Uma feminista desconhecida postou em sua página do Facebook o seguinte meme:

O meme parte da popular – e falsa (veja fontes no fim do post) – inferência de que violências domésticas, afetivas e contra crianças são exclusivamente cometidas por homens e exclusivamente sofridas por mulheres. Passando pela postagem, que invadiu minha timeline, decidi apresentar alguns exemplos em contrário nos comentários.

E a moça parece que ficou um pouco nervosa ao ter sua narrativa sectária desmentida:

Bastou ser lembrada de que existem crimes cometidos por mulheres lésbicas contra suas parceiras amorosas, que a feminista se destemperou e me xingou através de uma ofensa considerada homofóbica. Ela apresentou uma fonte para a afirmação de que há um “epidemia de homens matando mulheres no Brasil”: o programa do Datena.

Falou também em “dados consolidados de feminicídio”. Parece que a moça acredita que dados de “feminicídio” no Brasil se referem exclusivamente a assassinatos de mulheres cometidos por homens, quando até quem se informa pelo G1 sabe que os dados oficiais de “feminicídio” no Brasil incluem assassinatos de mulheres cometidos por outras mulheres, e até suicídios e mortes não violentas.

Bem, resolvi postar mais algumas exceções, sem saber exatamente quantas exceções são necessárias para fazer com que uma exceção deixe de ser exceção.

A moça, em seguida, bloqueou os comentários alegando ódio às mulheres. Que pena.

MAS E QUANTO AO MEME? O QUE TEM NAS PERNAS DO SUJEITO E DO OBJETO?

Ao contrário do que é incessantemente divulgado através de discursos políticos, matérias jornalísticas e memes como o publicado no início deste post, não é honestamente possível estimar uma clara e inequívoca prevalência de vitimização e perpetração de violência doméstica/afetiva.

Um estudo patrocinado pela OMS e publicado na The Lancet em 2013 estimou que, no Brasil, haveria mais homens que mulheres assassinados pelo próprio parceiro amoroso, contradizendo a narrativa. A amostra usada, entretanto, era limitada. Não há dados que permitam comparar globalmente o total de homens e mulheres assassinados por parceiros amorosos no Brasil.

Outro estudo, este sobre violência contra crianças, indica mulheres como maiores assassinas e meninos como maiores vítimas. Tanto este como o mencionado no parágrafo anterior são estudos conduzidos pela epidemiologista Heidi Stockl, com base em dados oficiais de diversos países.

Um estudo da UNIFESP em 2012 e outro feito pela mesma universidade em 2006 indicam que o número de agressões físicas em relacionamentos amorosos são mais frequentemente cometidas por mulheres e contra homens. Em ambos os estudos, o percentual de mulheres que diziam ter sido agredidas pelos seus parceiros era menor que o de homens, e o número de mulheres que confessavam ter agredido fisicamente seus companheiros era maior que no sexo oposto.

No resto do mundo, estudos baseados em distintas metodologias (entrevistas padronizadas e revisão de dados oficiais) não indicam coisa diferente. Neste aqui, publicado pelo principal órgão epidemiológico oficial dos EUA – o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) – os resultados apontam, com base em mais de 10 mil entrevistas – que quando apenas um dos parceiros é violento fisicamente – em 70% dos casos a violência parte da mulher. Em cerca de 1/4 das entrevistas foi indicado que a violência era mútua: as mulheres entrevistadas tanto batiam quanto apanhavam, assim como os homens.

Neste outro estudo, também conduzido pelo CDC, foi encontrada pouca diferença percentual de vitimização nas respostas dadas por homens e mulheres heterossexuais, bissexuais e homossexuais indicando que para ambos os sexos e sexualidades, a probabilidade de ser agredido por seu parceiro é semelhante (neste estudo mulheres lésbicas apresentaram percentuais um pouco maiores de vitimização que mulheres heterossexuais, mostrando que – ao menos entre as pessoas que foram entrevistadas – companheiras lésbicas agridem até mais que homens heterossexuais).

Estudos baseados em questionários padronizados respondidos por estudantes universitários dos EUA também indicam que para violências diversas – sexuais, físicas ou emotivas – namorados e namoradas agridem e são agredidos de maneira semalhante.

Agora, é claro, se você é feminista, você pode continuar divulgando a lenda de que dá pra adivinhar o sexo de um agressor e de uma vítima de violência doméstica com base apenas na premissa de que os agressores são predominantemente homens e as vítimas são predominantemente mulheres. Honestidade com os números nunca foi o forte de feminista.

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