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No dia 22 de maio as hipóteses de que as substâncias farmacêuticas cloroquina e hidroxicloroquina sejam efetivas no tratamento do novo coronavírus pareciam ter recebido um golpe mortal.

Um estudo publicado pela revista The Lancet, uma das mais antigas e bem conceituadas publicações científicas em Medicina, indicava que condutas terapêuticas associadas às duas substâncias não melhoravam a condição dos pacientes portadores de complicações respiratórias resultantes de infecção pelo novo coronavírus. Pior que isso: o uso destes medicamentos, apontava o estudo, aumentaria de forma estatisticamente significante o risco de óbito em tais pacientes. As conclusões seriam resultantes de uma análise feita a partir de dados de mais de 90 mil pacientes hospitalizados em diversos países.


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A OMS, que vinha patrocinando alguns estudos com a substância, interrompeu tais pesquisas logo após a publicação deste estudo. Podia ser observado um tom de comemoração nas redes sociais e na imprensa, pelo aparente resultado negativo, em um um cenário em que o uso ou não das duas substâncias foi politizado (no Brasil e nos EUA, apoiadores dos atuais presidentes se tornaram propagandistas do uso dos medicamentos no tratamento de infectados pelo novo vírus e opositores políticos dos mesmos se tornaram críticos ferrenhos da medida terapêutica experimental).

Menos de duas semanas depois, os resultados negativos apresentados pela The Lancet começaram a ser seriamente colocados sob suspeita de fraude ou, no mínimo, de desleixo metodológico.

Tanto a The Lancet quando a New England Journal of Medicine (que havia publicado também um estudo conduzido pelos mesmos pesquisadores) apresentaram “manifestações de preocupação” anteontem, dia 02 de junho de 2020.

Uma “manifestação de preocupação” é publicada por uma revista científica quando há indícios consideráveis de que um estudo divulgado anteriormente por ela seja metodologicamente incorreto ou desonesto. Ontem, dia 03 de junho, a OMS anunciou que retomou a coleta de dados sobre os efeitos da hidroxicloroquina no tratamento da infecção pelo novo coronavírus. E hoje, 04 de junho, a The Lancet anunciou a retratação do paper que dizia que hidroxicloroquina e cloroquina não apenas não melhoram, mas pioram as condições de saúde e taxas de mortalidade em pacientes hospitalizados por conta de infecção pelo novo coronavírus.

AS SUSPEITAS

As suspeitas quanto à validade do estudo publicado semana retrasada pela The Lancet vieram de diversas direções, mas um dos eventos mais importantes foi a publicação —por 202 médicos – de uma carta aberta, no dia 28 de maio. 

Entre os pontos destacados por eles, estava “um controle inadequado para fatores de complicação epistemológica conhecidos e medidos (gravidade da doença, efeitos temporais, efeitos do local, dose utilizada)”.

Matthew Semler, um médico intensivista da Universidade Vanderbilt, explicou em entrevista a ScienceMag: “Se você tem um médico com dois pacientes com coronavírus, e ele decide administrar hidroxicloroquina a um deles e não ao outro, ele o faz por alguma razão: o paciente pode estar contando com altos níveis de oxigênio suplementar, por exemplo, ou piorando com o tempo. Mas esses tipos de detalhes não estão disponíveis no estudo do The Lancet”.


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Ou seja: é possível (e provável) que os pacientes que receberam hidroxicloroquina ou cloroquina apresentassem — em geral — pior estado inicial que os que não receberam. Neste caso, a alta taxa de mortalidade entre os que tomaram hidroxicloroquina não seria resultado da falta de efeito (ou efeito negativo) do medicamento, mas das próprias condições de saúde já mais debilitadas dos pacientes tratados com este medicamento. Para que os dados fossem comparáveis, seria preciso haver controle epistemológicos destes aspectos, o que não foi apresentado na publicação de 22 de maio.

Outro problema indicado na carta foi uma série de contradições entre os números apresentados pela empresa que forneceu os dados da pesquisa (de propriedade de um dos autores do estudo) e os dados oficiais de diversos países investigados. Em alguns países, o número de pacientes que teriam diagnóstico confirmado de Covid-19 apresentados pela empresa seria maior do que o número de pacientes hospitalizados confirmados por dados oficiais.

Por exemplo: enquanto oficialmente a Turquia só tinha 191 casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus até o dia 18 de março (em todo o país), o estudo da The Lancet aponta que os pesquisadores analisaram 346 casos de pacientes internados com resultados positivos em apenas 3 hospitais turcos, todos eles de antes do dia 15 de março. Os autores da carta também indicam suspeita quanto aos dados do Reino Unido. A pesquisa da The Lancet indica que foram avaliados 706 casos de pacientes hospitalizados com diagnóstico laboratorial positivo para o novo coronavírus, todos até 15 de março. O problema é que, até esta data, nenhum hospital de Londres tinha 100 hospitalizações com diagnóstico confirmado de Covid-19. Os autores da carta destacam que Londres era o principal foco da pandemia no Reino Unido até então.

Também chamou a atenção dos 202 médicos o fato de que os dados de base, de terapêutica e de resultados nos cinco continentes tenham sido muito semelhantes, quando há severas diferenças entre eles tanto no comportamento da pandemia quanto nas características dos serviços médicos.

Com relação aos dados africanos, por exemplo, os 202 médicos observaram que um percentual muito grande dos pacientes teria que ter morrido em hospitais tecnicamente muito bem equipados, para que os dados do estudo estivessem corretos. Em função da precária infra-estrutura hospitalar da maioria dos países naquele continente, os autores da carta consideraram improvável que os autores do estudo realmente tivessem informação fiável sobre 40% de todas as mortes por Covid-19 em território africano.

Os autores da carta aberta também notaram que a dose média diária de hidroxicloroquina aplicada nos pacientes estava acima da dose recomendada pelo órgão de controle dos EUA, embora 2/3 dos dados do estudo viessem daquele país. Também sobre os dados da Austrália, os 202 médicos notaram que o estudo indicava que 49 pacientes australianos teriam recebido cloroquina e 50 teriam recebido hidroxicloroquina, mas só a hidroxicloroquina é facilmente disponível naquele país: o uso de cloroquina é restrito e necessita de solicitações especiais de autorização ao órgão regulador.

RESULTADO

Após quase duas semanas de debate público, os autores do estudo pediram a retratação do paper à The Lancet. A The Lancet havia solicitado esclarecimentos aos autores sobre os questionamentos acima e sobre outros indícios de inconsistência metodológica ou fraude.

Os autores do estudo reconheceram que não têm mais como garantir a verdade em relação aos dados e a correção em relação às conclusões publicadas no dia 22 de maio.

A The Lancet reconheceu, em sua declaração de retratação, que há muitas questões pendentes sobre a Surgisphere (a empresa responsável pela captura dos dados usados no estudo, junto a centenas de hospitais associados, e que é de propriedade de um dos autores da pesquisa) e sobre os dados que supostamente foram incluídos no estudo e indicou necessidade urgente de análises institucionais das demais pesquisas que contem com colaboração da Surgisphere.

O estudo publicado pelo mesmo grupo de pesquisa na revista New England Journal of Medicine também foi retirado do ar nesta quinta-feira. Este estudo não tratava dos efeitos de cloroquina e/ou hidroxicloroquina.

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