SIGA QUEM A HOMOTRANSFOBIA NÃO MATOU HOJE? NO FACEBOOK

Em O Mágico de Oz, quando Dorothy pergunta ao Espantalho para qual lado deveria seguir, ele aponta para ambas as direções. Na versão sincronizada com o álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, a cena coincide exatamente com os primeiros acordes de Any Colour You Like.

Tragédias humanas também podem ganhar as cores que os ativistas identitaristas bem desejam, de acordo com os caminhos ideológicos que escolhem. Se o ativista segue pelas trilhas do afro-feminismo, a crise humanitária pode ser pintada com tons de rosa e de preto. Quem escolhe a estrada do ativismo LGBT pode preferir que a catástrofe seja pintada com seis das sete cores do arco-íris.

A receita para transformar uma pandemia em uma tragédia particular das mulheres afrodescendentes ou dos gays, das lésbicas, dos travestis e dos assemelhados não muda: manipule as estatísticas, selecione as variáveis favoráveis com a ponta dos dedos, omita os dados contrários ao seu desejo: torture os números até que eles confessem.

PARA JORNALISTA DE O GLOBO, CRISE É AFRODESCENDENTE E FEMININA

Sem título
Ativista de O Globo parece ter se inspirado em Marisa Monte: assim como o clássico álbum da cantora e compositora carioca, a crise de Flávia é rose and charcoal

Uma verdadeira aula sobre como pintar uma crise humanitária com suas cores ideológicas preferidas foi dada por uma jornalista de O Globo nesta última sexta-feira.

Flávia Oliveira é mulata, como eu. Ao contrário de mim, Flávia deseja provar que a crise humanitária desencadeada pelo novo coronavírus tem um viés étnico. Flávia é mulher, e ela também deseja provar que a crise global causada pelo Covid-19 é especialmente feminina.

Para cumprir seus intentos, Flávia se abasteceu de dados, mas não quaisquer dados: dados pinçados a dedo: 15,5% dos negros (ou pretos e pardos, como o IBGE define) brasileiros enfrentam restrições de acesso a condições de moradia; em Chicago, negros são 72% dos mortos pelo Covid-19; 30,8% dos nordestinos vivem sem internet; mulheres negras sofrem maiores taxas de desemprego. Com estes dados, a ativista deseja demonstrar que “A crise atual tem cor e gênero. É negra e feminina”. A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado já havia defendido tese semelhante em artigo publicado no Intercept Br.

Seria possível discutir os critérios de seleção aplicados pela jornalista ou sugerir outras variáveis que ela poderia ter considerado, mas os números apresentados são fiáveis. Exceto por um erro no ano de publicação da Síntese dos Indicadores Sociais, Flávia informou corretamente as fontes. Ocorre que as informações apresentadas no texto estão curiosamente incompletas. Flávia omitiu detalhes cruciais das próprias fontes usadas para suportar sua hipótese central.

Dados divulgados pela prefeitura de Chicago mostram que, até 09 de abril, 132 dos 196 mortos na cidade pelo novo coronavírus eram negros. Flávia destacou esta prevalência como prova de que a crise tem um viés étnico. Flávia não queria mostrar apenas que a crise é negra, mas negra e feminina. Os mesmos dados apontam que 118 dos 196 mortos eram homens. Sobre isto, Flávia silenciou completamente.

A diferença de letalidade entre homens e mulheres não é exclusiva da grande cidade de Illinois. O “NYT” indicou – em matéria de 07 de abril – que o coronavírus vem matando dois homens para cada mulher em Nova York. Em 26 de março, o The Guardian dizia que homens eram 61% dos mortos na Inglaterra e no País de Gales. O The Washington Post informou – no mesmo dia – que homens eram 65% dos mortos na Espanha. No Brasil, até o dia 10 de abril, o Ministério da Saúde confirmou o óbito de 494 homens e de 355 mulheres.

Se a proposta do artigo era uma abordagem étnica e sexual da crise, qual sentido em dar destaque aos dados de uma cidade distante sobre a prevalência de mortes por etnia e ignorar os dados globais e locais sobre a prevalência de mortes por sexo? Aliás, os dados atuais do Ministério da Saúde indicam que 64,5% dos mortos em nosso país são brancos.

Flávia alardeia os dados do IBGE sobre restrições de acesso a serviços. Destaca que negros estão em má situação estatística quanto a condições de moradia, e é verdade. Segundo o IBGE, negros estão em pior condição que os brancos no acesso a internet, saneamento básico, condições de moradia, proteção social e educação. E segundo o mesmo IBGE, os homens estão piores que as mulheres, e os homens negros estão piores que as mulheres negras, nas mesmas cinco variáveis destacadas por Flávia. Sobre isso, Flávia não menciona uma vírgula.

Parece que Flávia tem um raro problema oftalmológico: ela só é capaz de enxergar dados em que os negros estejam piores estatisticamente que os brancos. Quando os mesmos dados dizem que homens estão em situação pior que mulheres, os olhos dela embaçam e ela não vê mais nada.

PARA JORNALISTA DO UOL, HOMOSSEXUAIS SÃO MAIS SUSCEPTÍVEIS AO NOVO CORONAVÍRUS

Sem título
Ativista do UOL deixou a crise mais colorida: vermelha, laranja, amarela, verde, azul e lilás.

A receita utilizada por Márcio Rolim para “provar” que os LGBTs são mais vulneráveis à nova pandemia segue o mesmo modo de preparo usado por Flávia, ele também pinça com a pontinha dos dedos dados aleatórios que pareçam servir à sua hipótese de especial vitimização.

É claro, os ingredientes, quer dizer, os dados, são outros: Márcio vai destacar coisas como a maior prevalência de HIV entre os LGBTs, o maior uso de tabaco ( Márcio não apresenta fontes para esta informação ) entre LGBTs e uma suposta e difícil de demonstrar empiricamente “ocorrência de discriminação, atitudes hostis e falta de entendimento dos provedores e funcionários em muitos locais de assistência médica”.

De tudo o que o moço mencionou, a única coisa realmente checável é a maior prevalência de HIV na população LGBT, mas esta é uma estratégia muito curiosa de pintar as cores do arco-íris numa crise humanitária global que afetará de formas diversas pessoas das mais diferentes “cores” identitárias.

Afirmar que os LGBTs estão mais susceptíveis ao coronavírus por serem a maioria dos infectados com HIV é mais ou menos o mesmo que afirmar que flamenguistas e corintianos estão mais susceptíveis aos coronavírus porque são a maiorias dos usuários do SUS nas duas maiores cidades do país . São saltos lógicos, correlações apriorísticas feitas ao gosto do freguês.

Basta você pinçar meia dúzia de variáveis, comprováveis ou não, ignorar qualquer dado em contrário (como Flávia fez de maneira tão sublime, ao ignorar os dados masculinos relativos às próprias variáveis que destacou para demonstrar que negros são as maiores vítimas) e voilá!

É corinthiano? Diga que os alvinegros são mais susceptíveis ao coronavírus porque a maioria dos gays paulistas torce pro timão (e aí lembre que o ativista do UOL já “provou” que gays são mais vulneráveis). É flamenguista? Diga que rubro-negros são mais vulneráveis ao coronavírus porque a maioria proporcional dos torcedores mais pobres, que não podem pagar plano de saúde, são rubro-negros.

Lembre-se desta regra de ouro do ativismo identitarista: sempre haverá uma variável disponível para que você se vitimize especialmente, caso você tenha muita necessidade de se ver como uma vitima especial.

Nenhum pensamento

  1. Essa gente é doente mental não é possível!!
    O pior é a Globo dar ouvido para esse bando de retardado mental é só asneira que essa gente fala ativistas de merda

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s