Rio de Janeiro, 28 de outubro de 2020

Não, não vou debater aqui sobre a correta classificação do Pongo pygmaeus dentro da ordem dos primatas. De fato, há puristas que dizem que chamar chimpanzés, orangotangos e gorilas de macacos seria errado: macacos seriam apenas os primatas do gênero Macaca, como o Macaca nigra (da foto abaixo) ou o Macaca fuscata (aquele macaco japonês que toma banho de água quente). Não é a discussão aqui.

Macaca nigra: macaco em todos os sentidos.

Acontece que uma carioca de nome Jaqueline estava num bate-boca, num quiprocó com um outro carioca. Ele queria que ela usasse máscara: ela não queria usar. No meio da discussão, a mulher chamou o sujeito de orangotango. Ao ser interpelada pelos policiais, argumentou “Macaco, nada! Eu chamei de orangotango!

A moça virou piada nas páginas associadas ao ativismo negro, sob o argumento de que “orangotango” é um hipônimo de “macaco” (ou seja: se chamou de orangotango, então chamou de macaco).

Ativista negra confunde os significados conotativo e denotativo das palavras orangotango e macaco em um tuite: burrice ou desonestidade?

Errado, e provavelmente desonesto: macaco só é hiperônimo de orangotango se a utilizamos no sentido de “qualquer espécie de primata não humana”, que é um de seus sentidos denotativos (o outro sentido denotativo de macaco, mais estrito, se restringe aos primatas membros do gênero Macaca, como explicado no primeiro parágrafo, e aí orangotango não seria macaco).

Acontece que quando xingamos alguém de macaco ou de orangotango estamos usando de conotação.

Ninguém que xinga o outro de macaco, ou de orangotango, quer dizer de fato que a pessoa xingada é um membro de outra espécie que não a humana. Como xingamentos, orangotango e macaco têm sentidos bastante diferentes. Macaco é de fato um termo usado frequentemente contra negros, em alusão à relativa semelhança física de pessoas negras com gorilas ou chimpanzés (embora também possa ser usado sem fazer alusão à raça).

Orangotango, por sua vez, aparece em nosso idioma apenas como xingamento referente aos modos e aptidões cognitivas do sujeito, independente da etnia: aliás, orangotangos (os bichos) não são negros, são vermelhos. Quem chama alguém de orangotango está chamando esta pessoa de burro (deficiente cognitivo) ou cavalo (grosseiro, estúpido, sem modos).

Os prints abaixo exemplificam o uso corrente do termo na variante brasileira da Língua Portugues. São pessoas sendo xingadas publicamente de “orangotangos” em tuites recentes: observe que nenhum dos xingados é negro, mas todos são chamados de orangotangos.

Pessoas brancas sendo chamadas de orangotangos em alusão aos seus modos ou capacidades cognitivas.

É claro que os ativistas do movimento negro entendem isto: é claro que vão continuar fingindo não entender e divulgando este caso como sendo o de uma ofensa racista. Não se pode perder um racismo destes, racismo é muito importante para a sobrevivência do movimento racista negro, não se pode desperdiçar uma oportunidade desta de transformar um xingamento não racista em uma injúria racista.

QUE DIFERENÇA FAZ?

Pela lei brasileira, xingar uma pessoa é sempre crime, mas há diferenças tanto no texto da lei como na forma como o Poder Judiciário de fato trata as denúncias. Pelo texto da lei, pronunciar xingamentos que se refiram a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência é mais grave do que qualquer outro xingamento: a pena é maior.

É isto que diz o artigo 140 do Código Penal: se a injúria contém os elementos acima a pena é de até 3 anos e multa. Se não, a pena é de no máximo 6 meses, ou multa.

Desta forma, xingar um negro de macaco (fazendo alusão ao seu tom de pele) seria bem mais grave do que xingar uma pessoa qualquer de orangotango (fazendo alusão à sua grosseria e/ou burrice). Também seria menos grave chamar um homossexual de “bicha safada” (e seria mais grave chamar um umbandista de “macumbeiro desgraçado”); seria menos grave chamar um gordo de “baleia orca assassina, poço de banha” (e seria mais grave chamar um branco de “leite azedo filho da puta”).

Acontece que a letra fria da lei é constantemente interpretada e manipulada pelo Poder Judiciário: há decisão judicial que diz que xingamentos racistas contra brancos não são crimes (mesmo que a lei diga que não apenas é injúria, como é injúria qualificada), por exemplo.

LEIA TAMBÉM: Sobre Ciro vs Fernando e PHA vs Heraldo: um argumento “contra a injúria” e ‘Mulato vem de mula’ e outros mimimis.

Nenhum pensamento

  1. Achei bastante interessante, nem sabia do caso até ler essa publicação. Bem, infelizmente basta pisar na sombra de algumas pessoas ou movimentos que você sem sombra de dúvidas vai arrumar um grande problema, não estou me referindo ao caso em específico pq como eu disse “nem sabia do caso até ler essa publicação”. Fica o alerta, pois nem todo mundo tem a boa vontade, disponibilidade e capacidade de fazer uma busca detalhada como o(a) autor(a) da publicação para tirar uma melhor conclusão dos fatos nesse mundo tão polarizado, aonde a gente tem que fazer igual fábrica de vodca e filtrar a informação várias vezes até chegar aos fatos.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s