Ontem vi um meme compartilhado no Facebook. Uma imagem da Lisa Simpson dando uma palestra. Uma frase escrita no slide que dizia mais ou menos assim: “Mulheres só se sentem constantemente oprimidas porque só olham para os homens bem-sucedidos e porque não consideram os homens malsucedidos sequer seres humanos”.

Eu sei, eu sei, a frase é generalista e Quem a homotransfobia não matou hoje? mantém seu propósito de não fazer ataques a grupos de pessoas: mulheres, negros, LGBTs, mas apenas às ideologias que se escoram por trás destes grupos.

Entretanto, se você – ainda – acredita na sandice de que homens são – genericamente – o grupo ao qual se destina a maior soma de privilégios sociais, talvez seja interessante você dar uma ajustada nos seus óculos, olhar ao seu redor: e checar os dados com maior cuidado.

Dias atrás publiquei que – de acordo com o IBGE – homens pretos ou pardos estavam em pior condição geral de acesso a serviços básicos que mulheres pretas ou pardas, que homens brancos e que mulheres brancas (sendo este – o das mulheres brancas – o grupo em melhor condições de acesso).

Acontece que aquele post foi baseado nos dados da Síntese dos Indicadores Sociais de 2018 – relativa aos dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios de 2017. Os dados da SIS 2019 trazem algumas novidades: segundo os dados da PNAD de 2018, a posição dos homens “negros” piorou.

O IBGE mensura, anualmente, os níveis de restrições de acesso em múltiplas dimensões para diversos grupos demográficos. Uma das análises feitas mescla uma abordagem de raça e de sexo: é verificado qual grupo entre homens pretos ou pardos, homens brancos, mulheres brancas e mulheres pretas ou pardas vive em pior condição no que tange a condições de moradia, serviços de saneamento básico, acesso a educação, proteção social e acesso a internet. É medido também o percentual, dentro de cada grupo, das pessoas que têm restrições em 3 destas categorias somadas.


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Na penúltima edição, o grupo globalmente melhor situado era o das mulheres brancas: elas estavam em melhor posição em 5 critérios e empatavam em 1 critério com os homens brancos, que estavam melhor que as mulheres pretas ou pardas em todos os critérios. Estas, por sua vez, estavam melhor que os homens pretos ou pardos em 4 critérios (inclusive no que diz respeito às pessoas que vivem com múltiplas restrições) e pior em 2.

Na versão mais atualizada, os homens pretos ou pardos estão em pior condição que as mulheres pretas ou pardas (e que todos os demais grupos) em todas as categorias.

O QUE É, EXATAMENTE, VIVER COM RESTRIÇÃO DE ACESSO NAS MÚLTIPLAS DIMENSÕES CONSIDERADAS PELO IBGE? 

EDUCAÇÃO: o IBGE considera que vivam em condições de restrição as pessoas de 6 a 14 anos de idade que não frequentam escola, as pessoas de 15 anos ou mais de idade analfabetas, e as pessoas de 16 anos ou mais de idade que não possuem ensino fundamental completo.

PROTEÇÃO SOCIAL: pela definição do IBGE, têm restrição de acesso nesta categoria as pessoas que sofram simultaneamente as duas condições a seguir: i) residentes em domicílios onde não há nenhum morador de 14 anos ou mais de idade que contribua para instituto de previdência em qualquer trabalho e nem seja aposentado/pensionista; ii) residentes em domicílios com rendimento domiciliar per capita inferior a ½ salário mínimo, e com nenhum membro recebendo rendimentos de outras fontes, nem mesmo de programas
sociais.

MORADIA: o IBGE considera que uma pessoa tem restrição de acesso a moradia quando seu domicílio não tem banheiro de uso exclusivo, é feito com paredes externas construídas predominantemente com materiais não duráveis, com adensamento excessivo (3 ou mais pessoas morando em cada cômodo que sirva como quarto)  ou com ônus excessivo com aluguel (valor do aluguel iguala ou supera 30% do rendimento domiciliar).

SANEAMENTO BÁSICO: pessoas residentes em domicílios que não possuem acesso simultâneo a coleta direta ou indireta de lixo, abastecimento de água por rede geral e esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial.

INTERNET: pessoas residentes em domicílios sem acesso à internet.

DADOS DA SÍNTESE DOS INDICADORES SOCIAIS DE 2019

EDUCAÇÃO: 32,6% dos homens pretos ou pardos entrevistados, 30% das mulheres pretas ou pardas, 23,3% dos homens brancos e 22,7% das mulheres brancas das mulheres brancas eram pessoas com este tipo de restrição. Nesta variável, o grupo mais privilegiado foi o das mulheres brancas, e o menos privilegiado foi o dos homens pretos ou pardos. ( Os dados do último Censo da Ensino Superior, produzido pelo INEP, também indicam que mulheres estão em melhor condição que homens neste campo, mas não há recorte de raça naquele estudo. )

PROTEÇÃO SOCIAL: 4,1% dos homens pretos ou pardos, 3,6% das mulheres pretas ou pardas 2,2% de tanto homens quanto mulheres brancas que receberam a visita de um entrevistador do IBGE em 2018 viviam com este tipo de restrição. Homens pretos e pardos foram o grupo em piores condições. Mulheres brancas e homens brancos empataram na melhor posição.

MORADIA: Dos entrevistados pelo IBGE, viviam nas condições descritas acima para moradia: 15,6% dos homens pretos ou pardos, 15,44% das mulheres pretas ou pardas, 9,4% das mulheres brancas e 9,0% dos homens brancos. Nesta variável, este ano, homens brancos apareceram como o grupo em melhores condições. Homens pretos ou pardos aparecem como o grupo em pior condição, de todos.

SANEAMENTO BÁSICO: 45,6% dos homens pretos ou pardos viviam sem água encanada, esgoto ou coleta de lixo; 43,5% das mulheres pretas ou pardas; 29,0% dos homens brancos e 26,9% das mulheres brancas. Mais uma vez, homens pretos ou pardos aparecem como o grupo com maior dificuldade neste aspecto: mais uma vez, mulheres brancas aparecem como o grupo em melhor situação.

INTERNET: 24,8% dos homens pardos ou pretos vivem em casa sem acesso à internet. Entre as mulheres pretas ou pardas o percentual é de 23,0%. 15,4% dos homens brancos e 15,1% das mulheres brancas vivem sem internet domiciliar. O grupo com maior percentual de pessoas vivendo com restrições de acesso à internet é o dos homens pretos ou pardos. O grupo com menor restrição é o das mulheres brancas.

3 OU MAIS RESTRIÇÕES: O IBGE também tabulou os resultados percentuais relativos às pessoas que vivem com restrição em pelo menos 3 aspectos acima – concomitantemente – ou seja: pessoas que vivem em barraco feito com resto de madeira, sem esgoto e água encanada e que ainda por cima não tenham internet. 15,0% dos homens pretos ou pardos viviam em similar condição; 12,7% das mulheres pretas ou pardas; 7,0% dos homens brancos e 5,9% das mulheres brancas.

MORADORES DE RUA

A Síntese dos Indicadores Sociais não inclui, em sua análise, os moradores de rua, já que estes não fazem parte da amostra da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD).

Morador de rua_Rio de Janeiro0004
Pessoas em condição de rua: população majoritariamente masculina e afrodescendente.

Se os moradores de rua fossem incluídos, os percentuais dos homens pretos e pardos provavelmente piorariam bastante, já que existem cerca de 100 mil moradores de rua no Brasil, geralmente homens e de pele escura.

 


LEIA TAMBÉM: A VIOLÊNCIA CONTRA OS HOMENS NO BRASIL EM 5 GRÁFICOS


 

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