseminadas pela imprensa mainstream – foram desmontadas por anônimos ou quase anônimos da internet, com o auxílio de meia dúzia de cliques no Google ou algo assim.

O relatório publicado ontem indica que a imprensa mainstream ainda busca assimilar o baque resultante da mudança brusca na troca de informações e ideias, promovida pela internet.

Poderia ser por demência, por incompetência cognitiva grave, que os representantes da Abert pareçam não conseguir compreender que a liberdade que eles possuem de divulgar suas notícias (frequentemente falsas ou enviesadas) e opiniões (frequentemente mal fundamentadas) é grudada com SuperBonder na liberdade que os consumidores da grande imprensa, o grande público, o populacho formado por gente que não necessariamente jamais pisou em uma faculdade de Comunicação Social têm de criticá-las, de opinar em contrário e de denunciar as falsidades nelas presentes, quando encontradas.

Mas não me parece demência. Me parece boa parte da grande imprensa – e de suas associações – sendo o que já tem sido há tempos. Essencialmente desonesta.

LEIA TAMBÉM: LESBOCÍDIO: A FRAUDE DA UFRJ | PARTE 5

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