SIGA QUEM A HOMOTRANSFOBIA NÃO MATOU HOJE? NO FACEBOOK

Em 2018, três pesquisadoras da Universidade Baylor publicaram o estudo A Systematic Review of Dating Violence Risk Factors Among Undergraduate College Students. A revisão se baseia numa amostra de 23 outros estudos recentes realizados nos Estados Unidos.

Alguns dos 23 estudos selecionados apresentam dados apenas sobre prevalência de agressões cometidas por rapazes (ou seja: desconsideram a possibilidade de que alunas sejam agressoras). Outros só abordam a vitimização em moças (ou seja: não consideram que alunos possam ser agredidos). Considero este tipo de análise epistemologicamente enviesada e indigna de divulgação.

Outra parte – entretanto – aplica os mesmos métodos para investigar as agressões amorosas cometidas por e contra alunas, por e contra alunos. Selecionei 3 destes estudos para comentar a seguir. Em breve comentarei os restantes.


The relationship between violence in the family of origin and dating violence among college students

Clique aqui para acessar o estudo

Angela Gover é doutora em Criminologia e Justiça Criminal, leciona na Universidade de Colorado, Denver. Catherine Kaukinen é doutora em Justiça Criminal, leciona na Universidade da Florida Central. Kate Fox é professora e pesquisadora da Universidade do Estado do Arizona.

As três pesquisadoras estavam interessadas em investigar a existência de correlações entre a propensão à violência amorosa durante a faculdade e a origem familiar.

Será que vir de uma família onde há níveis intensos de violência doméstica afeta a propensão de cometer violência contra um parceiro amoroso durante a vida universitária? Decidiram iniciar uma investigação entre rapazes e moças estudantes de ensino superior.

Foram cerca de 2 500 alunos respondendo questionários padronizados contendo 167 perguntas: rapazes e moças respondiam as mesmas questões, que versavam sobre seus históricos familiares, seus comportamentos e valores individuais e suas histórias recentes de perpetração e vitimização relacionada a violência amorosa.

O artigo menciona que Os primeiros estudos empíricos caracterizaram a violência no namoro como relações envolvendo mulheres como vítimas e homens como agressores. No entanto, desde a primeira violência no namoro publicado por Makepeace em 1981, as taxas de prevalência de mulheres agressores e homens como vítimas aumentaram.

As estudiosas nada afirmam sobre se o aumento de mulheres agressoras e homens vítimas na literatura pode estar relacionado a uma própria mudança na forma como o objeto vem sendo investigado.

Apontam que a literatura prévia apresenta índices muito variáveis de prevalência de violência, indo de 9% a 87%, e atribuem esta diferença aos métodos usados para definir “violência” por cada estudioso: algumas pesquisas focam apenas em agressões físicas, outras incluem violência verbal ou sexual.

Globalmente, 29% dos estudantes que responderam ao questionário aplicado por Gover, Kaukinen e Fox declararam ter cometido e 22% declararam ter sofrido violência física ao longo do último ano antes do preenchimento do questionário.

A hipótese das investigadoras, de que houvesse correlação entre ser oriundo de uma família violenta e estar envolvido em violência amorosa durante a juventude é corroborada. Houve maior prevalência tanto de perpetração quanto de vitimização entre aqueles que relataram que costumavam ser agredidos na infância. Também houve uma forte correlação entre ter sido testemunha de agressão entre os pais na infância e ter cometido ou sofrido violência por parceiro amoroso durante o último ano.

zYpaJSQnmwVHjIp-800x450-noPad
Alunos que cresceram em famílias onde a mãe agredia o pai ou o pai agredia a mãe são mais propensos a cometerem agressão contra seus namorados, segundo a investigação.

As estudiosas encontram uma média geral de 32% das moças e 24% dos rapazes relatando que haviam cometido alguma agressão física contra um parceiro amoroso no último ano, embora não tenham encontrado diferença significativa entre os alunos de ambos os sexos que declararam ser vítimas deste tipo de violência.

As pesquisadoras também buscaram por padrões associados a violência psicológica, e também foi encontrada uma correlação positiva entre ter sofrido ou testemunhado violência entre os pais na infância e cometê-las.

57% das alunas disseram ter agredido um parceiro amoroso verbal ou psicologicamente, e 55% disseram ter sido agredidas. Já entre estudantes do sexo masculino, os percentuais ficaram 50%, tanto para perpetração quanto para vitimização.

Durante a discussão, as estudiosas indicam que estudos anteriores correlacionaram a maior prevalência de mulheres agressoras ao fato delas reagirem mais às agressões sofridas: esta é uma inferência recorrente em estudos do tipo, mas estatisticamente contra-intuitiva.  De qualquer forma as próprias pesquisadoras não testaram esta alegação em seu modelo de estudo.


Interpersonal aggression victimization within casual sexual relationships and experiences

Clique aqui para acessar o estudo

Conduzido por um trio de psicólogos da Universidade de Kent e do Morningside College, este estudo, publicado em 2013, buscava investigar a prevalência de vitimizações em relações sexuais casuais, aquelas em que os parceiros se encontram eventualmente ou apenas uma vez, sem chegarem a constituir um namoro socialmente reconhecido.

Ao contrário do estudo anterior, os pesquisadores não fizeram questões sobre perpetração (não perguntaram aos voluntários se eles haviam agredido um parceiro amoroso), mas apenas sobre vitimização (os entrevistados respondiam se haviam sido agredidos).

O estudo é digno de análise já que – ao contrário da maioria dos estudos sobre vitimização – homens foram incluídos na amostra e a agressão contra os voluntários foram investigadas de acordo com os mesmos critérios utilizados para investigar as agressões contra as voluntárias.

Para investigar o tema escolhido, Klipfel, Claxton e Dulmen selecionaram uma amostra bem reduzida em comparação ao estudo discutido anteriormente: apenas 172 pessoas.

Além do mais, a amostra era desproporcionalmente feminina: 141 alunas e 31 alunos. Os estudantes também responderam a uma série de questões padronizadas em questionários individuais. A grande predominância de alunas em relação a alunos é provavelmente explicada pelo fato de que a seleção de voluntários se deu apenas entre alunos de disciplinas do curso de psicologia, majoritariamente feminino.

Os alunos primeiro classificavam seus status de relacionamento, que eu vou traduzir aqui como namoro sério, ficante, amizade colorida, parceiro casual meramente sexual e uma noite e nada mais. Para todos os 5 níveis de relacionamento, agressões psicológicas e sexuais eram mais frequentes que agressões físicas. E para todos os tipos de agressão, a frequência era maior nos namoros sérios. Curiosamente, não havia um escalonamento em que as agressões aumentavam quanto mais sério ficasse o namoro.

De fato, o grupo com menor propensão à violência, de acordo com a amostra, era o das “amizades coloridas”: a categoria intermediária de cumplicidade.

Sobre a diferença entre homens e mulheres, só há uma informação: uma análise de regressão logarítmica não indicou qualquer diferença de padrão na vitimização de homens e mulheres vítimas dos 3 tipos de violência (física, emocional ou sexual) nos 5 níveis de relação estudados. Mas os pesquisadores pedem cautela na interpretação do resultado, devido ao reduzido número amostral.


 

Gender differences in sexual assault victimization among college students

Clique aqui para acessar o estudo

Os quatro pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade de Clark começam mencionando que alguns comportamentos e aspectos da vida de homens e mulheres funcionam como preditores do risco de ser vítima de violência sexual: citam estudos anteriores que apontam que mulheres são mais propensas a relatar serem abusadas se já sofreram abusos na infância ou em relações anteriores. Entre os homens, os pesquisadores destacam que não ter sido criado pelo pai (junto com a mãe) e ter grande número de irmãos, além de não ser branco, seriam fatores de aumento do risco de ser abusado já apontados pela literatura. Para ambos os sexos, o uso contante de álcool e drogas foi apontado como preditor conhecido.

Explicam que a teoria em que suportam seu estudo prediz uma incidência mais alta de abusos sexuais entre estudantes universitários tanto pelo fato de que a entrada na universidade acontece numa etapa da vida – saída da adolescência – em que o controle e proteção social se relaxam e também porque as situações e comportamentos sociais universitários – como atléticas, chopadas, festas de calouro – favorecem este tipo de agressão.

Ao apresentar as hipóteses que guiavam sua investigação, os pesquisadores previram que encontrariam – percentualmente – mais vítimas do sexo feminino que do masculino, e que a maioria das vítimas de ambos os sexos relatariam o uso de drogas – antes das agressões – por elas próprias e por seus abusadores.

Foram 1 916 voluntários, 535 alunos e 1 381 alunas (os pesquisadores explicam que a maior parte dos estudantes da universidade de onde foi extraída a amostra é do sexo feminino).

Foram enviados e-mails aos alunos de toda a universidade entre 2008 e 2010 pedindo para que respondessem um questionário anônimo sobre a segurança e bem-estar no campus. Foi com base neste questionário, padronizado, que os pesquisadores coletaram seus dados. Os questionários incluíam perguntas sobre vitimização de abuso sexual (desde beijos roubados ou passadas de mão, até estupro), hábitos cotidianos dos alunos, uso de drogas, bem como perguntas sobre outros tipos de vitimização (violências não sexuais) e sobre que medidas de prevenção utilizavam ou não.

Os estudiosos definiram as agressões sexuais em duas categorias: “contato sexual” se referia a beijos, passadas de mão e semelhantes. Já “intercurso sexual” se referia a sexo propriamente dito, com penetração oral, anal ou vaginal.

Neste estudo, alunas foram as vítimas mais prevalentes quando considerado qualquer tipo de violência sexual. 6,6% das voluntárias relataram ter sofrido pelo menos um episódio de abuso de natureza sexual. Entre os homens foram 3,2%.

Quando separados os tipos de agressão por “nível”, contudo, houve semelhança proporcional na maioria das categorias, com enorme dessemelhança em duas.

Mulheres foram cerca de 10 vezes mais propensas a relatarem um “contato sexual indesejado” (isto é: beijo roubado, passada de mão na balada…) e cerca de 6 vezes mais propensas a relatarem um “contato sexual quando estavam muito drogadas pra decidir” (isto é: mesmo sem terem sido forçadas, beijarem outra pessoa depois de terem bebido demais ou usado muita droga).

Nas outras 4 categorias descritas pelos estudiosos: “ameaça de contato sexual”, “ameaça de intercurso sexual”, “intercurso sexual forçado” e “intercurso sexual drogado demais para decidir” houve grande semelhança, com homens de fato tendo sido um pouco mais prevalentes entre as vítimas de “intercurso sexual forçado” e “intercurso sexual drogado demais para decidir”.

f44535c82f4ed9c1f4966d82eaa8b183
Bebidas em festas universitárias estão relacionadas a maior prevalência de vitimização tanto para homens quanto para mulheres, segundo o estudo, mas há diferenças.

Outras diferenças interessantes encontradas pelos pesquisadores em sua amostra: mais alunos que alunas eram agredidos quando estavam em sala de aula, quando estavam dormindo ou quando estavam em um encontro amoroso; mais alunas que alunos eram agredidas quando estavam em alguma atividade de lazer fora de seus dormitórios; os percentuais de alunos e alunas agredidos em situações como baladas e atividades de lazer em suas próprias residências eram semelhantes entre os sexos.

Outra diferença: alunos eram mais agredidos por outros alunos (violências homossexuais) do que alunas eram agredidas por outras alunas; mas, para ambos os sexos, a maioria das violências ( 74,3% no caso de vítimas homens e 97,7% no caso de vítimas mulheres ) eram cometidas por pessoas do sexo oposto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s